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Rota 66 - Two souls collide

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26 Re: Rota 66 - Two souls collide em Sab Out 13, 2012 8:38 pm

Embarassed Perdoem minha péssima cena ''hot'' que estão prestes a ler (spoiler detected ), é que essa foi minha primeira fic, então....Eu não sabia muito bem como narrar essas coisas...E ainda não sei!

Enfim...Ai, que vergonha! Embarassed

Capítulo 9-Em chamas


Ensaiamos à tarde toda.Depois eu tomei um banho e me arrumei.Vesti uma blusa xadrez, para combinar com a ocasião.Aluguei um barco pequeno, prendi no teto do carro e fui para a casa de Lucy.Todas as luzes estavam apagadas, exceto a do quarto dela.Continue assim.Por favor...Não olhe!Eu queria tanto que tudo desse certo.Então tratei de me apressar, antes que a curiosidade de Lucy estragasse tudo.

Com muito custo, muito custo mesmo, consegui tirar o barco de cima do carro e empurrá-lo pra perto do lago.Foi muito difícil não fazer barulho.Coloquei uma pequena mesa dentro do barco e fui preparar o jantar.Fiz uma macarronada bem simples, com um pouco de queijo ralado por cima.Tampei e levei para a mesinha.Também peguei uma garrafa de vinho que estava no meu carro.Ascendi um monte de velas flutuantes e as espalhei nas márgens do lago.As velas deram um aspecto dourado na água.

Subi as escadas e bati na porta do quarto de Lucy.Quando ela abriu a porta, eu me surpreendi, como sempre.Mas dessa vez ela estava comum.Usava uma calça jeans, uma regata branca e chinelos de dedo.
-Você está linda!-Eu disse, não conseguindo esconder meu encanto repentino.-Você está diferente hoje.
-Fiquei com medo de me enfeitar demais e acabar atrapalhando sua surpresa..
-Está ótimo!-Eu a beijei.Peguei um lenço que trouxera, vendei os olhos dela.-Promete que não vai espiar?
-Prometo!
-Se você fizer isso, eu posso ir embora e nunca mais voltar?
-Bill!-Ela me repreendeu.-Não!
-Então você vai olhar?-Eu ri.
-Não.Prometo!

A peguei no colo e a carreguei até a árvore onde havia a gangorra.
-Lembra que foi aqui que você disse que estava apaixonada por mim?-Eu disse a abraçando por trás.
-Lembro.-Ela sussurrou.Eu podia sentir o coração dela batendo rápido demais.
-Hoje é minha vez de dizer.-Eu tirei a venda dos olhos dela.-Eu estou apaixonado por você, Lucy.
-Isso é...Lindo!
-Gostou?
-Você...É bom demais pra ser de verdade!-Ela se virou e me abraçou.

Eu sorri e peguei a mão dela e a levei até o barco.Eu o empurrei até o lago e depois de entrarmos nele, remei para longe da márgem.
-Ainda não posso te levar até Veneza, mas podemos fingir que estamos lá.-Eu disse sorrindo.
-Você...É incrível!
-Mas não é só isso!-Eu destampei a bandeja de macarronada.-Já que ''estamos'' em Veneza, temos que comer uma boa comida italiana.
-Você que fez?
-É a única comida italiana que sei fazer.Ah, e eu trouxe vinho também.
-Eu gosto de vinho.Mas não me deixe beber muito, ok?Sou muito fraca pra bebida!

Ela não mentiu quando disse isso.Depois do jantar nos sentamos debaixo da árvore e bebemos a garrafa inteira de vinho.Eu não fiquei nem um pouco alterado.Para mim, água e vinho surtiam o mesmo efeito.Mas Lucy ficou quinhentos quilômetros pra lá de Bagdá!Ela ria àtoa o tempo todo e tive que segurá-la pra ela não nadar no lago.
-Ah, Bill!Por favor!-Ela pedia, se debatendo nos meus braços.
-Não, Lucy.Está frio!
-Mentira!Eu não estou sentindo frio...
-Você quer água, não é?-Eu disse.-Então você vai ter água!

Eu a peguei no colo e a levei até o banheiro.Liguei o chuveiro na água fria e a obriguei a ficar embaixo dele.
-Não era isso que eu queria!-Ela resmungou.
-Mas isso vai tirar essa bebedeira!Esqueci de te vigiar...Sua maluquinha!
-A água tá gelada, Bill!-Ela reclamou, tremendo.
-Pare de reclamar!Nem tá tão fria assim...
-Ah, não?-Ela me puxou pela gola da camisa e me enfiou embaixo do chuveiro.A água estava gelada mesmo.Fiquei todo enxarcado e meu cabelo se desmanchou todo.
-Lucy!-Eu protestei.-Por quê você fez isso?
-Pra você aprender a ser menos cruel!-Ela ria exageradamente.
-Não sou cruel!-Eu a abracei, rindo também.-Vou ter que voltar pra casa todo encharcado!
-Não volte.-Ela disse, ficando séria.Ela me beijou.Suas mãos percorreram meu pescoço e começaram a abrir os botões da minha camisa.
-Lucy, eu acho que ainda não...-Eu peguei suas mãos trêmulas.
-A noite está tão perfeita, Bill!-Ela me interrompeu, fazendo um tom de súplica na voz.-Não estrague tudo.

Soltei as mãos dela e desliguei o chuveiro.Olhei aquela garota.Ela não parecia ser infantil, não parecia mais ser aquela garota ingênua.Mas ainda era a minha Lucy, sonhadora, corajosa e divertida.

''Eu estou apaixonada por você, Bill...''

''Você está louco pra ficar com ela...''

''Amar não é errado...''

''Eu estou apaixonado por você, Lucy...''


Eu a encostei nos azulejos do banheiro e a beijei, pressionando meu corpo contra o dela.Lucy arrancou minha camisa e a jogou longe.Eu a ergui do chão e ela passou as pernas em volta da minha cintura.Aquele beijo parecia nunca ter fim.Eu não conseguia mais parar.Não conseguia nem pensar direito!Era quase impossível me lembrar de alguma coisa, mas mesmo assim me lembrei que ela era virgem e que o banheiro sería um lugar meio desconfortável para a primeira vez.
-Espera.-Eu disse, tentando me controlar.
-O quê?-Ela sussurrou.Estava ofegante e seus olhos estavam fechados.
-Vamos com calma.
-Por quê?
-Porque sim, Lucy.
-Não.Está bom assim...-Ela voltou a me beijar intensamente.Aonde está a Lucy quietinha e inocente?Esta Lucy está me deixando louco!
-Lu-Lucy.Espera.
-Desculpa.-Ela disse me soltando devagar.-Ainda estou meio bêbada.-Ela sorriu.

Fomos para o quarto e Lucy trancou a porta e eu a encostei contra ela, como fizera no banheiro.Mas dessa vez a beijei com mais calma.Tínhamos todo o tempo do mundo, pra quê apressar tanto as coisas?Tirei a regata que ela usava e beijei seu pescoço, descendo para o ombro.Ela deslizou as mãos pela minha barriga e abriu o zíper da minha calça, enquanto eu tentava abrir aquele maldito sutiã que ela usava.Quem foi que inventou esse fecho?Maldito seja!
Ela rodeou as pernas em volta da minha cintura, de novo.E eu a carreguei até a cama, quase caindo em cima dela.Meu corpo reagia ao toque da pele dela, me fazendo ter calafrios.Sentia calor e frio ao mesmo tempo.Os dedos dela passeavam pelas minhas costas, a sensação era ótima!Me deixei levar completamente, quando percebi, já era impossível parar.Pra quê eu iría querer parar, afinal?Me livrei das minhas calças (que já estavam me encomodando) e voltei a beijar Lucy, que também se livrou de sua calça jeans rapidamente.Eu sentia a pele dela, tocando cada parte do meu corpo.Um toque tão quente, tanto quanto a minha própria pele.Nós dois estávamos em chamas.Cedi ao desejo que ardia no meu corpo todo.A penetrei lentamente.Lucy exclamou alguma coisa, como em protesto.
-O que foi?-Perguntei.-Quer que eu pare?
Ela só acenou negativamente com a cabeça.Continuei, me movimentando lentamente.Lucy arranhava meu pescoço e minhas costas.Em alguns minutos senti uma onda de prazer inundar meu corpo todo.
-Bill...Eu te amo.-Lucy sussurrou.
-Também te amo, Lucy.-Eu disse, olhando nos olhos dela.Uma lágrima escapou do seu olho direito e escorreu de encontro aos seus cabelos.-O que foi?-Eu perguntei preocupado.
-Não é nada.-Ela disse sorrindo.
-Eu machuquei você?
-Não.É que foi perfeito demais, Bill.Eu só estou feliz.Só isso!

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27 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Out 14, 2012 12:32 am

Sam McHoffen

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Administradora
Me incomodar com dois capitulos?! Nunca!

Adorei o Bill morrendo de medo do Joe! Acho que ele quase fez xixi nas calças!
Eu ri do Tom não acreditando no Bill, serio, ele precisa passar umas três noites dormindo com uma mulher, e só dormindoooo!

O Bill foi tãooo fofo com a Lucy, fazendo ela se sentir em Veneza!
Agora o Tom não pode reclamar que eles só dormiram!

O Bill todo preocupado com os sentimentos da Lucy me deixam derretidas!

Continueee Lara!

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28 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Out 14, 2012 10:22 am

Nossa! Me lembro dessa cena escrita em seu caderno. E da gente lendo na sala da sua casa!
Os capitulos ainda eram pequenos! Me lembro como se fosse hoje.... Continua!!!

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29 Re: Rota 66 - Two souls collide em Seg Out 15, 2012 10:37 pm

Mais dois capitulos hoje!!

Capítulo 10-A solidão enlouquece


Senti um cheiro forte de erva-doce.Tão forte que me fez acordar.Alguns fios do cabelo de Lucy, se espalhavam pelo meu rosto.Eu estava deitado de costas e ela estava dormindo, com um braço rodeando meu peito e seu rosto bem perto do meu pescoço.Por um segundo pensei que tudo tivesse sido mais um sonho, como aquele que tive em Veneza, mas não era.A sensação que eu tinha é de que nada podia nos saparar agora.Que estavamos unidos pra sempre.Eu era completamente dela e ela era completamente minha.Me virei e a abracei, o que a fez acordar.
-Bill.-Ela murmurou, me abraçando de volta.
-Oi.-Eu sussurrei.
-Eu...-Ela me olhou nos olhos e sorriu com timidez.Seu rosto ficou vermelho.
-O que foi?
-É que...Achei que tivesse sido um sonho.
-Foi real, Lucy...E incrível!
-Adoro isso.-Ela me abraçou.
-Isso o quê?-Eu afaguei os cabelos dela.
-Sentir o calor do seu corpo.Sentir a sua pele.
-Lucy.-Eu sorri.

A virei de costas pra cama, me deitando sobre ela.Segurei suas mãos contra o colchão, como se estivesse a imobilizando.A beijei como nunca havia beijado antes.Desci para seu pescoço, o que fez Lucy arfar.Ela uniu suas mãos nas minhas e me recebeu em seu corpo, novamente.Eu soltei as mãos dela, deixando-as livres para passear nas minhas costas ou se agarrarem em meus cabelos.Em instantes senti o prazer que o corpo dela me dava, o que me fez estremecer.Dessa vez fora mais forte, mais rápido e intenso.
-Bill...-Lucy murmurou, ofegante.
-Hum...-Eu respondi, tentando encontrar minha voz.
-Onde você deixou sua camisa?
-O quê?-Que camisa?Não lembro de mais nada, numa hora dessas!Que se dane minha camisa!!
-A sua, amor.-Ela riu.
-Do que você me chamou?-Eu sorri, olhando pra ela.
-Eu?
-É.
-Amor...-Ela abriu o sorriso mais lindo que eu já vira.-Eu nem percebi.
-Acho que minha camisa ficou no banheiro, ontem...Meu amor.
-Banheiro!-Ela praticamente pulou da cama.-São onze da manhã!
-E daí, Lucy?-Eu disse segurando a mão dela.-Deixa ela lá.Fica comigo mais um pouco...
-Não que isso me encomode muito, mas meu avô já deve ter chegado.

Ela vestiu o primeiro vestido que encontrou no armário e saiu do quarto.Bill...Que mancada!É agora que eu morro!!.Me levantei e saí pelo quarto juntando minhas roupas.Agora sei o que Tom sente quase sempre...Vesti minhas calças, que ainda estavam molhadas, e calcei os sapatos.Lucy entrou no quarto fechando a porta atrás de si.Se virou pra me olhar.Ela parecia assustada e envergonhada, mas de repente disparou a rir.
-O que foi?-Eu perguntei ajeitando meu cabelo.
-Meu avô...-Ela tentava falar entre as risadas.-Está vestindo sua camisa!
-Merda!E agora?
-Você vai ter que vestir alguma roupa minha.
-Lucy.Isso não tem graça.Não se lembra que ele ordenou que eu ficasse com minhas mãos nas costas?Imagina quando souber que meu corpo inteiro...Tocou o seu!
-Deixa de ser medroso!Ele nem percebeu que a camisa não é dele.
-Mas vai perceber quando eu descer vestindo uma blusa cheia de babados ou um vestido de quermesse!

Lucy não conseguiu se conter e começou a gargalhar alto.Eu corri e tapei a boca dela com a mão.
-Shhh!Não tem graça.-Eu disse a encostando contra a porta.
-Não tem...-Ela me olhou com olhos penetrantes, ainda sorria.Eu a beijei, precionando meu corpo contra o dela.Será que nunca vamos parar de fazer isso?Eu não conseguia me controlar.Cada vez que eu a beijava era como uma faísca, uma fogueira que ascendia entre nós dois.
-Lucy...-Uma voz grossa, chamou do outro lado da porta, acabando com o clima.
-Estraga prazeres!-Lucy disse baixinho.-Estou aqui, vovô.
-Está tudo bem?
-Sim.-Ela me olhou com um olhar malicioso.-Estou ótima!-Ela sussurrou, ficando vermelha.
-Aquele seu namorado, não vem hoje?
-Na verdade...Ele está...Aqui.

Ela se virou e abriu a porta.Eu achei que pularía da janela, naquele momento.Joe nem precisava mais de seu ''sexto sentido''.Lucy estava despenteada, vestia apenas um vestido branco.Eu estava sem camisa e meu cabelo estava indefinível.Sem contar minha maquiagem borrada e meu rosto corado.Eu estava morrendo de vergonha!O pior de tudo, é que não era só isso o que nos denunciava, os lençóis da cama estavam revirados.

-Olá, Bill.-Joe disse com uma naturalidade inacreditável.-Desçam pra tomar café.
-Já estamos indo, vovô.-Lucy disse fechando a porta, educadamente.Ela se aproximou de mim e começou a me beijar de novo, abrindo o zíper da minha calça.
-Lucy!-Eu disse tentando impedí-la.-Seu avô está aqui!
-O quê que tem?-Ela beijava meu pescoço.
-Ele vai ouvir...
-Não vai, não.Nem desconfiou que você estava aqui!
-Lucy.-Eu segurei as mãos dela.-Isso não é certo!Eu não me sinto bem com isso!
-Tá.-Ela disse desanimada.-Você venceu.-Ela abriu as portas do armário e ficou encarando suas roupas.
-Ele não devia ter agido assim!A obrigação dele era ter me expulsado daqui!
-Por quê está reclamando?-Ela disse, tentando abotoar o sutiã.-Meu avô não se importa!Devia gostar disso!
-Tudo bem.É legal ele confiar em mim.Mas eu estou na casa dele, Lucy!Isso não é estranho?
-Não.
-Isso faz parecer que ele não se importa nem um pouco com o que acontece com você!
-Não fale assim!Meu avô é a única pessoa deste mundo que realmente se preocupa comigo!
-Única pessoa?Eu me preocupo com você!Acha que estou indignado com isso, àtoa?Acha que estou só reclamando?
-Está!Reclamando de barriga cheia, não é assim que se diz?-Lucy gesticulava com nervosismo, enquanto tentava entrar num vestido verde musgo.
-Ele nem me conhece direito!Estou começando a achar que ele deixaría qualquer um entrar aqui.
-Eu não deixaría qualquer um entrar aqui!Ainda não conseguiu enxergar, Bill?Você é o primeiro homem que dorme no meu quarto, aliás, é o primeiro que dorme comigo.Se eu trouxe você, é porque tive um bom motivo.É porque eu te amo e confio em você.Meu avô sabe disso.
-Eu sei, Lucy.Mas não justifica!Deve ser por isso que você se casou com aquele cretino!
-Não fale assim do Jack!
-Estou mentindo?Se ele não fosse assim, não tería te deixado sozinha naquela lanchonete.
-Não quero falar sobre isso!
-Para de fugir do assunto.Eu já estou cheio disso!-Eu alterei a voz, sem perceber.
-Não há nada perfeito, que você não consiga estragar.Você acabou de jogar fora nossa primeira vez.
-Lucy...Eu...-Eu abaixei o tom de voz.
-Eu não sabia que uma pessoa tão amável, podia ser tão desagradável ao mesmo tempo!-Ela disse cheia de fúria.Seus olhos cheios de lágrimas.Eu toquei em uma ferida dela que ainda doía.
-Me...Me Des...
-Não!Já chega!Vá embora, Bill!

Ela virou as costas e saiu correndo.Eu fiquei arrasado.Eu não queria ter provocado uma briga!Não queria que terminasse assim!Abri o guarda-roupas de Lucy e acabei encontrando uma camiseta branca.Era feminina, mas não dava pra perceber.Desci as escadas e fui para a cozinha.Joe estava sentado à mesa, comendo um prato de panquecas.
-Bom dia, senhor Swedback.O senhor viu pra onde Lucy foi?-Eu perguntei, tentando não olhar pra ele.
-Acho que ela está lá fora.Nem falou comigo.Você fez alguma coisa?
-Falei o que não devia.
-Mulheres!São todas iguais.É melhor se acostumar.Sente-se e coma um pouco de panqueca.Lucy é meio irritada, é melhor deixá-la sozinha por enquanto.

Eu me servi e sentei à mesa.Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que resolvi quebrar o gelo.
-Senhor...
-Garoto, já disse pra me chamar de Joe.
-Joe, por quê age tão naturalmente?
-Como assim?
-O senhor não fica encomodado?Eu tenho dormido na sua casa à duas noites.Nós...Eu e Lucy...Você sabe.
-Se Lucy está deixando você dormir aqui, é porque gosta de você, porque confia em você.Ela já é bem grandinha, Bill!Não tenho que ficar tomando conta dela.
-Eu vejo ela de forma diferente.Ela é muito ingênua, Joe.
-Você está enganado.Lucy sabe exatamente o que está fazendo.Ela está vivendo, garoto.E isso é o que importa.Ela nunca viveu o quanto merecia.Aquele pai dela era um imbecil!Nunca deixou a pobrezinha ter amigos.Aí ela conheceu aquele inútil!Jack não servia pra nada.Mas para Lucy, ele era tudo o que ela sempre quis ter.
-Como o senhor sabe dessas coisas?
-Eu fazia o possível pra ficar por perto, pra saber notícias.Eu a vigiava de longe.Tudo o que eu queria é que ela tivesse sido criada perto de mim.
-Jack gostava dela?
-Não.Nem um pouco.Lucy disse que estava grávida.O pai dela quase matou o moleque e o obrigou a casar com ela.
-Ela...Foi capaz disso?
-As pessoas não podem ser solitárias, Bill.A solidão enlouquece.
-Então é por isso que Jack a deixou na lanchonete.Por raiva dela.
-Não necessariamente.-Ele abriu seu velho sorriso de cowboy.-Já parou pra pensar que não foi por acaso que vocês se encontraram?Lucy precisava encontrar você, por isso tudo aquilo aconteceu.Há males que vem para bem.Eu tentei trazê-la pra morar comigo, mas o pai dela nunca deixava.Você a trouxe pra mim...E isso também precisava acontecer.
-Acredita em destino, Joe?-Eu sorri.
-Claro.Tudo acontece por um motivo, filho.
-Me desculpe por me intrometer.Eu só fiquei preocupado com ela.
-Não precisa se preocupar.Lucy está em boas mãos agora.Eu confio em você, garoto.
-Obrigado.
-Acho melhor você se desculpar, agora.Os sentimentos ruins nos atrapalham.Não perca seu tempo brigando com Lucy, vocês tem mais o que fazer juntos.

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30 Re: Rota 66 - Two souls collide em Seg Out 15, 2012 10:38 pm

Capítulo 11-Eu não vou te soltar


Abri a porta de entrada da casa.Avistei Lucy sentada no balanço da árvore, olhando o lago.Desci as escadas da varanda e caminhei na direção dela.Não sabia o que dizer, mas precisava consertar meu erro.
-Lucy.-Eu disse com pesar na voz.Ela me ignorou completamente.Eu me agachei na sua frente e pousei as mãos em seus joelhos.-Me desculpe...Por favor!
Ela continuou me ignorando.Me senti como um menino que acabara de quebrar o vidro da janela.Rodiei seu corpo com meus braços e pousei a cabeça no seu peito.Eu podia ouvir o coração dela batendo.Era tão triste ouvir a mágoa que ela sentia, ritmada em batimentos cardíacos.
-É impossível sentir raiva de você...-Eu a ouvi dizer.Senti os braços dela rodearem minha cabeça e suas mãos acariciarem meus cabelos.
-Eu fui horrível!Pode me xingar.Eu disse um monte de besteiras.Me desculpe, Lucy.Eu sou assim...Vivo brigando com Tom, por causa disso.Sempre acho que estou certo e acabo arruinando as coisas.
-Pare com isso!-Ela beijou o alto da minha cabeça.-Eu fui boba.Devia ter conversado com você sem ficar alterada...Eu sinto muito!
-Eu joguei tudo fora, né?-Eu ergui os olhos pra olhá-la.
-Talvez sim.-Ela sorriu.-Mas é só fazermos tudo de novo.
-Ótima idéia!Só temos que pedir minha camisa pro seu avô.-Eu ri.
-Você é bom demais pra mim.Eu sou uma pessoa horrível, Bill!-As lágrimas escorriam pelas bochechas rosadas dela.
-Então me diga onde está essa Lucy horrível, porque eu não consigo enxergá-la quando olho nesses olhos.-Eu disse, enxugando as lágrimas do rosto dela.
-Eu menti pra você.
-Então me conte a verdade.
-Se eu contar vou perder você.
-Eu estou te abraçando agora, Lucy.E seja o que for, eu não vou te soltar.

Ela me beijou.Eu me sentei no chão, a puxei pra se sentar no meu colo e a abracei forte.Ela deitou a cabeça no meu ombro.
-Nunca pude fazer amigos.Minha mãe fora professora antes de se casar, então ela mesmo me dava aulas.Quando fiz dez anos, ela morreu.Meu pai não permitia que eu fosse à escola, então contratou uma professora particular, pra me dar aulas em casa.Hoje eu o entendo, eu era tudo o que ele tinha.
Um dia eu estava cavalgando e no caminho vi um rapaz lindo, devia ter uns dezesseis anos.Me apaixonei na hora.Era loiro, usava um chapéu sobre seus cabelos lisos.Eu tinha treze anos e fiquei apaixonada durante muito tempo.Não sabia nada sobre ele, mas mesmo assim eu o amava.
-Jack?-Eu perguntei.Estava morrendo de ciúmes do brilho que eu via nos olhos dela ao se lembrar dele.Mas fiquei quieto.Você pediu para ouvir a história, agora ouça!
-Sim.No meu aniversário de dezoito anos, meu pai fez uma festa pra mim.Enquanto todos alí me tratavam como uma criança, um cara me chamou pra dançar.Eu o reconheci na hora.Tinha sonhado com ele por tanto tempo e finalmente alí estava ele.
Meu pai o contratara para trabalhar na nossa fazenda.Jack se tornou meu melhor amigo, apesar de que eu o amava.Um dia fui ao celeiro pegar alguns ovos e ouvi alguém gemer.Era voz de mulher, então fiquei preocupada, pensando que talvez ela estivesse passando mal.Entrei correndo.Vi as costas nuas de Jack e as pernas de uma mulher rodeando a cintura dele.Eu saí correndo.Eu sentia raiva.Não era justo!Eu queria estar no lugar dela, mas nunca estaría, se não fizesse algo rápido.Então decidi forçá-lo a isso.Tentei beijá-lo algumas vezes, mas ele sempre dizia que não podia porque já tinha namorada.Então imaginei que se nos casássemos ele sería obrigado a me beijar e a me amar.Forjei um teste falso de gravidez e mostrei ao meu pai, dizendo que estava grávida de Jack.Meu pai o obrigou a se casar comigo.
Jack tentou dizer que não era verdade, mas meu pai não ouvia.Então ele passou a me odiar.Começou a beber demais e a cometer pequenos furtos.Ele nunca me amaría.No dia do casamento eu vi aquela mulher na porta da igreja, chorando e me olhando com ódio.Hoje eu sei o que ela sentia por ele, quando eu olho pra você.
-Você não o amava, Lucy.Era só obssessão, um capricho.
-Ele era meu único amigo, eu não podia perdê-lo.Se ele se casasse com ela, eu ficaría sozinha denovo.Eu acabei com a vida dos dois.-Ela se debruçou no meu ombro e chorou de uma maneira que cortou meu coração.
-Eu estou aqui.Tá tudo bem, agora.Já passou.-Eu a apertei.-Naquela noite, ele não ia voltar e você sabia disso.
-Sabia.Mas eu estava tentando me tranquilizar.
-E se eu não tivesse chegado?Você tería ficado lá!
-Acho que sim, porque eu não tinha dinheiro para ir pra casa da minha prima ou do vovô.Eu estava perdida e você me encontrou.
-Você precisa consertar o que fez.Precisa se desculpar com seu pai, com a aquela mulher e...Com Jack também.
-Eu não posso.
-Por quê?
-Porque...Está ouvindo essa música?-Ela abriu um sorriso mais bonito que o céu azul que estava sobre nós e começou a enxugar as lágrimas.
-Música?
-É ''She made me cry''!Adoro essa música!-Ela se levantou e se pôs a correr de volta para a casa.
-Lucy!-Eu gritei, mas ela não ouviu.

Lá estava ela, fugindo do assunto de novo, como no dia em que nos conhecemos.Eu a segui e entrei na sala de estar.Lucy dançava descontraída, uma música lenta e aparentemente bem antiga, que dizia algo como ''Ainda me lembro, ela me fez chorar.''Joe ria da neta, enquanto bebia um copo de cerveja.
-Dance comigo, Bill.-Lucy pegou minha mão e me levou ao meio da sala.
-Eu não sei dançar.Isso não vai dar certo.-Eu disse tentando fugir dalí.Odiava dançar.
-Eu te ensino.

Ela me abraçou e começou a balançar o corpo com suavidade.Em alguns minutos, eu já estava dançando razoavelmente bem.Até que era fácil e pelo menos eu não pisei no pé dela como achei que faria.
-Que banda é essa?-Eu perguntei.
-Acho que se chama Pholhas.Minha mãe amava essa música.
-Não faz meu estilo, mas eu gostei.
-Você almoça com agente, garoto?-Joe perguntou se levantando do sofá.
-Se não for encomodar.-Eu respondi.Ainda estava sem graça.
-Claro que não.Vou deixá-los a sós.Tenham juízo...
-Nós temos.-Lucy riu, beijando meus lábios.

-Faremos um show aqui em Los Angeles, amanhã.Quer ir?-Eu perguntei.
-Claro!Sempre quis ir em um show de vocês...Meu pai nunca deixou e eu nunca tinha companhia.
-Mas eu tenho uma condição.
-Qual é?
-Depois de amanhã nós viajaremos até San Angelo.
-Eu...Não posso ir, Bill.
-Por quê não, Lucy?Assim poderá se desculpar e tirar esse peso da consciência.
-Você não entende!Se eu fizer isso...Nós não...-Ela abaixou a cabeça e se afastou de mim.
-O quê, Lucy?O que vai acontecer?-Eu segurei os braços dela.Eu não suportava todo aquele mistério bobo que ela fazia com coisas tão bobas.Ela continuou em silêncio, fitando o chão.Eu a soltei.-Diga ao seu avô que tive um imprevisto.Amanhã venho te buscar às oito da noite.-Eu disse, sendo o mais frio que consegui ser.

Virei as costas e saí da casa, caminhando em direção ao meu carro.Lucy não foi capaz de pedir pra que eu não fosse embora ou correr atrás de mim.Olhei pra trás, a porta da casa ainda estava fechada.Talvez eu estivesse sendo meio cruel com ela, mas eu me sentia mal em não saber tudo sobre ela.Se ela confiasse em mim, não tería medo de me levar até a casa do pai dela.Na verdade ela estava com medo de me mostrar o que realmente tinha feito e o que realmente era.

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31 Re: Rota 66 - Two souls collide em Seg Out 15, 2012 11:17 pm

Sam McHoffen

avatar
Administradora
Adoro a melosidade do Bill e da Lucy!

Aê! Começou a briga e a lavação de roupa suja!
A Lucy é mais esperta do que o Bill suponhe, ela sabe muito bem o que fez no passado, por isso tem até vergonha disso!
E pelo visto a história não acaba só no Jack...

O Bill deveria entender mais a Lucy, mas ela fugindo sempre do assunto dá nos nervos! Evil or Very Mad

Esperando o próximo capitulo! Cool

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32 Re: Rota 66 - Two souls collide em Qui Out 25, 2012 11:26 pm

Capítulo 12-O amor é respeito e espera.



Voltei para casa e quando entrei na sala, encontrei um Georg apagado no sofá, babando na almofada.
-Hey!Seu preguiçoso!-Eu disse, rindo do pulo que ele deu do sofá.
-O que foi?O que foi?-Ele disse arrumando o cabelo.
-Nada.É só pra dizer ''oi''.
-Seu idiota!-Ele me jogou uma almofada com tanta força, que se eu não tivesse desviado, tería feito um estrago no meu rosto.
-Eu estou com saudades, cara.
-Eu percebi mesmo.-Ele ironizou.-Nem foi ao aeroporto com o Tom, pra nos receber.
-Desculpa, Georg.É que me esqueci que vocês viriam.
-Tom me disse o porque.É Nicy o nome dela, não é?
-Vou levar Tom à um fonoaudiólogo.-Eu disse, suspirando de tédio.-É Lucy!Lucy!
-Que seja.Cara, viajei umas...Sei lá quantas horas!Me deixa dormir!-Georg quase implorou, se deitando no sofá.
-Tá.Me desculpe.

Caminhei até a cozinha.Tom, Gustav e David conversavam, descontraídos.
-Chegou quem faltava!-Eu disse.
-E aí, Bill?Tudo bem?-David disse, me abraçando.
-Estou ótimo!Não podería estar melhor.
-Tá sentindo esse cheiro, Tom?-Gustav disse, fazendo uma cara, como se sentisse algum cheiro no ar.
-Acho que sim, Gustav.Está vindo do Bill.-Tom disse chegando perto de mim.Seguido de Gustav.
-Esse ''Estou ótimo''...Está me cheirando a mulher.-Gustav riu.
-É Nicy, não é?-David perguntou.
-Lucy.-Eu respirei fundo.-Tom, precisamos resolver seus problemas de comunicação.
-Por quê?-Tom me olhou intrigado.
-E por falar nisso, David.-Eu ignorei Tom, totalmente.-Você pode pegar um ingresso do show de amanhã?É que vou levar, Lucy.
-Claro.Sem problemas.

Depois de almoçarmos, ensaiamos o dia todo.Eu estava muito cansado, mas só pude dormir às três da manhã.Tom me acordou às onze e me obrigou a ir na passagem de som.Às seis da tarde, já estava tudo pronto.O show desta noite sería mais simples.Na verdade era uma festa de aniversário da filha de um cineasta.Nos apresentaríamos para umas duzentas pessoas.
Eu já estava sentindo falta de Lucy.Me arrumei rapidamente e saí pra buscá-la.Eu estava com medo de encará-la.Fora tão frio na última vez que a vi.Fui cruel com ela.Talvez ela tivesse bons motivos para não voltar à San Angelo.Talvez ainda tivesse vergonha do que fez.

Estacionei o carro em frente ao jardim e subi as escadas da varanda.Toquei a campanhia.Meu coração parecia uma bomba relógio, prestes a explodir.A porta se abriu.
-Olá, Bill!-Joe disse, alegremente.
-Boa tarde, Joe.Vim buscar Lucy.
-Ela está se arrumando.Entre.
-Eu prefiro ficar aqui.-Eu peguei um cigarro do meu maço de Marlboro.-O senhor tem isqueiro?
-Tenho.Mas, você não devia fumar.-Ele disse, acendendo meu cigarro.-Faz mal à saúde.Lucy me disse que você tem uma banda.O cigarro vai acabar com sua voz, garoto.
-É.Sou vocalista.Canto nesta banda desde os onze anos.O meu problema é falta de vergonha na cara.-Eu dei uma risadinha.-Sei que é errado, mas continuou fazendo.
-Eu também tive uma banda, aos vinte anos.Só que como eu morava no Texas, você sabe, tocávamos country.Mas arriscavamos um rock, de vez em quando.
-Era meio ''Lynyrd Skynyrd''?
-Era.Você conhece um pouco de country, hein garoto?
-É que meu irmão vive cantarolando ''Sweet home, alabama.''.
-Seu irmão deve ser um bom garoto, como você.
-Sim.Ele é um ótimo cara.Só é meio pegador.
-Mesmo?Você devería trazê-lo aqui.-Joe riu.-O velho Joe tem muito o que contar sobre mulheres.Eu era como o seu irmão, tinha todas as mulheres aos meus pés, saía com a maioria delas.Mas quando conheci Juliette...-Ele suspirou, olhando para o céu.-Eu não quis mais ninguém.
-Ela era bonita?-Eu dei um longo trago no meu cigarro.
-Não muito.Não como as mulheres com quem eu estava acostumado a sair.Mas ela tinha um jeito tão incomum.Ela era tão incostante e divertida.Mas era meio inocente.No ínicio éramos bons amigos, mas eu me apaixonei de verdade por ela.Depois que ela morreu eu não quis conhecer mais ninguém.Não é suficiente.Ninguém é ela.
-Eu sei bem, como é isso...Acha que vai acontecer isso com Tom?
-Claro.Sabe Bill, você pode sair com milhares de mulheres, mas só vai amar uma.
-Eu concordo plenamente.
-Lucy se parece muito com a avó.Ela é a única que pôde me fazer rir denovo.
-Joe, você acha que ela me ama...De verdade?
-Não sei.Agente nunca sabe o que se passa no coração das pessoas.Mas e quanto a você?Tem certeza que a ama de verdade?
-Absoluta.
-Então, isso já é o suficiente.Faça o que puder fazer por ela, e um dia você mesmo vai saber se ela te ama de verdade.
-Ás vezes parece que ela não confia em mim.Eu propus a ela que fossemos à San Angelo.Quero ajudá-la.Sería muito bom pra ela se ela resolvesse os problemas.É ruim viver sabendo que deve algo à alguém, você não acha?
-Eu acho.Mas também acho que você deve respeitá-la.Ela não está pronta pra ir, Bill.Espere.O amor é respeito e espera.Não pode exigir nada de Lucy.
-Você tem razão.Eu vou esperar que ela se decida.
-Lucy é uma ótima garota, Bill.Não a deixe escapar.Como eu já disse, não perca seu tempo brigando com ela, porque o tempo passa e...As pessoas se vão.-Joe ficou triste.
-Você brigava muito com Juliette?
-Às vezes.Nossa última briga foi terrível e ao mesmo tempo tão boba.Ela morreu sem voltar a falar comigo.
-Eu tenho certeza de que ela não está mais magoada, Joe.Onde quer que ela esteja, ela está muito feliz por você.
-Oi.-Lucy disse de repente.Me virei para vê-la.Ela estava linda e irreconhecível!Fiquei espantado com a roupa que ela usava.Ao invés de um vestido cheio de babados, ela usava uma saia preta sobre uma meia calça da mesma cor, uma camiseta com uma enorme foto minha estampada na frente e um casaco de couro cheio de zípers e tachinhas.Além de tudo suas botas de counboy não completavam o estilo, ela usava um all star preto e branco, bem simples.Seu cabelo estava assustadoramente liso.Seus olhos estavam bem delineados e seus lábios avivados com um vermelho intenso.Ela me olhou com timidez ao perceber que eu a estava olhando de cima a baixo.

-Você está...Linda, Lucy!-Eu disse.
-Obrigada.
-É por isso que eu amo você...-Eu dei alguns passos até ela e a abracei.-Você sempre me surpreende.Me desculpe, Lucy.Fui um idiota.
-Claro que não.Eu...-Ela me olhou nos olhos e sorriu.-Está tudo bem.
-Vocês querem parar com essa melação?-Joe disse.-Vocês vão se atrasar.
-Tem razão.Boa noite, Joe.E obrigado.-Eu peguei a mão de Lucy.
-Boa noite, vovô.-Ela disse descendo as escadas da varanda.
-Divirtam-se.E não demorem!

Nós dois caminhamos de mãos dadas até o carro.Eu abri a porta do passageiro para Lucy.Ao invés de entrar no carro ela me abraçou.
-Achei que você não viría.-Ela disse me apertando em seus braços.
-Por quê?-Eu a abracei e beijei seus lábios, de leve.-Não vou te deixar.Você vai ter que me aguentar por muito tempo, ainda.Eu amo você, bobinha.
-Me amaría independente de qualquer coisa?
-Não vou exigir nada de você.Nada disso me importa, desde que você me faça feliz.
-Eu não faço idéia de como fazer você feliz.
-É simples.Nunca se afaste de mim.Eu preciso tanto de você!

Ela me beijou devagar.Naquele momento eu tive vontade de não ir ao show.Tive vontade de ficar deitado na grama do jardim, com Lucy ao meu lado.Eu quería cantar só pra ela.

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33 Re: Rota 66 - Two souls collide em Qui Out 25, 2012 11:28 pm

Capítulo13-Me salve com seu amor esta noite.



-Pronta pro show?-Perguntei à Lucy, assim que estacionei o carro no estacionamento da casa de shows.Por incrível que pareça não vi ninguém por alí.Pensei que milhares de garotas ficaríam à espreita, esperando minha chegada, mas isso não aconteceu.
-Eu não estou conseguindo acreditar!-Ela disse me olhando, empolgada.-Vou ver um show da melhor banda do mundo!
-Obrigado.-Eu sorri.
-Vou ver o Tom com aquela cara de mau, Georg com seu cabelo de dar inveja e o Gustav com aquela carinha de nerd...
-Você também acha que ele tem cara de nerd?-Eu gargalhei.-Pensei que fosse só eu.
-Eu...Vou ver você cantando.-Ela me olhou, como se tivesse acabado de notar algo que estava bem embaixo do nariz dela.-Tinha me esquecido que você é meu ídolo.
-Não só seu ídolo.Sou seu amigo e seu namorado.
-Meu...Namorado.-Ela disse devagar, como se quisesse absorver as palavras.
-É isso o que nós somos, não é?Namorados...
-Eu...Bom...Não sabia.
-Achou que eu estava só ficando com você?
-É que você é tão...Tão...
-Tão, o quê?
-Você é famoso, lindo e...Pra uma garota como eu, você é quase inatingível.Quase como um sonho que nunca vai se realizar.
-Então, parabéns Lucy.Você atingil o inatingível!
-Você...Está falando sério, mesmo?
-Meu amor.-Eu peguei a mão dela.-Estou falando sério.Mas se você prefere.-Eu me virei para olhá-la melhor.-Lucy, de todas as garotas que quiseram minha companhia, você era a que tinha o sonho mais simples.Seu maior sonho não era dormir comigo ou algo do tipo.Eu já ouvi muito isso.Você só queria assistir à um filme comigo.Só isso.E ao invés de fazer tudo pra ficar com seu ídolo, você decidiu se afastar porque estava apaixonada.Depois se esforçou pra ser só minha amiga, se esquecendo que era minha fã.Você me tratou como uma pessoa normal.Só agora se deu conta do que está acontecendo.Que eu sou vocalista de uma banda que você adora.Enfim, depois desse discurso todo...-Eu fiz uma cara de ''Já tá ficando chato.''-Você quer namorar comigo?
-Quero.-Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela me olhava como se eu fosse de outro mundo.Eu sorri e me aproximei pra beijá-la.Lucy me abraçou.-Você é a melhor pessoa desse mundo.
-Não.Eu faço o possível pra ser a melhor pessoa pra você, o resto do mundo não interessa.Vamos.Eu já estou atrasado.-Entreguei o ingresso à ela.-Depois que o show acabar, venha me encontrar no camarim, tá?
-Eu vou sim.Boa sorte.Faça um ótimo show!
-Vou cantar só pra você.-Beijei as costas da mão dela e entrei no corredor que dava acesso ao camarim.

Abri a porta do camarim e entrei.Tom andava de um lado para o outro, roendo as unhas e com uma expressão ansiosa.
-Tom.-Eu chamei.-O que você tem?
-Não sei, Bill.Estou com medo de errar.
-Errar?Você nunca sente isso!Nós ensaiamos bastante, não tem como isso acontecer.
-Você não entende.Se eu errar...Vo-Você viu a aniversariante?
-Ainda não.
-Cara, ela é linda!Morena, olhos verdes.Me disseram que ela é latina.Latina, Bill!Latina!-Ele começou a gesticular demais.
-Tá legal!Eu vou voltar pra casa pra ver se eu encontro o Tom, porque você não é ele!
-Bill, me escuta!Eu não sei o que está acontecendo...Eu olhei pra ela e...Fiquei assim.
-Tom, você nunca tem problema com mulheres.
-Mas ela é diferente.Ela é tão...Sei lá!Nem sei explicar!
-Achei que nunca fosse ver isso.-Eu sorri.-Você tentou falar com ela?
-Tá brincando?Minha voz sumiu completamente, Bill!O que está acontecendo comigo?
-Você está APAIXONADO.-Eu disse a última palavra devagar, quase soletrando.
-Não.Para!Isso não existe pra mim.
-Tom, você pode sair com milhares de mulheres, mas só vai amar uma.E pelo jeito, é essa aí que você vai amar.-Joe estava certo!
-O quê que eu faço, cara?
-Conquiste ela.
-Mas como?
-Primeiro converse bastante e depois...
-Leve ela para o seu quarto!-Georg disse, entrando no camarim e indo direto para uma mesa de canto, que estava cheia de comida.
-Não escute ele, Tom.Deixe isso pra depois.Não adianta conquistá-la com sexo, porque assim não vai durar.
-Tá aí uma coisa que nunca achei que vería.-Gustav disse se juntando à Georg.-Bill dando conselhos sobre mulheres, para o Tom.
-É!O normal sería o contrário, né?
-Calem a boca, vocês dois.-Eu disse impaciente.-Eu sei que vai ser difícil pra você, mas seja romântico pelo menos uma vez na vida.Convide ela pra jantar, dê flores...Sei lá, Tom.Surpreenda ela.
-Valeu, cara.Você é o meu melhor irmão.
-Sou seu único irmão, criatura.
-Ah, você entendeu!

Entramos no palco e começamos o show com ''Noise'', como sempre.Eu procurava Lucy na platéia, mas não conseguia encontrá-la.
-Eu gostaría de chamar a aniversariante, para cantar uma música comigo.-Eu disse, quando o show já estava quase no fim.Eu nem sabia o nome da aniversariante, me esquecera de perguntar.Sorte que havia uma faixa pendurada no teto, que dizia ''Happy birthday, Juliette.''Juliette?Que coincidência!-Juliette, por favor!

Uma garota subiu ao palco, chorando rios.Ela nem era tão bonita assim, mas tinha um brilho diferente que a deixava bonita.Olhei para o Tom, a guitarra tremia junto com suas mãos.Eu não consegui segurar o riso.
-Que música você quer cantar?-Eu perguntei, passando o braço em volta do pescoço dela.
-Não sei.-Ela disse emocionada.-Todas são perfeitas!Pode ser...Alien.

Comecei a cantar a música.De repente vi Lucy bem perto do palco, me olhando com uma expressão que eu não consegui definir.Ela estava paralisada, não cantava, não pulava e nem conseguia chorar.Ela era a garota mais quieta da festa, mas era a mais encantadora.
-Save me with your love, tonight.Come and bring me back to life.-Me ajoelhei bem em frente onde Lucy estava.Todas as pessoas cantavam a música, mas Lucy nem tentava.As lágrimas rolavam, negras, pelo rosto pálido dela.Nossos olhos se encontraram.-Need your love.-Eu olhei para ela e sorri.-I love you, Lucy.

O show terminou e nós voltamos para o camarim.Estávamos exaustos.
-Bill.-David disse, entrando no camarim.-Tem visita pra você.
-Lucy!-Eu corri para a porta.Lucy me olhou com timidez.Eu peguei a mão dela.-Venha.
-Estou nervosa.-Ela disse baixinho.
-Não fique.Eles são legais.-Eu a puxei para dentro do camarim.-Gente, esta é Lucy.Minha namorada e a nossa fã número um.
-Olá, Nicy!-Tom disse vindo na direção dela e a abraçando.
-Oi.-Ela disse sorrindo.-É...Lucy.
-Não precisa corrigi-lo.Não perca seu tempo, amor.Eu já notei, ele está zoando com a minha cara!-Eu disse, fuzilando Tom, com os olhos.
-Eu sei que é Lucy, só estava irritando o Bill.
-Oi!Sou Georg.-Ele disse, a abraçando também.Não estou gostando dessa agarração!
-Ela sabe, inteligente!-Eu levantei uma sobrancelha.
-Acho que agora eu sei quem eu mordería pra ficar eternamente comigo.Se lembra disso, Bill?-Ele disse sorrindo maleficamente.Ele estava se referindo à uma entrevista que demos uma vez, na qual eu disse que mordería a namorada dele pra transformá-la em vampira e ficar pra sempre comigo, como Edward e Bella.É claro que eu estava brincando!
-Eu retiro o que eu disse aquela vez, viu?
-Eu não.
-Eu não quero que você me morda, Georg.-Lucy riu.-Eu assisti à entrevista.
-Desculpe, Lucy.Acabei de te conhecer e já estou dizendo besteiras.-Georg sorriu.
-Tudo bem.Adoro pessoas com um bom senso de humor.
-Então vai gostar de mim!-Gustav disse se aproximando de Lucy.
-Ela disse que você tem cara de nerd, Gustav.-Eu gargalhei.
-Bill!Shh!-Lucy apertou a minha mão.-É mentira dele, Gustav.Ele acha isso.
-Traidora!
-Bill, até sua namorada fica contra você!-Tom ria, rolando no sofá.
-Tudo bem!Depois agente conversa sobre isso, né amor?-Eu olhei pra ela, com um ar vingativo.

Juliette entrou no camarim, seguida por umas oito garotas.Tom pulou do sofá e a olhou assustado.
-O que você estava dizendo mesmo, Tom?-Eu disse olhando pra ele com perversidade.
-Cala a boca, Bill.-Tom murmurou.
-Fique à vontade, Lucy.Pode comer o que quiser e pode se sentar no sofá também.Só vou tirar algumas fotos com elas e dar alguns autógrafos.
-Tudo bem.-Ela me deu um selinho.
-O Bill tem namorada?-Uma das meninas perguntou.
-Tenho.-Eu respondi.-Gente, esta é Lucy, minha namorada.
-Ela é tão...-A garota ensaiou algo, mas se calou.
-Comum.-Uma garota realmente metida disse, se exibindo.
-Meninas, parem com isso!-Juliette disse furiosa.-Ela é linda, Bill.Prazer, sou Juliette.-Juliette disse abraçando Lucy.-Bem vinda à minha festa.Espero que tenha gostado.
-Eu não gostei dela, Bill.-Uma outra garota disse.
-Acho que você merece coisa melhor.-A outra se exibiu de novo.
-Você acha?-Eu disse, lançando-lhe um olhar irritado.Lucy soltou minha mão e abaixou a cabeça.-Eu acho que merecemos fãs melhores.-Eu peguei a mão de Lucy e abri a porta do camarim.
-Bill...-Juliette segurou meu braço.-Por favor, é meu aniversário.Eu sinto muito por isso.Me desculpem, por favor.
-Não saia daqui, Lucy.Ok?-Eu disse.Olhar pra ela me dava pena.Ela estava se sentindo humilhada.-Eu amo você.-Eu dei um beijo em sua testa.

Tirei algumas fotos e dei alguns autógrafos.Quando saí do camarim, Lucy tinha desaparecido.Procurei por ela em todo lugar, mas não a encontrei.Fiquei extremamente preocupado.Aquelas garotas nem eram nossas fãs, chamaram o Georg de David e o Gustav de Tom.Elas nem sabiam quem éramos.Só entraram no camarim porque não tinham nada melhor pra fazer.Riquinhas desocupadas!

Lucy não merecia ouvir tudo aquilo.Não merecia ser humilhada daquele jeito.Onde ela estava agora?Eu precisava encontrá-la, antes que ela achasse que tudo o que ouvira era verdade e resolvesse não me ver nunca mais.Não se afaste de mim, Lucy!Eu não vou ser feliz se você fizer isso!

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34 Re: Rota 66 - Two souls collide em Sex Out 26, 2012 12:49 pm

Sam McHoffen

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Administradora
Eu adoro quando Bill e Lucy fazem as pazes depois de uma briga Razz

Eu ri horrores do Tom nervoso por causa da Juliette... Pelo visto o Tom vai ser o novo Joe na história, o safado que vai se apaixonar pela garota comum! Razz

Discusões entre os 4 integrantes é ilário, sempre um tirando o outro! haha

Ai que vontade de dar uns tapas nessas gurias, elas não tem nada que achar ou não a Lucy bonita, é o Bill que escolhe, não elas. O pior que a Juliette ficou se sentindo culpada pelo que elas falaram! E a Lucy com certeza ficou chateada e acreditando nas idiotas.

O lado ruim de se namorar um famoso, é que tu está exposta a críticas horríveis, ainda mais quando se namora alguém do Tokio Hotel Rolling Eyes

Continue Lara!' bounce

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35 Re: Rota 66 - Two souls collide em Sex Nov 09, 2012 10:57 pm

Capítulo 14-Só não me peça pra viver sem você.



Eu queria ligar para Joe, mas não tinha o telefone dele.Eram quatro da manhã e eu não encontrava Lucy em lugar nenhum.Ela só podia ter ido embora.Entrei no meu carro e dirigi na maior velocidade que pudia, ou que era permitida.Cheguei à casa de Joe.As luzes estavam apagadas, o que me deixou ainda mais preocupado.Por favor esteja aqui!

Além de tudo eu me sentia culpado.Eu não devia ter mandado ela me esperar.Devia ter ido embora dalí, mas Juliette era a dona da festa, o pai dela nos contratou pra cantar na festa dela, além de que ela não fora desagradável como as outras garotas.Ela parecia ser uma pessoa boa e educada.

Corri para a varanda e abri a porta de entrada.Não estava trancada como sempre ficava.Subi as escadas e ouvi um barulho de água caindo.Alguém estava tomando banho.Espiei o quarto de Joe, ele roncava como um urso.Corri e abri a porta do banheiro.Lucy estava sentada no chão em baixo do chuveiro, suas roupas estavam espalhadas por todos os cantos.Eu desliguei o chuveiro.
-Lucy, eu...Sinto muito.-Eu disse me abaixando.
-Nunca vou estar à sua altura.Por favor, Bill.Vá embora.-Ela manteve a cabeça abaixada, evitando o meu olhar.
-O quê?Não.Eu não vou à lugar algum.Elas estão erradas, Lucy.
-Não adianta o quanto eu me esforce para te merecer, parece que nada nunca é o bastante.Eu sempre vou ser a pessoa errada pra você.
-Lucy, nada disso importa.Eu te amo!
-Um pássaro pode amar um peixe...Mas onde eles viveriam?
-Nossos mundos são tão diferentes assim?-Eu perguntei amargurado.
-Eu nunca vou ficar bem em um vestido ''Armani''.Sou uma caipira pobre, Bill.Nunca vou estar a sua altura.-Ela me olhou triste.A maquiagem de seus olhos escorriam por suas bochechas.
-O que você quer que eu faça?Quer que eu pare de cantar?Eu paro!Quer que eu pare de usar as roupas que eu uso?Eu posso usar chapéu e botas de counboy.Eu vendo meu carro e ando até de cavalo se você quiser.Posso doar todo o meu dinheiro.Me peça o que quiser, Lucy.Só não me peça pra viver sem você.Porque eu não vou conseguir.-Eu a abracei.-Só o que está nos meus braços agora, é o que importa.O resto eu posso viver sem.
-Eu...Não sei se consigo viver assim, Bill.Te dividindo com milhares de garotas.Eu sempre vou ser humilhada como fui hoje.-Ela chorava, agarrada ao meu corpo.
-Eu sou seu, Lucy.Você não vai ter que me dividir com ninguém.Elas podem até me amar, mas eu amo você.-Eu me levantei e a enrolei em uma toalha.-Você vai acabar se resfriando.-A peguei no colo e a carreguei até o quarto.Desci as escadas e fiz um chá de camomila e levei para Lucy.
-Beba um pouco.-Entreguei a xícara de chá para ela.
-Obrigada.

Eu a enxuguei enquanto ela bebia o chá.Ela se deitou debaixo do edredom, eu me deitei ao lado dela e a abracei.
-Deve ter sido horrível ouvir aquelas coisas.-Eu disse apertando ela contra meu corpo.-Eu sinto muito.
-Me desculpe por mandar você ir embora.-Seus olhos se prenderam nos meus.-Eu quero muito que você fique...Pra sempre.
-Aconteça o que acontecer, eu não vou te soltar.Entendeu?

Ela fez que sim com a cabeça e me beijou.Eu me virei e me deitei sobre ela.Nossos beijos sempre se prolongavam, me dando a impressão de que não teriam mais fim.Comecei a beijar seu maxilar, descendo aos poucos para o pescoço até chegar nos seios.Eu toquei seu mamilo direito com os lábios.Lucy arfava, entrelaçando seus dedos em meus cabelos.Meus lábios percorreram sua pele macia, até chegar novamente aos lábios dela.Ela tirou minha camiseta e começou a acariciar minhas costas.Minha pele estava arrepiada, isso sempre acontecia quando eu sentia o calor do corpo dela.
-Já sei como resolver nosso problema.-Eu disse, enquanto beijava o pescoço dela outra vez.
-Que problema?-Ela disse, abrindo minha calça lentamente.
-Um pássaro vive no céu, um peixe vive na água.Mas ainda assim podemos viver juntos.
-Como?
-É só vivermos nas nuvens.-Eu sorri e olhei nos olhos dela.

Ela me lançou um olhar apaixonante e acariciou meu rosto, depois me puxou pra beijá-la novamente.Eu a penetrei devagar, como se fosse a primeira vez.De certa forma, sempre parecia que era a primeira vez.Cada beijo e cada toque se tornava uma experiência nova.Até o prazer que vinha depois, parecia nunca ter sido sentido.Meu coração ainda disparava, quando ela me olhava antes de fechar os olhos para me beijar de novo.Os raios de sol despontavam lá fora e eu estava exausto.O show me esgotara muito.Deitei a cabeça sobre o peito de Lucy e fechei os olhos.O coração dela ainda batia freneticamente, enquanto ela afagava meus cabelos com calma.Tudo perdia a nitidez lentamente.Uma escuridão me envolveu, me fazendo perder todos os sentidos.A única coisa que não desapareceu, foi aquele barulho ritmado, que acompanhava meu coração.

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36 Re: Rota 66 - Two souls collide em Sex Nov 09, 2012 11:00 pm

Capítulo 15-Aconteceu no km 66...



Tudo estava escuro.Eu lutava para respirar, mas não tinha ar alí.Onde estou?

Parecia um calabouço.Só conseguia ouvir um bip lento e ritmado, que ficava mais alto a cada segundo.Tentei abrir os olhos, mas eles pareciam estar colados.O bip ficava cada vez mais alto e batia junto com meu coração.Uma dor forte me atingiu em cheio.Começou a latejar na perna direita e foi se espalhando pelo corpo todo.Minhas costas doíam muito e minha cabeça ensaiava para explodir.A dor começou a ficar insuportável, como se meu crânio tivesse sido atingido por um taco de beiseball.
-Ai!-Eu consegui exclamar.Minha voz quase não saía.

Finalmente consegui abrir os olhos.Minhas pálbebras ainda pesavam e tudo estava terrívelmente embaçado.Eu via um teto branco rodando sem parar sobre minha cabeça.Pisquei os olhos algumas vezes, até que consegui organizar minha visão.Tentei me mexer, mas meu corpo doía só de pensar nisso.Que lugar é esse?E como vim parar aqui?Eu não me lembrava de nada.Quando tentava me lembrar de alguma coisa, minha cabeça doía.Eu só conseguia me lembrar que estava no meu carro, saindo de Los Angeles, mas para quê?Para onde eu estava indo?Virei minha cabeça para a direita e vi minha mãe dormindo profundamente em uma cadeira.Ela segurava minha mão, que estava cheia de fios e agulhas.
-Mãe...Mãe...-Minha voz permanecia fraca e quase inaldível.
-Bill!-Ela se levantou.Seus olhos se encheram de lágrimas.Ouvi um barulho estridente, como se fosse uma campanhia.-Você está bem?Como se sente?
-Por quê...Estou...Aqui?
-Depois eu conto, filho.Não fique se esforçando muito.
-Mãe...Por favor...Me conte.
-Foi...Um acidente.Mas não fique assustado.Está tudo bem, agora.
-Acidente?-Eu tentei me lembrar de alguma coisa.A primeira coisa que veio à minha mente foi um lago todo iluminado.Eu estava delirando.
-Foi à um mês.O acidente foi grave, você ficou em coma durante todo esse tempo.

Em coma durante um mês?Devo ter perdido muita coisa.O tempo era algo precioso pra mim, e eu não gostava de perdê-lo.Três pessoas de branco entraram no quarto.Um homem, com certeza um médico, começou a me examinar.Me fez uma série de perguntas idiotas, como:Quem é você?Onde mora?Data de aniversário.Música que mais gosta...Era rídiculo, mas por incrível que pareça, custei a responder.Meu cérebro estava retardado.As enfermeiras me livraram de metade dos fios que estavam espetados no meu corpo.
-Ele teve sorte, senhora Trümper.Pelo visto se lembra de muitas coisas.O impacto foi muito forte.Pode-se dizer que isso é um milagre, casos como o dele costumam ter como resultado sequelas, perda de parte ou de toda a memória...
-Impacto?-Eu perguntei assustado.-Ai!-Senti uma pontada na cabeça.
-Não se esforce muito, rapaz.Precisa de repolso, o máximo possível, e não vai sair deste hospital até termos certeza de que você não terá problemas futuros.Alguma coisa protegeu sua mente durante o coma.Acredite, era pra você não se lembrar nem do seu nome.
-Quer dizer...Amnésia?
-Sim.Descanse.Você ainda não está totalmente fora de perigo.Até mais tarde, garoto.-Ele saiu, acompanhado pelas enfermeiras.
-Quem é ele?-Perguntei.
-Dr. Morten, seu médico.
-Como foi o acidente, mãe?Eu não consigo me lembrar.
-Disseram que o acidente aconteceu por volta das três da manhã.-Minha mãe disse, se sentando na cadeira.-O motorista estava alcolizado e acabou mudando de pista, andando na contra-mão.Ele te acertou em cheio, Bill.Os dois carros bateram de frente.Só o que não consegui entender, foi o que você estava fazendo sozinho, de madrugada, no km 66.-Ela usou um tom severo na última frase.
-Eu...Fui comprar bebida.
-Você não tem juízo, garoto?
-Foi o que o Tom disse...Quer dizer...-Eu me lembrei de brigar com o Tom por causa disso.Mas eu entrei em coma no acidente.Quando foi que brigamos, então?-Acho que estou imaginando coisas!Ah, meu carro...Está destruído!
-Esqueça seu carro, o importante é que você está vivo.-Ela me olhou docemente e ficou séria logo depois.-Vai ficar de castigo por causa disso, ouviu?
-Como assim, mãe?Você nunca me pôs de castigo!
-Mas antes, você tinha juízo e não arriscava a vida.
-Peraí, mãe.-Eu me lembrei de uma parte do acidente.-Mas eu não me lembro de bater naquele carro.Pelo contrário, eu consegui desviar.Me lembro da luz vindo na minha direção, aí eu girei o volante e fui parar no acostamento.
-Sua mente está meio confusa, filho.O acidente aconteceu, sim.Se não, você não estaría aqui.
-Que estranho.Eu até me lembro de entrar numa lanchonete.
-Não se preocupe com isso.Descanse.

Fechei os olhos e tentei me lembrar de mais alguma coisa.Talvez eu tivesse mesmo ficado com alguma sequela, porque uma sucessão de imagens me assombravam.Eu via uma roda gigante, depois um lago iluminado por velas, flores de vários tipos.Eu devo ter batido a cabeça com bastante força!Estou ficando louco!

Depois de alguns dias, de exames exaustivos e remédios com efeitos colaterais terríveis, aquele hospital já estava ficando insuportável.Eu não podia dar uma volta no jardim, porque o hospital estava rodeado de repórteres curiosos e fãs enlouquecidas.Eu me sentia entediando e sozinho.Gustav e Georg me visitaram, mas acabaram voltando para Hamburg no mesmo dia.Tom era o único que me fazia companhia diariamente.Assistiamos Tv o tempo todo.
-Já deve estar passando o show do Jay-z!-Tom disse, pegando o controle remoto e se jogando na outra cama que tinham colocado no quarto.
-Não, Tom!Estou assistindo o filme!-Eu protestei, tentado alcançá-lo, pra tomar o controle dele.O gesso na minha perna, me impedia de me movimentar.-Seu mal educado!
-Reclame com a mamãe sobre isso.A culpa é dela.-Ele começou a mexer com os braços, cantando junto com aquela música estranha.-Além de que o filme já acabou!
-Não acabou!É o intervalo!
-Aquele filme é chato, Bill.A garota acorda do coma, mas não se lembra do cara.Daí ele vai embora...
-Cala a boca!
-...Com o rabo entre as pernas.Daí ele faz um jardim pra ela, no terraço do prédio...
-Tom!-Eu tampei os ouvidos.-Eu não gosto que me contem o final dos filmes!
-Então, tá!Eles ficam juntos no final.É sempre assim...Por isso, romances são chatos.Sempre a mesma coisa!Finais felizes...Af!
-Você estraga qualquer filme!-Eu cruzei os braços.
-Mas é mentira?
-Não, mas eu gosto.Me dá esse controle aqui.-Eu tentei me mexer.-Talvez ainda dê tempo de eu ver o final.
-Ela acaba se lembrando dele, eles se beijam e...Fim!
-Ah, Tom!Eu disse pra você não contar.Seu...
-Olá, garotos.-Minha mãe entrou no quarto, carregando meia dúzia de livros.
-Mãe, fala pro Tom que eu quero terminar de ver o filme!
-Fala pro Bill que eu não vou perder o show do Jay-z e que se ele quiser o controle remoto, vai ter que vir aqui pra pegar.
-Fala pra ele que eu estou internado aqui, que eu sofri o acidente, que o quarto é meu, a televisão também...Então tenho o direito de assistir o que quiser!
-Ai!Vocês voltaram a ter nove anos!-Ela foi até o Tom e tomou o controle da mão dele.Eu já estava comemorando minha vitória, quando ela acabou com minha ilusão.-Eu quero assistir o jornal.-Ela mudou de canal e se sentou nos pés da cama.
-Droga!-Tom fechou a cara, olhando para a Tv.
-Mãe, o filme está quase acabando!-Eu disse, quase dando birra.
-A culpa é toda sua...-Tom apontou o dedo pra mim.
-Calados, vocês dois!
-Que garota linda!-Tom olhava para a Tv, quase babando, com cara de vegetal.
-Quê?-Eu olhei para a Tv.Havia uma foto de uma garota morena, com traços latinos, olhos verdes e cabelos pretos.Ela nem era tão bonita assim, o que achei estranho, já que Tom estava com cara de apaixonado.

''...Nesta Sexta-feira, Juliette Gonzales, filha do famoso cineasta Carlos Gonzales, completará dezenove anos.Sua festa tería a banda Tokio Hotel como atração principal, mas graças ao infeliz acidente que ocorreu com o vocalista da banda no mês passado, o show fica por conta do Good Charlotte.''

-Good Charlotte?Tudo a ver com agente...-Eu resmunguei, ironizando.-Não sabia que tínhamos sido contratados.
-Nem deu tempo de David te contar.Eu tenho que ir nessa festa!-Tom disse, ainda pasmado.
-Se ela gosta da nossa banda, acho que você consegue entrar.
-Será?
-Não!Estou zuando, Tom.
-Lógico que eu consigo entrar.Eu tenho que conseguir!
-Ela nem é tão bonita assim.
-Cara, ela é...-Tom disse com um ar romântico, que eu nunca achei que veria no rosto dele.-Perfeita.

''...E por falar em Tokio Hotel.Os fãs da banda alemã, já podem respirar aliviados.O vocalista Bill Kaulitz já acordou do coma e passa bem.O grave acidente em que ele se envolveu no mês passado, aconteceu no km 66, próximo a Los Angeles.As famílias das outras duas pessoas envolvidas no acidente, não quiseram dar entrevistas e nem citar nomes, alegando a intenção de preservar a privacidade de todos, já que o acidente também envolveu um cantor famoso.Só foi divulgado o óbito do motorista, que morreu na hora.E que a outra vítima ainda está em estado grave...''

-Que horror!Eu não consigo acreditar que isso aconteceu comigo!-Eu disse me encolhendo.
-Tudo bem.Chega de Tv.-Minha mãe desligou a televisão.-Eu trouxe livros.
-Ah, não mãe...-Tom disse, cobrindo o rosto com as mãos.
-Eu quero dormir.-Eu disse me deitando e fechando os olhos.-Mãe.
-Oi.
-Você sabe onde está a outra vítima?A que sobreviveu?
-Está aqui.
-Nesse hospital?
-É.Por quê?
-Não sei.Quero visitá-la.
-Tudo bem.Amanhã agente vai.Boa noite, querido.-Ela beijou minha testa.
-Boa noite, mãe.Boa noite, Tom.
-Tom?Já apagou!-Ela riu.

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37 Re: Rota 66 - Two souls collide em Sab Nov 10, 2012 9:03 am

Sam McHoffen

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Eu amo o romantismo do Bill com a Lucy e ele sempre do lado dela!

AHHHHH Lembra que eu descobri esse teu "segredinho" Lara?! Falei bem antes que o Bill tava em coma e a Lucy também... como no filme que o Bill tava assistindo: E Se Fosse Verdade. (Vai passar esse filme essa semana na Sessão da Tarde) Rolling Eyes

E o Tom com a Julitte! Adoro esses dois!
Quero só ver quando o Bill ver que é a Lucy em coma!

Continua!

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38 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Nov 18, 2012 9:57 pm

Capítulo 16-Eu estou segurando sua mão...



Eu praticamente devorei o café da manhã.Todos os dias eu não comia nada além de torradas com suco de laranja, mas naquela manhã minha mãe me presenteara com waffles e café.Tive uma noite péssima.Eu estava dormindo muito mal ultimamente.Meus sonhos eram desconexos, o que me deixava cansado.Eu via cenas picadas de algum filme que assisti alguma vez na vida.Não chegava a ver os personagens, mas via as cenas nitidamente.Sempre as esquecia ao acordar.

-Bill, eu e Tom vamos sair pra fazermos algumas compras.-Minha mãe disse, penteando os cabelos.-Não se importa de ficar sozinho?
-Não.-Eu respondi, sem parar de mastigar.
-Te amo.-Minha mãe deu um beijo em minha testa e saiu arrastando um Tom ainda sonolento.
-Tchau, Tom!-Eu gritei, mas acho que ele teve preguiça de responder.

Liguei a Tv.Assisti à alguns animes chatos e mudei de canal.A maioria dos canais estavam chatos.Em alguns estavam passando programas esportivos, outros entrevistas com o prefeito de alguma cidade da Califórnia ou documentários sobre a vida dos búfalos da África.Acabei parando em um jornal, que por coincidência, falava sobre meu acidente.Me lembrei que queria conhecer a outra vítima.Peguei meu par de muletas, que agora eram minhas companheiras inseparáveis e saí do quarto, cambaleando.Eu estava muito curioso para ver essa pessoa.Talvez ela pudesse me contar algo sobre o acidente, já que eu não sabia de nada.Mas ao mesmo tempo eu sentia que nós dois estavamos ligados de alguma forma.Os únicos sobreviventes.Era quase um milagre uma pessoa estar viva, que dirá duas.Andei...Na verdade manquei pelos corredores, até encontrar uma enfermeira no meio do caminho.Ela era negra e esbelta.Tinha um ar gentil e olhos castanhos.Parecia uma atriz de Grey's Anatomy ou Cold Case.

-Olá.-Eu disse, me equilibrando.-Você pode me ajudar?
-Sim.-Ela disse prontamente.
-É que eu quero visitar uma pessoa que está nesse hospital, mas não sei onde fica o quarto...Ou a UTI no caso.
-Você é o garoto do acidente?O cantor?
-Sim.E ouvi dizer que só eu e essa pessoa sobrevivemos.
-Eu posso te levar até lá, mas não acho que vá adiantar muito.
-Por quê?
-Ela está em coma.Não sabemos se vai acordar.
-Ela?
-Sim.É uma jovem.É uma pena que esteja em estado grave.Tão bonita!A propósito, sou Carmen.
-Prazer.Eu...Apertaría sua mão, se pudesse.-Eu disse olhando para Mary Kate e Ashley Olsen.Ham...Tudo bem, foi o Tom que apelidou as muletas...Não tenho nada a ver com isso!
Assim que a porta do elevador se abriu, eu quase dei um pulo para trás.Eu via uma pessoa completamente arrebentada, no espelho do elevador.Não conseguia acreditar que estava daquele jeito.Eu já sabia que além de minha perna estar engessada até a altura do joelho, eu também tinha tido três fraturas nas costelas, o que doía bastante quando eu respirava, sem contar o traumatismo craniano que me apagou por um mês.Mas olhando para o espelho eu vi um pequeno corte no meu queixo, um grande esfolado no nariz, um outro corte na sobrancelha, o olho esquerdo um pouco arroxeado com olheras profundas e uma faixa branca rodeava minha testa.

-Uau!-Exclamei, me movendo devagar.Os olhos arregalados.
-Não se preocupe.Você vai voltar a ser como antes.
-Mas...Já faz um mês e eu ainda estou assim!
-Eu disse que você vai voltar.-Ela deu uma risadinha.-Só não disse quando.
-Você é uma pessoa bastante animadora, Carmen.-Eu ironizei.
-Também acho.Eu não vou poder subir lá com você.Tenho que ajudar em uma cirurgia agora.A garota está no terceiro andar, no quarto 403.Você consegue ir sozinho?
-Consigo.
-Se quiser, eu chamo outra enfermeira pra te ajudar.É que não posso mesmo!
-Não se preocupe, eu vou sozinho.

Entrei no elevador e lutei com a ''Mary Kate'' para que ela deixasse eu apertar o botão três do painel.Eu quase caí.Te odeio, Mary Kate.Sua malvada!Esperei alguns segundos e a porta se abriu novamente.Dei de cara com o quarto 400.Dei alguns passos e cheguei à porta do 403.Havia uma placa bem embaixo do muro que tinha as letras UTI, gravadas em vermelho.Me equilibrei num pé só, soltei a ''Ashley'' e abri a porta devagar.O quarto estava vazio, exceto pela garota que estava deitada na cama, no centro do quarto.

Me aproximei devagar.Ela dormia profundamente.Seu corpo estava repleto de fios, ligando-a às máquinas que a matinha viva.Um de seus braços estavam engessados.Me aproximei um pouco mais.Aquele rosto era tão familiar!Meu coração estava batendo num ritmo insuportável, minhas mãos suavam e devia ter pelo menos dez borboletas voando no meu estômago.Por quê eu estava me sentindo assim?Não fazia o menor sentido.

O rosto dela era bonito, apesar de estar bem inchado e pálido, além de ter uma faixa branca envolvendo o nariz.Os cachos de seus cabelos loiros e compridos, caíam sobre o travesseiro.Seus lábios sumiam de tão pálidos.Ela parecia ter uns dezenove anos, apesar de que seu rosto dava à ela nada mais que quinze anos.Fiquei encantado por aquele rosto.Senti um alívio estranho, por estar olhando pra ela.Como se eu tivesse acabado de encontrar algo que perdi.Senti um nó na garganta, não de tristeza, mas...De quê?O que é que eu estava sentindo?Não conseguia entender.
-Eu...Conheço você.Mas, de onde?-Eu sussurrei, tentando me lembrar.-Quem é você?

Eu toquei o rosto dela com uma das mãos.Ela estava quente.Eu realmente esperei sentir uma pele fria, porque ela parecia estar morta.Me aproximei mais um pouco.Queria ter certeza de que ela estava viva, porque apesar do ''bip'' da máquina ao lado da cama, eu não conseguia me convencer.Cheguei mais perto do rosto dela, seus lábios estavam entreabertos.Eu senti uma fraca corrente de ar saindo de sua boca, ela estava respirando.Aquele ar fraco e sutil atingiu meus lábios.Eu queria sentí-lo mais perto.Fechei os olhos e toquei os lábios dela.Eram macios e quentes, não consegui me conter.Envolvi seu lábio inferior com os meus.Meu coração parecia querer gritar.Eu me senti atraído por ela, de uma maneira incontrolável.E o mais intrigante ainda, é que eu gostava dela.Eu precisava dela.Eu a queria.Por quê eu sentia aquilo, assim tão de repente?Eu acreditava em amor à primeira vista, mas aquilo era bem mais forte.

O queixo dela tremeu, o que me fez acordar daquele tipo de transe em que eu estava.Me afastei rapidamente.Respirei fundo.O que está acontecendo comigo?Devo estar louco!Me reaproximei devagar.Os olhos dela começaram a se abrir lentamente, como se ela lutasse com as próprias pálpebras.Ela finalmente os abriu, olhou em volta, piscou várias vezes até que seus olhos pararam em mim.
-Bill.-Ela disse com voz embargada, me olhando de um jeito tão apaixonante.Ninguém nunca me olhara daquele jeito.Nenhuma fã, nenhuma namorada que eu tivera...Aquele olhar era único e surpreendente.Era maravilhoso e assustador ao mesmo tempo.O pior de tudo é que ela sabia meu nome.
-O-oi.-Eu gaguejei.-Eu vou...Chamar alguém.-Antes que eu pudesse me afastar senti a mão dela se agarrar à minha como um ato de desespero.
-Não...-Sua voz era fraca, quase inaldível.-Não...Vá...Embora!
-Não tenha medo.-Eu toquei a campanhia estridente, pra chamar uma enfermeira.
-Por favor...-Seus olhos estavam marejados.Ela praticamente suplicava pra que eu ficasse alí.
-Eu estou segurando sua mão...-Apertei a mão dela com as minhas mãos.-E não vou soltar.

Uma lágrima escorreu do canto de seu olho esquerdo.Eu não conseguia entender aquilo.Ela continuou me olhando daquele jeito perturbador e intenso.Eu não sabia porque e nem sabia o que fazer diante daquilo.Tinha acabado de descobrir que aquela garota me deixava sem ação.Eu simplesmente não sabia o que fazer diante dela.Uma enfermeira ruiva e baixinha, entrou no quarto, quebrando aquele gelo que pairava no ar.
-Chamou?-Ela disse, se aproximando da cama.-Você acordou!-Ela abriu um largo sorriso, que iluminou seu rosto redondo.
-Pois é.Eu não sei o que aconteceu...-Eu comecei a dizer, sem conseguir tirar os olhos da garota loira.
-Quem é você?-Ela se dirigiu a mim.
-Sou Bill Kaulitz.Também estou internado neste hospital.
-Você já estava aqui quando ela acordou?
-Estava.Na verdade...-Não.Eu não podia contar sobre o beijo, até eu estava me achando maluco por ter feito aquilo.-Ela acordou pouco depois.Eu...Toquei a mão dela e ela despertou, como se tivesse sentido.-Mentiroso!
-Você é o namorado dela?-Ela olhou pras minhas mãos, que estavam tremendo, envolvendo a mão da garota.
-Não.Eu...Só vim visitá-la, porque...
-Você é o menino do outro carro!
-Sou.
-Olá, Lucy.-Ela disse, acariciando a testa da garota.-Que príncipe bonito veio te acordar, hein?
-É.Lindo...-A garota nem corou.Ela parecia estar enfeitiçada, me olhando como se eu tivesse acabado de descer do céu, ou algo assim.
-Ela se chama Lucy?-Perguntei pra esconder o constrangimento.O brilho do olhar da garota desapareceu.Ela abaixou os olhos.Parecia decepcionada.
-Sim.A propósito, meu nome é Lisa.Vou chamar um médico.Você fica aqui com ela?-Lisa disse, caminhando até a porta.
-Fico.
-Volto logo!Não faça nada que eu não faria.
-Lucy.Desculpa...Esqueci de perguntar seu nome.
-Não se...Preocupe.-Agora ela evitava meu olhar.
-Está se sentindo bem?
-Não.-Ela me olhou com amargura.O que foi que eu perdi?Por quê ela perdeu aquele olhar, tão de repente?
-Eu...Preciso voltar para o meu quarto.-Eu estava envergonhado, sem graça e ainda sem ação.O melhor era ir embora.-Estou um pouco cansado.Você não se importa?
-Tudo bem...-Seus olhos encontraram os meus.Meu coração voltou a palpitar.-Ai!
-O que foi?-Eu perguntei.
-Minha cabeça...
-Parece que vai explodir?
-Ai!-Ela balançou a cabeça, afirmativamente, franzindo a testa.
-Vai melhorar.Eu também senti isso.
-Você...Também estava em coma.
-Estava.Eu...Tenho que ir.Melhoras pra você, Lucy.Tchau!-Eu disse, começando a mancar em direção a porta.
-Bill!-Ela chamou.Sua voz ainda estava fraca.-Eu gostaría...Que você voltasse, depois.
-Ham...Tá!Eu volto.

Olhei para trás e por um instante vi aquele olhar de novo.Era um olhar apaixonado.Era incrível e tão assustador!Lucy era como um enigma, que eu estava louco pra desvendar.Caminhei até o elevador e só quando as portas eletrônicas se fecharam, eu consegui respirar de novo.Eu me sentia inexplicavelmente feliz.Minha pele estava quente, minhas mãos estavam trêmulas e geladas.Meu coração batendo forte.Olhei para o espelho e encontrei nos meus olhos, aquele mesmo olhar apaixonado que Lucy lançara pra mim.

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39 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Nov 18, 2012 9:58 pm

Capítulo 17-Desperdicei tanto tempo...E agora ele acabou.



-Vamos tirar o gesso, Bill?-Dr.Morten disse, entrando no quarto.Eu estava encarando o macarrão, que boiava na tigela de sopa do almoço.Não conseguia tirar aquela garota da minha mente.Não sentia nem fome.-Você está me ouvindo, Bill?-Dr.Morten quase me sacolejou.
-Ham?-Eu respondi piscando repetidas vezes e olhando para o rosto dele.
-O que você está sentindo?Está bem?
-Na verdade...Não.
-O que você tem?
-Eu...-Olhei pra minha mãe, que me encarava preocupada.-Acho que perdi uma parte da memória.
-Mesmo?Fale mais sobre isso.
-Eu...Não consigo me lembrar de onde conheço...Uma garota.
-Isso é normal, Bill.Talvez ela não foi muito importante pra você.
-Não.Você não está entendendo.Eu conheço ela...Tenho certeza!E...
-E...-Minha mãe incentivou que eu continuasse.
-Eu gosto dela.
-Acho que entendi.-Ele olhou para minha mãe e voltou a olhar pra mim com um sorrisinho nos lábios.-Eu também já senti isso, garoto.Você olhou pra ela e teve a sensação de reconhecê-la...Acho que você se apaixonou à primeira vista.
-Não é assim...É mais...
-Não se preocupe, Bill.Eu já senti isso e estou casado com ela até hoje.Agora vamos tirar esse gesso, porque você já está com isso à um mês.

Ninguém conseguiria entender.Nem eu entendia direito.Não era simples assim...Era bem mais que amor à primeira vista.Eu estava apaixonado por ela, à o que parecia ser anos.

-Bill.-Minha mãe disse, se sentando na minha frente, enquanto eu comia a sopa requentada.-Você visitou a outra vítima hoje?
-Visitei.
-E como ela é?
-É...Estranha.
-É uma garota?
-Lucy.
-Como é?
-O nome dela é Lucy.
-Onde eu já ouvi esse nome?
-Viu?É isso!Eu também acho que a conheço de algum lugar!
-Então é sobre ela que você estava falando com o Dr.Morten?
-É!
-Talvez você tenha a visto no acidente.Por frações de segundo...
-Talvez seja.-Eu concordei, para não ter que discutir sobre isso.Não valia a pena...Ela não me entendería.
-Ou talvez seja coisa de outra vida.-Ela sorriu.
-Af!-Eu exclamei, olhando para o teto.-Não conte para o Tom, viu?
-Claro que vou contar...Adoro ter um aliado para zuar você um pouquinho.-Ela fez uma cara de inocente.
-Isso é um complô?-Eu fiquei boqueaberto.
-Não vou falar nada pra ele.-Ela se levantou e me deu um beijo no rosto.-Vou dar uma saída.Coma logo, você tem fisioterapia daqui a pouco.

Meus dias no hospital eram terríveis!Mas aquela maldita quinta-feira fora massacrante.A fisioterapia era cansativa e parecia nunca terminar.Fui dormir às sete da noite, mas teria sido melhor se eu tivesse ficado acordado.

Eu vi aquela luz vindo na minha direção.Não consegui desviar...Apertei o volante do carro e fechei os olhos com força.Ouvi um barulho de vidros se estilhaçando e um barulho estrondoso, junto com um impacto forte.Senti uma dor terrível nas pernas.Era insuportável!Algo rígido bateu no meu rosto, devia ser o volante.Depois minha cabeça foi jogada pra trás, batendo com força no banco.Foi a pior dor que já senti na vida, era como se meu crânio estivesse explodindo em câmera lenta.Eu me sentia em um filme de terror e parecia que aquilo nunca ia acabar.
De repente tudo ficou silencioso.Soltei o volante e minhas mãos caíram sobre minhas coxas.Eu não podia nem pensar em mover um dedo.Sentia dor por todos os lados.Eu estava tonto e sonolento.Tombei minha cabeça para o lado, a apoiando na janela retorcida.Setia meu sangue escorrer pelo pescoço, enxarcando minha camisa.Abri os olhos e olhei através do parabrisa.Vi um rosto de anjo, olhando pra mim.Um risco de sangue escorria de sua testa e seus olhos, vidrados em mim, choravam.Mas o rosto ainda era inexpressivo.Aquelas lágrimas eram indefiníveis, eu não sabia se eram de dor ou de tristeza.Seus cabelos loiros descançavam sobre seus ombros.Aquela garota era tão bonita...Era uma visão muito triste vê-la fechar os olhos e perder os sentidos.Senti vontade de chorar.De gritar pra que alguém não a deixasse morrer, mas eu não conseguia pedir ajuda nem para mim.
Pensei em um milhão de coisas que eu podería ter feito na vida, mas não fiz.Eu podería ter sido feliz com uma garota como aquela.Pordería ter me apaixonado.Desperdicei tanto tempo...E agora ele acabou.
Olhei para o céu.As estrelas brilhavam intensamente, como uma cortina brilhante.Por um instante desejei ter tido a chance de conhecer aquela garota.Desejei ter dançado com ela, jantado com ela, cantado pra ela, feito ela rir...Ou simplesmente ter dormido ao lado dela...Só dormido, ouvindo o coração dela bater.
Era tão triste pensar nas coisas que eu podería ter feito.Já era tarde demais pra pensar na vida.Nós estavamos mortos.Uma lágrima quente escorreu pela minha bochecha.Olhei para a garota morta à minha frente.Um tecido branco e fino voava pra fora da janela toda retorcida do carro em que ela estava.O véu de noiva flutuava levemente, como asas de anjo.
A dor ficou insuportável.Doía até pra respirar.Meus pés congelaram.O frio subiu pelo meu corpo, até alcançar a cabeça.Tudo começou a ficar terrivelmente escuro...Até desaparecer.


Olhei em volta.Estava assustado e lutando pra respirar.Suava frio, meu coração palpitava.Tom roncava na outra cama.Minha cabeça doeu.Aquele fora o pior pesadelo que tive na vida.Um pesadelo terrivelmente real.Era uma lembrança dolorosa do que acontecera comigo na noite do acidente.Pulei da cama.Peguei um cigarro do bolso de Tom e saí do quarto.Os corredores estavam desertos.Eu peguei o elevador e subi até o último andar e de lá subi dois lances de escada para chegar ao terraço.A noite estava congelante, o que deixou meu corpo mais frio ainda.A cidade brilhava lá em baixo, assim como as estrelas no céu.Como se a cidade fosse uma continuação do céu.Já li isso em algum lugar...

Me debrucei no parapeito e ascendi o cigarro, dando tragadas desesperadas.Como era bom sentir a fumaça descer pela minha garganta e passear pelos meus pulmões, escapando pela minha boca.Me senti tonto, fazia muito tempo que não fumava.Meu coração batia devagar, eu estava ficando calmo.Terminei o cigarro e joguei o filtro em um canto.Desci as escadas.Entrei no elevador.Meu coração estava pesando uma tonelada.A porta do elevador se abriu e eu caminhei até o quarto.Fitei a porta.Na placa lia-se:403.As letras vermelhas tinham desaparecido.Girei a maçaneta e abri a porta devagar.Caminhei até a cama.

A garota loira dormia com um ar sereno no rosto.Ainda tinha o mesmo rosto de anjo.Me lembrei dos últimos segundos do acidente.Eu desejei tanto poder conhecer aquela garota do outro carro.Alí estava ela, ao meu alcance.Estavamos vivos e tão próximos...Alguém naquele céu imenso daquela noite, tinha ouvido meus pensamentos.Lucy se mexeu sem acordar.Eu saí rapidamente do quarto e voltei para o meu.Me deitei na cama, mas não consegui dormir.Pensei em tantas coisas...Contei as horas, olhando para a janela, ansioso para que amanhecesse.Eu queria aproveitar minha segunda chance...

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40 Re: Rota 66 - Two souls collide em Seg Nov 19, 2012 11:08 am

Sam McHoffen

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Administradora
Mary Kate e Ashlen?! Disso eu não lembrava! -.-'

Que fofo o Bill beijar a Lucy e ela acordar!
Ahhh Lucy pelo visto lembra do Bill, do "sonho", mas ele não lembra dela! Sad
Espero que o Bill recupere a memória logo, e se lembre de tudo que viveu com a Lucy no coma! Mas se não lembrar, ele pode tentar conquistar ela! Já que agora eles estão realmente no mundo real e podem ficar juntos!

Continue Lara!'

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41 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 10:58 am

Capítulo 18-Depende do quanto o amor é forte.


-Bill!-Tom disse, quase me derrubando da cama.-Acorda!Você tem fisioterapia daqui a pouco.
-Ham?-Eu resmunguei.-Me deixa, Tom!
-Não me faça te dar um soco e te deixar com o outro olho roxo também.
-Tá na minha mala...Pode pegar!-Eu disse me virando para o outro lado.
-Pegar o quê??-Ele gritou tão alto que eu levei um susto e me sentei na cama, olhando para os lados.-Acorda, Bill!Você sabe que horas são?São onze da manhã.Você já perdeu o café da manhã e...
-Quê?Eu não acredito!-Pulei da cama e comecei a andar de um lado para o outro, procurando minha mala de roupas.
-O que você está procurando?
-Uma roupa que preste.Não posso sair por aí de pijamas.
-Mas onde você vai?
-Vou...Sair.
-É?E você acha que está num hotel?Quer que eu chame um taxi?-Ele ironizou.
-Não vou sair do hospital, sua besta!Vou...Ham...Dar uma volta por aqui mesmo.
-Sem comer nada?De jeito nenhum.Vamos almoçar agora!-Ele se levantou e começou a tirar alguns sanduíches, que trouxera, das embalagens.
-Não quero comer.-Eu estava ansioso, não podia esperar nem mais um minuto.Eu precisava pelo menos ouvir a voz de Lucy.Só isso.
-Ainda quer aquele soco?-Tom levantou uma sobrancelha.
-Não.-Eu disse, me imaginando com os dois olhos roxos.
-Então coma isso agora!-Ele me entregou um prato com o sanduíche e um copo de suco.Me sentei na cama e praticamente engoli o sanduíche.
-Obrigado, cara.-Eu disse correndo para o banheiro.Escovei os dentes e dei uma ajeitada no cabelo.
-Você está muito estranho!Por acaso está...Ah, você está saindo com alguém...-Ele me olhou com uma cara de ''óbvio'', como se tivesse acabado de achar o Wally*.
-Não.Por quê está pensando nisso?
-Olha pra você!Está se arrumando como se estivesse indo à uma festa.É uma enfermeira?Aquela ruivinha, né?Seu filha-da-mãe, eu já estava mandando umas indiretas pra ela...Aí você pega ela primeiro?Sujeira hein, Bill!-Ele me deu um soco no ombro.
-Ai!Não é uma enfermeira, Tom.-Eu disse massageando o braço.
-Então é uma paciente.É bonita?
-De-depois eu te conto, Tom!-Eu saí do banheiro e fui direto procurar alguma roupa melhor para vestir.
-Bom dia.-Dra. Elisa, minha fisioterapeuta, abriu a porta.-Chegou a melhor hora do dia!-Ela deu um sorriso irônico.
-Ah, droga!-eu exclamei.-Você me atrasou.-Eu cochichei para o Tom.
-Quer ajuda?-Ele cochichou de volta.-Essa Dra. é gata.Eu tenho coragem.
-Sossega, Tom.Bom dia, Elisa.-Eu disse me aproximando da porta aos poucos, enquanto ela entrava no quarto.
-Já almoçou?
-Ham...Não.Ainda não.
-Devia ter almoçado.Hoje a sessão vai durar um pouco mais.
-Sério?-Eu disse desanimado.Só podia ser brincadeira!-Quanto tempo mais ou menos?
-Umas duas horas.
-Preciso ir ao...Banheiro antes.Tudo bem?
-Sim.Mas não demore.
-Certo.-Eu virei as costas e abri a porta do quarto.
-Ah, Bill.Tem um banheiro no seu quarto.-Elisa disse, me olhando desconfiada.
-Está quebrado.-Tom disse.
-Mesmo?Devia falar com alguém do hospital sobre isso.Quer que eu fale?
-Não.Minha mãe já fez isso.-Tom acenou com as mãos, me mandando correr.

Fechei a porta do quarto e comecei a correr na direção do elevador.Apertei o botão para chamá-lo, ele parecia nunca chegar.As portas abriram e eu entrei, apertando o botão três umas oito vezes até que a porta fechasse.Olhei para o espelho.Ainda estava com aquele maldito pijama branco.Mas tudo bem, eu não ia demorar, só queria conversar com a Lucy.Respirei fundo, meu coração palpitava.As portas eletrônicas se abriram de novo e eu caminhei lentamente pelo corredor, parando em frente a porta 403.

Mas o que eu ia dizer?Eu não podia simplesmente entrar e falar que estava apaixonado por ela.Ela provavelmente ia me expulsar dalí, jogando meia dúzia de coisas na minha cabeça.Eu já estava alí, apenas uma porta me impedia de vê-la, eu não podia voltar atrás.Encostei o ouvido na porta e ouvi uma voz linda, cantando uma música que eu conhecia de algum lugar.Girei a maçaneta e abri a porta.Lucy estava sentada, encostada contra o travesseiro.Seus olhos estavam fechados, fones minúsculos caíam de seus ouvidos e ela cantava junto com a música que estava ouvindo.Ela era tão linda!Era como se eu me apaixonasse por ela cada vez que a via.Fiquei olhando pra ela por alguns minutos, ela usava um vestido roxo, com estranhos babados amarelos.Eu tinha a sensação de tê-los vistos em algum lugar.

Uma pequena lágrima caiu do olho dela, enquanto ela cantava.Era a coisa mais triste que eu já vira.Não consegui me segurar.Caminhei até ela e toquei seu rosto de leve, exugando aquela lágrima com o polegar.Seus olhos se abriram e ela me olhou assustada.

-Bill?-Ela disse, abrindo um sorriso estoteante.
-Oi.-Eu sorri, sendo contagiado pelo sorriso dela.-Você está bem?
-Estou.-Ela tirou os fones de ouvido e me abraçou.Fiquei sem reação.Minhas mãos tocaram as costas dela e eu fechei os olhos.Por breves segundos, várias imagens inundaram minha mente, num flesh assustador.Pareciam fotos do rosto de Lucy, de todos os jeitos, sorrindo, triste, decepcionada, envergonhada, dormindo ou simplesmente me olhando.Abri os olhos e me afastei dela.Onde eu já tinha visto aquelas fotos?Eram fotos?Pareciam lembranças...
-Ham...-Eu murmurei.Estava tentando arrumar uma desculpa para isso tudo.Limpei a garganta.-Eu estava passando por aqui e ouvi você cantando.Você tem uma voz linda.
-Obrigada.-Ela disse, passando uma mecha do cabelo por trás da orelha.-Desculpe por ter te abraçado.Foi um impulso.
-Não tem problema.Você deve estar se sentindo sozinha aqui, né?
-Um pouco.
-Aonde estão seus parentes, Lucy?
-Meu pai está no Texas.Não quis me ver.
-Por quê?
-É uma longa história.
-Não vou fazer nada hoje.Tenho tempo pra ouvir.
-Deixa pra lá.O bom é que pude rever minha prima, que mora aqui e trabalha nesse hospital.-Ela abriu um sorriso lindo, que me deixou mudo.-Eu não via ela desde os dez anos.Ela tem ficado aqui comigo nas suas folgas.
-Que bom que você não está sozinha.-Me senti sem graça e um completo idiota por estar alí.-Tenho que voltar pro meu quarto.
-Por quê?Você não disse que não ia fazer nada hoje?
-Na verdade...Acabei de fugir de uma sessão de fisioterapia.
-Mesmo?Então não deveria estar aqui.
-Eu sei.Me desculpe...
-Eles vão te achar aqui.-Ela se levantou da cama e pegou minha mão.-Vem!Conheço um lugar melhor.

Ela me arrastou pelas escadas do hospital.Subimos inúmeros lances de escadas e chegamos ao terraço, onde eu tinha fumado um cigarro na noite passada.
-Eu adoro esse lugar!-Ela exclamou, subindo no parapeito.
-Lucy!-Eu corri e a segurei pela cintura.
-Calma.-Ela tocou meus braços de leve.Um calor estranho subiu pelo meu corpo todo ao sentir a pele dela através do tecido leve do vestido.-Só vou me sentar aqui.
-Você pode cair.
-Sabe quais são as coisas que eu mais sentiria falta, se tivesse morrido?
-Quais?-Eu disse me debruçando no parapeito, ao lado dela.
-Primeiramente do vento.É a coisa mais sutil que existe no mundo.-Ela fechou os olhos e respirou fundo.Seus cabelos dançavam com a brisa que batia no rosto dela.
-E quais são as outras coisas?
-Esquece.
-Por quê?
-Não.Deixa pra lá.
-Lucy.-Eu peguei o braço dela.-Me fala.
-Ia sentir falta da sua música.-Ela me olhou com tristeza, voltando a olhar para a cidade.
-Você é minha fã.Por isso me olhou daquele jeito estranho, quando acordou.-Eu finalmente percebi o quanto estava sendo imbecil.Não era um olhar apaixonado, era só admiração.
-Eu sou sua fã, mas não foi por isso que te olhei daquele jeito.
-Então, por quê?
-Quando te vi entre as ferragens daquele carro...Achei que você tivesse morrido.Foi horrível te ver daquele jeito, e não cantando e rindo como eu sonhava em ver.O pior de tudo, foi não poder fazer nada por você.
-Ás vezes nem parece ter acontecido.Sinto muito pelo seu noivo.
-Obrigada.Eu também, apesar de que não me lembro dele.
-Você não se lembra dele?
-Sei que ele se chama Jack.Lembro de brigar com ele antes do acidente.Ele estava bêbado e começamos a discutir, depois eu dei um tapa no rosto dele, ele ficou furioso e perdeu o controle do carro.Não lembro como o conheci, não lembro do casamento ou qual foi o motivo da briga.Só me lembro do rosto dele.-Ela fechou os olhos pra sentir mais uma rajada de vento em seu rosto.
-Mas se você se casou com ele, é porque o amava.Será que é possível esquecer quem se ama, mesmo quando você perde a memória?
-Depende do quanto o amor é forte.Há pessoas que eu não esqueci.-Ela voltou a olhar pra mim.-Porque as amo mais do que qualquer coisa.E você?-Ela limpou a garganta e voltou a olhar para a cidade.-Não se esqueceu de nada?
-Felizmente não.
-Felizmente.Sabe, eu não lamento por ter me esquecido de Jack.Sería muito cruel se eu o amasse de verdade e soubesse que ele está morto.Mesmo assim me sinto culpada pelo acidente.
-A culpa não foi sua.Ele estava bêbado e eu estava distraído.
-Você não nem tem nada a ver com isso.Ele invadiu sua pista.
-Eu podia ter desviado.Você é muito jovem e já é viúva.Isso é muito triste.Eu queria ter evitado isso.
-Eu sei.Mas eu sinto que foi melhor assim.O meu destino não era ficar com ele.
-Você acredita em destino.-Eu sorri.
-Claro.Acho que tudo que acontece tem um porque.
-Até mesmo coisas ruins?
-Até mesmo coisas ruins.Como esse acidente.
-Por quê você acha que isso tudo aconteceu?Quais são suas teorias?-Eu disse, em tom de brincadeira.
-Ainda estou esperando pra descobrir.Ah, droga!-Ela disse, petrificada.
-O que foi?
-Não devia ter olhado pra baixo.Me tira daqui.-Ela apertou os olhos.
-Como vou fazer isso?
-Não sei.Eu não consigo me mexer.Tenho medo de altura!
-Então porque subiu aí?-Eu ri.Segurei a cintura dela e a puxei para trás.Péssima idéia!Me desequilibrei e caímos no chão.
-Me desculpe, Bill.-Ela se levantou e me estendeu a mão.-Sou maluca!
-Mesmo?Nem notei.-Me levantei, limpando o pijama.
-Tenho que voltar.
-Eu também.Minha fisioterapeuta deve estar querendo me matar.

Descemos as escadas e caminhamos pelos corredores.
-Bom, até logo, Bill.Foi bom conversar com você.-Ela disse, parando em frente a porta de seu quarto.
-Até logo, Lucy.Posso vir aqui...Depois?
-Claro.Quando quiser!Vou estar sozinha à tarde, então agente podia assistir Tv.O que acha?
-Sería ótimo.Apesar de que à noite só poderemos ver animes, e os que passam aqui são terríveis!
-Tipo pokemón!-Ela disse, rolando os olhos.-Por quê não algo como ''sakura card captors'' ou ''zatch bell''?Mas eu descobri um canal de novelas mexicanas.-Ela riu da cara de tédio que eu fiz.Deu um beijo no meu rosto e entrou no quarto.-Então até às seis.
-Até as seis.-Eu sussurrei.Mesmo sendo um beijo no rosto, foi o melhor da minha vida.Lucy não parecia ser desse mundo.Eu estava ferrado, encrencado, hipnotizado e definitivamente apaixonado.E o que era pior, Lucy não parecia estar.

-Bill Kaulitz!-Minha mãe disse furiosa, quando eu abri a porta do meu quarto.-Onde você estava?
-Eu...Ham...
-Ele disse que ia ao banheiro, senhora Trümper.Mas demorou uma hora e meia.-Dra.Elisa disse, cruzando os braços.
-Mas eu fui.É que estava lotado!
-Mesmo?E desde quando este banheiro está quebrado?-Minha mãe falou, apontando para a porta ao lado da minha cama.
-Estava.-Tom disse num tom insolente.-É que consertaram e eu não vi.
-Pare de encobrir seu irmão, Tom!
-Mas é verdade, mãe.
-Você está vendo isso?-Ela se dirigiu à doutora.-Nunca tenha gêmeos, eles vão se unir e fazer um complô contra você.
-Não é um complô.Eu estava falando a verdade.
-Que seja, Bill.O que interessa é que a Elisa vai ficar aqui, e você não vai poder fugir da fisioterapia.
-Droga!
-Vou limpar aquela casa de vocês...Está um lixo!Vocês não limpam aquele lugar, não?
-Fale com o Tom.Não moro naquela casa à um mês.
-Traidor!Eu te defendo e é assim que você me agradece?-Tom disse, quase me batendo.-Mãe, ele fugiu pra ver a ''namoradinha'' dele.
-Que namoradinha?-Minha mãe me olhou com um ar sombrio.
-Tom!-Eu exclamei.-É mentira, mãe!Eu realmente fui ao banheiro.
-Ah, é a garota do acidente...-Minha mãe disse, pensativa.
-Garota do acidente?-Tom disse.
-Não.Esqueçam!-Eu disse, me sentando na cama.
-Você está pegando a ''outra vítima''?-Tom fez o sinal de aspas com os dedos.
-Não!
-Chega!-Minha mãe disse.-Tom, você vem comigo pra casa.
-Ah, não mãe!Eu tenho coisas a fazer por aqui.
-Sinto muito.Você está sendo convocado à lavar o banheiro daquele apartamento.
-Espera.Não estou me sentindo muito bem.-Ele fez uma cara de retardado e se sentou na cama.-Acho que vou ter que ficar internado também.
-Você pode ficar...Depois de lavar aquele banheiro.Vamos agora, mocinho!-Minha mãe arrastou o Tom pela porta.
-Vamos para a fisioterapia?-Dra.Elisa disse, sorrindo sarcasticamente.
-Eu não sei o que é pior, lavar banheiro ou essas sessões de tortura!

Nota da autora:*Wally é um jogo, que consiste em achar um carinha de gorro vermelho, no meio de uma multidão.Na verdade o jogo se chama ''Onde está wally?''

Capítulo 19-Você sempre está por perto quando eu preciso.



Saí do banheiro e olhei para o espelho que minha mãe colocara ao lado da cama.Eu estava até apresentável.Vestia uma camiseta branca e uma calça de moletom preta.
-Uau!-Tom disse entrando pela porta.-Onde você vai?
-Vou...Sair.
-Ah, é?Com a minha calça?
-É sua?Mas é tão justa!
-É que eu durmo com ela.
-Que seja.Me empresta?É a única coisa que presta nessa mala!
-Eu sei, Bill.Minhas roupas são incríveis.
-Menos, Tom!
-É um encontro?
-Quase.
-Boa sorte, então.
-Obrigado.
-Vou ficar aqui, sozinho...-Ele fez cara de drama.-Com essa Tv...Eu e ela.Ela e eu.
-Tom, desiste.Não vou te levar junto comigo!
-Tudo bem.Não me importo.Ah!-Ele exclamou, enquanto eu saía pela porta.-Se precisar, pegue o que tem no bolso da calça.

Entrei no elevador e olhei para o espelho de novo.Eu estava horrível.Ainda tinha um olho roxo e cicatrizes dos cortes no rosto.Apertei o botão três do painel.Estava ansioso, minhas mãos suavam.Saí do elevador e caminhei até o quarto de Lucy.Bati na porta, mas ninguém atendeu.Ouvi uma música antiga e animada, vindo do quarto.Abri a porta.Lucy dançava, olhando para a janela e cantando a música.Ela estava feliz.
-Lucy?-Eu disse, me arrependendo na hora.Ela se virou de uma vez, levando um tremendo susto.
-Oi.-Ela respondeu, envergonhada.-Você chegou cedo!
-É.Desculpa.-Eu estava tão nervoso, que não sabia o que fazer com minhas mãos que estavam tremendo.As coloquei no bolso da calça e meus dedos tocaram algo plástico.
-Serviço de quarto!-Uma enfermeira loira e muito parecida com Lucy, entrou trazendo uma bandeja com dois pratos de pizza e dois copos de coca-cola.
-Obrigada, Helena!-Ela disse, sorrindo.
-Não se acostume.E você mocinho...-Ela apontou para mim.-Volte para o quarto às oito.Ok?
-Nove?-Lucy disse, sorrindo.
-Oito e meia.-Eu sorri.
-Oito e meia.-Helena saiu, fechando a porta atrás de si.
-Eu também quero essas mordomias.-Eu disse, me sentando na mesa.-Oh!!Pizza de queijo!
-Você é vegetariano, então eu pensei que...
-Não.Está ótimo!
-Sente-se.
-Primeiro você.-Eu puxei a cadeira pra ela se sentar e me sentei na outra cadeira, de frente pra ela.
-Obrigada.
-Agora temos tempo, Lucy.Pode me contar ''a longa história''.-Eu cortei um pedaço da pizza.
-Me desculpe, Bill.Mas não me lembro.
-Como assim?
-Eu não me lembro de mais nada do que aconteceu antes do acidente.Ainda me lembro de momentos da minha infância, minha família.Mas a maioria das coisas simplesmente...Desapareceram.
-Ás vezes gostaría de ter a oportunidade de apagar algumas coisas da minha mente.Pelo menos as mais desagradáveis.
-Não vale a pena.-Ela tomou um gole de refrigerante.-É assustador!É como se eu não tivesse história, não fosse ninguém.
-Não pense assim.Você é muito importante pra...Alguém.Concerteza.
-Você acha?
-Claro.Eu imagino que existam muitas pessoas que não conseguiriam viver sem você.
-Meu pai nem ligou pra saber como eu estava.A única pessoa da família que se importa comigo é a Helena.Eu acho que fiz uma coisa péssima com minha família e é tão frustrante não me lembrar o que foi.
-Amar é nunca ter que pedir perdão, Lucy.Se sua família te ama realmente, ela vai te perdoar.Se eles não forem capaz disso...Não merecem você.
-Eu não sei o que vou fazer quando sair daqui.
-Não fique preocupada.-Eu segurei a mão dela, sobre a mesa.-Eu estou aqui.Pode contar comigo.
-Viu?Foi por isso que te abracei hoje de manhã.Você sempre está por perto quando eu preciso.
-Amigos são pra essas coisas.
-Amigos...-Ela repetiu a palavra, tentando entendê-la.-Bill, ham...Durante o coma, você viu alguma coisa?
-Ver?Como assim?
-É...Tipo, um sonho.
-Não que me lembre.Por quê?
-Não é nada, eu só queria saber.
-Você teve um sonho?
-Tive.Foi um sonho tão...Real.Queria não ter acordado.
-Hey!Não lamente por ter acordado.Você está viva!Nenhum sonho é tão impossível a ponto de não se realizar.Quem sabe você consegue.
-Não.É como o céu...Não dá pra tocá-lo nunca.
-Eu sinto muito, Lucy.Se eu pudesse te ajudar...
-É, seria bom se você pudesse...-Ela me encarou, pensativa.-Gostou da pizza?
-Muito!-Eu disse, mastigando o último pedaço.
-O que quer fazer agora?
-Queria fumar um cigarro.
-Quer subir para o terraço?
-Não adianta, meu maço acabou.
-Eu tenho.
-Você fuma?
-Eu não me lembro, sei que acordei do coma com vontade de fumar.
-Talvez você fumasse escondido de todo mundo...
-É bem provável, já que minha prima custou acreditar que eu estava pedindo um maço de cigarros pra ela.
-Você não tem cara de fumante.
-Não sei porque, mas tenho a impressão de que o cigarro é só a ponta do iceberg.

O que mais ela era capaz de fazer?Quem era Lucy?Eu não fazia a menor idéia, mas todo aquele mistério que ela tinha me atraía mais ainda.Subimos as escadas e chegamos ao terraço.Encontramos um pôr-do-sol exuberante no céu de Los Angeles.
-Essa cidade é tão linda!-Lucy disse, se debruçando no parapeito e acendendo um cigarro.
-Tóquio é ainda melhor!-Eu peguei um cigarro que ela me ofereceu.
-Adoraría conhecer Tóquio.
-O que mais você adoraría fazer, Lucy?
-Como assim?
-Sei lá.Quais são seus sonhos, seus desejos?
-Essa é difícil.A maioria dos meus desejos são impossíveis.
-Como o quê?
-Que eu me lembre, quando eu era criança, queria voar.
-E agora?
-Agora?Eu queria viver um amor forte.Sabe aquelas coisas de filme?-Ela olhou pra cidade com um ar sonhador, escorando o rosto com uma das mãos.-Um amor que conseguisse vencer qualquer coisa...Até mesmo a morte.
-Eu costumava ter esse sonho, mas ele parece estar cada vez mais distante.
-Como é que se diz?Ah, ''Nenhum sonho é tão impossível a ponto de não se realizar''.-Ela repetiu minhas palavras, soltando uma boa quantidade de fumaça pela boca e me olhando com ironia.
-Acho que estava errado sobre isso, né?-Eu sorri.
-Bill!-Ela sussurrou, apertando minha mão de repente.Eu olhei pra ela e vi uma cena assustadora.Os olhos dela estavam parados e ela estava tremendo.
-Lucy!O que está acontecendo?-Eu a segurei , quando ela começou a perder a consciência.Eu a deitei no chão.Seu corpo todo tremia e se debatia, como se ela estivesse levando uma série de choques.Seus olhos me fitavam fixos, pedindo ajuda.-Eu vou pedir ajuda.Por favor, Lucy.Fique calma.

Desci as escadas e corri pelos corredores, tentando achar alguém.O hospital parecia estar assustadoramente vazio.Eu precisava achar alguém logo!Lucy estava...Morrendo.Mas por quê?
-Dr.Morten!-Eu gritei, ao ver um homem de branco caminhando em direção ao raio-x.
-O que foi, Bill?-Ele respondeu assustado.
-Você precisa me ajudar.Tem uma paciente...Nós estavamos no terraço e...Ela está morrendo!
-O quê?Tanya, chame dois enfermeiros.Quero uma maca lá no terraço em três minutos.-Ele disse, se dirigindo à uma enfermeira que passou pelo corredor.
-Sim, senhor.-Tanya respondeu, correndo em direção ao elevador.

Corremos para o terraço.Lucy ainda estava do mesmo jeito, se contorcendo e se debatendo.
-O que está acontecendo com ela?-Eu perguntei.-Ela está morrendo?Ela não pode morrer...Por favor, Lucy..-Eu segurei a mão dela.-Não morra.
-Eu não tenho certeza ainda, mas acho que ela está tendo um ataque epilético.
-O que é isso?
-Depois eu explico.-Dr.Morten disse olhando para trás.Dois enfermeiros traziam uma maca.Eu me afastei.Estava assustado e desesperado.Ela não podia morrer.Logo agora?Não!

Descemos as escadas às pressas.Lucy foi levada para uma sala onde eu não podia entrar.Me sentei no chão do corredor.Estava ansioso.Queria estar lá com ela.Era agoniante não saber de nada.Meia hora depois, Dr.Morten saiu da pequena sala e se sentou no chão ao meu lado.
-Bill.Nós precisamos conversar.-Ele disse, naquele maldito tom cuidadoso.
-Ela...Morreu?-Eu senti minha garganta queimar.
-Acalme-se.Ela está bem.Ainda assim, as notícias não são muito boas.
-Como assim?
-Você ainda não apresentou problemas, sequelas do acidente.Tenho te mantido aqui para observar e realmente ter certeza de que não vai desenvolver nada.Mas com Lucy foi diferente.Ela teve perda parcial de memória, desenvolveu uma espécie de distúrbio e agora acabamos de constatar que ela tem epilepsia.
-O que isso significa?
-Você realmente gosta dessa garota, Bill?
-Gosto.
-Que bom, porque terá que ter muita paciência com ela.Todos os problemas que ela tem podem ser controlados com remédios, mas às vezes os remédios falham.Ela vai esquecer de algumas coisas que disse, vai esquecer de uma série de coisas.Não posso te dizer com precisão, mas ela vai ter muitas opiniões sobre uma situação, por exemplo.
-Não consigo entender.
-Ela é uma pessoa instável, Bill.Não vai se lembrar de algumas coisas.Muitas vezes, vai esquecer até do que disse.Vai voltar atrás, mudar de opinião...Diversas vezes.Por isso terá que ter paciência e cuidar dela.
-Não tem cura?
-Não.É irreversível.Minúsculas partes do cérebro dela, morreram.Não se reconstituem.
-Ela vai se esquecer de mim?
-Não sei.É muito complicado, Bill.Você nunca vai saber o que ela vai esquecer e o que não vai.
-E quanto ao outro problema?
-A epilepsia?É o que você acabou de presenciar.Ela perde o controle sobre o corpo, que começa a tremer freneticamente.É como se o cérebro estivesse entrando em curto, como se tivesse recebido choques elétricos.Se você não tivesse me encontrando naquela hora, ela não tería sobrevivido.Ela estava começando a ter uma parada cardíaca.Por isso eu te pergunto de novo, Bill.Você gosta tanto dela assim?Acha que vale a pena trazer os problemas dela pra sua vida?
-Não vou poder ficar cuidando dela.Eu viajo muito.
-Não estou dizendo que ela vai ter que ficar trancada numa torre, garoto.Estou dizendo que ela vai precisar de uma certa atenção especial.Ela vai poder levar uma vida normal, mas você não vai poder deixá-la sozinha.E se ela se esquecer de tomar os remédios?Ou se esquecer onde está e como foi parar alí?Ela vai entrar em pânico se estiver sozinha.
-Está dizendo que ela vai poder viver como qualquer outra pessoa?
-Claro.É uma doença crônica, mas que pode ser controlada.Mas mesmo assim quero que você pense bastante, pra não se magoar e não magoá-la também.
-Eu vou pensar.Posso vê-la?
-Ainda não, Bill.Estamos fazendo alguns exames.Volte para o seu quarto e descanse.
-Não.Eu não posso deixá-la aqui sozinha!De jeito nenhum.
-Por favor, Bill.Ela está bem.Confie em mim, sou um médico.Volte para o seu quarto e amanhã você poderá vê-la, no quarto dela.Ela vai estar acordada e medicada.

Me levantei e caminhei até o elevador.Eu não queria voltar para o meu quarto, mas não tinha pra onde ir.Ainda estava assustado, perturbado por aquela cena horrível.O que eu devia fazer?Eu tería que cuidar dela, tería que me dedicar á isso.Mas não podia...E quanto a banda?E os shows?Mas eu não podia abandonar, Lucy!Não podia deixá-la sozinha.Ela não tinha ninguém, a não ser que se mudasse para San Angelo.Mas isso também sería péssimo.Eu não queria ficar longe dela.E se eu assumisse o compromisso de cuidar dela, estar com ela o tempo todo, mas um dia me cansasse disso tudo?E se um dia eu me arrependesse?Qual dos males é o melhor?

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42 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 11:02 am

Capítulo 20-Desistir antes de tentar.



Encarei o quarto escuro e vazio.Tom tinha sumido sem dizer nada, mas era melhor não ter que falar com ninguém.Eu precisava pensar.Me deitei na minha cama e fitei o teto por um longo tempo.Tentei imaginar como seria minha vida sem Lucy.Doía pensar que ela estava a apenas alguns andares de distância, imagina se essa distância se transformasse em quilômetros.Não, eu não podia viver sem aquela garota.Era impossível!
Então me imaginei tendo Lucy sob meus cuidados.Eu não estava pronto pra me dedicar a alguém dessa forma.Ainda era jovem demais.Não queria ser egoísta, mas não podia assumir esse compromisso.Por outro lado, eu queria ficar com ela o tempo todo se fosse preciso.Mas isso era paixão.Dizem que a paixão dura apenas um ano.O que eu faría quando ela acabasse?E se ela não se transformasse em amor?E se eu me visse preso a Lucy?E se ela se transformasse em um fardo pesado demais pra suportar?

Pensei tanto nessa situação, que dormi pesando os pós e os contras.Sonhei que vigiava Lucy o tempo todo, sem poder me ausentar.Ela não fazia idéia de quem eu era, mas eu precisava cuidar dela.Ela não tinha mais ninguém no mundo.Era agoniante amá-la, sabendo que ela nunca sentiria o mesmo, a não ser que se lembrasse de mim por alguns segundos.Era frustrante e doloroso ouvir a voz dela me perguntando quem eu era, o tempo todo.
Acordei suando frio.Eram três da manhã, não havia nem sinal do Tom.Liguei pra ele umas cinco vezes, mas ninguém atendeu.Me deitei de novo e cochilei.Dessa vez sonhei que eu e Lucy estavamos deitados sobre uma grama macia.Olhávamos para as estrelas e ela me mostrava as constelações.Depois nos beijamos e quando eu abri os olhos, ela tinha desaparecido.Eu chamei por ela, mas não tive resposta.Estava sozinho.Me senti ainda mais sozinho quando acordei.Senti um frio no coração, um vazio esmagador.

Me levantei e saí caminhando pelos corredores desertos do hospital.Nenhuma enfermeira, nenhum médico ou até mesmo um paciente passava por alí.Eu me senti completamente sozinho e perdido naquele hospital enorme.Desci para o terceiro andar e fui para o quarto de Lucy.Eu precisava tomar minha decisão, mas antes precisava olhar pra ela pra saber se eu tería coragem de abandoná-la.

Entrei no quarto 403, fechei a porta e caminhei até a cama.Lucy dormia com um ar sereno.Eu não ia conseguir me afastar dela.Mas talvez fosse melhor deixar ela voltar pra sua cidade, pra casa de seu pai.Ela sería mais feliz estando perto da família.Se ficasse comigo, tería que viajar o tempo todo, porque eu não podia abandonar minha banda por causa dela.Não podia nunca!Eu tinha que ser forte e dizer pra ela que não a visitaría mais.Para o bem dela, eu precisava fazer isso!Por mais que quisesse, eu nunca sería capaz de cuidar de Lucy.

Mas o que eu diría?De que forma?Não queria magoá-la.Talvez fosse melhor eu nem dizer nada.Minha garganta doía e eu sentia vontade de chorar.Seja forte, Bill!É o melhor a fazer.Respirei fundo, me aproximei dela e dei um beijo em sua testa.Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto, sendo em vão meu esforço de segurá-la.Quando me afastei, meus olhos encontraram os de Lucy, que me olhava sem entender nada.Dei alguns passos pra trás, esbarrando numa mesa que estava encostada na parede.Derrubei vários porta-retratos que estavam alí, fazendo um barulho estrondoso.

-Me desculpe, Lucy.Eu...-Eu gaguejei, enxugando o rosto.-Eu só vim...Ver se você estava bem.
-Eu estou bem.Obrigada, Bill.-Ela disse, se sentando na cama.-Você está chorando?
-Não.Só...-Eu me abaixei pra pegar os porta-retratos e Lucy veio me ajudar.-Olha a bagunça que eu fiz!
-Não tem problema.Eu arrumo.Pode deixar.
-Esta é você, no dia do casamento?-Perguntei, olhando para uma foto onde ela estava vestida de noiva com uma expressão sonhadora, enquanto o cara de terno ao lado dela, parecia descontente e entediado.
-Sim.Acho que eu estava feliz.Talvez gostasse dele.-Ela se levantou e ajeitou os quadros na mesinha.-Só que ele não gostava de mim.Meu pai mandou essas fotos para a Helena.Acho que ele vai vir me visitar essa semana.
-Que bom, Lucy.Fico muito feliz por isso.-Dei um beijo no rosto dela.-Boa noite.Vou voltar para o meu quarto.
-Boa noite.Volte amanhã.
-Eu não posso.
-Por quê?
-É que...-Eu tentei falar, mas não conseguia achar as palavras certas.Talvez se eu ficasse um pouco mais com ela, até que ela dormisse, fosse deixar as coisas mais fáceis.Eu podia ir embora sem que ela visse e depois era só não voltar mais.Eu podería ir para outro hospital.-Lucy, posso ficar aqui até amanhecer?É que...Meu irmão sumiu, então estou sozinho.Não consigo dormir, estou tendo pesadelos e...Por mais que eu tente, não consigo parar de pensar em você.-Eu disse sem querer.Foi incontrolável e espontâneo.Quando vi já tinha falado.-Desculpe.Eu não quis dizer isso.-Me virei, envergonhado e fui caminhando para a porta.
-Então...Você gosta de mim?-Ela sussurrou.Parei no meio do caminho e me virei pra olhá-la.

Lucy já estava na minha frente.Ela pegou meu rosto com as mãos e me beijou com ardor.Eu passei os braços em volta de sua cintura e a apertei contra mim.A carreguei e a sentei na mesinha, fazendo os quadros caírem de novo.Aquele beijo era de tirar o fôlego.Nossa línguas se tocavam impetuosamente, ela mordiscava meu lábio inferior e voltava a me beijar com fúria.Toquei o rosto dela com uma mão e comecei a beijar seu pescoço, descendo para a clavícula até chegar ao ombro.Seus lábios tocaram meu pescoço.Senti um arrepio subir pela minha coluna, quando Lucy sugou minha pele, levemente.Ela rodeou meu quadril com as pernas, me puxando pra mais perto.Desci uma das mãos pelas costas dela, passei pelo quadril até chegar a perna.Apertei a coxa dela, enquanto beijava seu pescoço.Ela subiu minha camiseta branca, até a altura dos meus braços.
-O que eu estou fazendo?-Eu disse ofegante, espalmando as mãos na parede e prendendo Lucy entre meus braços.Ela passou as mãos pelas minhas costas e não disse nada.-Me diz...-Eu a abracei.Passando o nariz pelo pescoço dela, subindo para os cabelos.Sentindo aquele perfume indefinível que só ela tinha.-Por quê eu te desejo tanto?
-Não sei.-Ela sussurrou.Nossas bocas estavam entreabertas e próximas, prontas para o próximo beijo.Eu podia sentir o ar quente saindo da boca dela e tocando meus lábios.
-Nunca senti isso por ninguém, não dessa forma.-Eu a abracei, passando as mãos pelos cabelos dela.Mesmo assim precisava ir embora.-Eu...
-Eu te amo, Bill.-Sua voz era quase inaldível.Talvez ela não quisesse que eu escutasse, mas eu escutei.Aquelas palavras fizeram meu corpo congelar.De alguma forma eu acreditava nela, no fundo eu sabia que era verdade.De repente me senti forte o bastante para enfrentar qualquer coisa por ela.Percebi que estava sendo covarde por desistir antes de tentar.
-Eu também te amo, Lucy.

Ela me olhou surpresa e sorriu timidamente.Tomei os lábios dela com urgência.A carreguei até a cama e me deitei sobre seu corpo.Abri os botões do camisete que ela usava e afastei as duas partes do tecido.Sentia minha pele descansar sobre a dela, ambas quentes e com a pulsação à flor da pele.Sentia o contorno de seus seios, tocando meu peito.Eu a queria mais do que qualquer coisa.Por mais que achasse errado, não podia parar.Não era um capricho, nem um desejo momentâneo.Era uma necessidade que não dava pra ignorar.Meu corpo só pedia por mais e mais.

Desci minhas mãos pela lateral do corpo dela, até chegar no quadril.Toquei o elástico de sua calcinha, a desci devagar, contornando sua coxa com os dedos, passando pelos joelhos, até chegar aos pés e poder tirá-la.Beijei a barriga dela na altura do umbigo, subindo para os seios, passando pelo pescoço, até chegar novamente à boca.Apalpei o bolso da minha calça e encontrei um preservativo.Tom!
Quando comecei a penetrá-la, notei que ela era virgem.Cada minuto, cada mínimo detalhe era como um dejavú.Tudo o que eu sentia era muito mais intenso do que já tinha sentido antes, com outra mulher.Mas era estranhamente familiar.Eu já tinha feito tudo aquilo antes...E com ela.

Calafrios subiam pela minha espinha, arrepiando minha pele.Lucy gemeu, cravando as unhas nas minhas costas.Mordi os lábios ao sentir minha pele arder.Eu também já começava a sentir o mesmo que ela.Minha pele ficou quente, minha respiração se tornava quase impossível.Então senti uma dor fraca e prazerosa.Lucy enclinou a cabeça para trás e eu beijei seu queixo, descendo pelo pescoço.Fechei os olhos e junto com o prazer intenso, várias imagens vieram na minha mente, de uma vez só.Lucy estava em todas elas.Era como cenas de um filme, onde eu e ela éramos os personagens.Fiquei imóvel e encarei o rosto de Lucy.Seus olhos estavam fechados e ela ainda ofegava.
-Isso é...Impossível!-Eu sussurrei, tocando o rosto dela.
-O quê?-Ela perguntou, abrindo os olhos devagar.
-Nada.-Me deitei ao lado dela e a puxei para perto de mim.Ela sorriu e fechou os olhos, me abraçando forte.Eu a vi no acidente e me encantei tanto por ela, que acabei sonhando durante o coma.Ou eu era um louco, ou minha mente era brilhante.Dava pra escrever um livro com tudo o que eu me lembrava que tinha sonhado.O sonho inteiro era perfeito demais.Era por isso que eu a amava tanto, que a desejava e que não conseguia tirá-la da minha mente.Por isso não pude me afastar dela.Na verdade eu a conhecia sim...Dos meus sonhos.


Capítulo 21-Talvez algumas coisas eram verdade, outras só imaginação.


-O que significa isso?-Ouvi uma voz exaltada, em algum lugar na penumbra do quarto.
-Bill, desliga a tv.-Lucy murmurou, virando de costas, sem abrir os olhos.
-Não está ligada.-Eu respondi, deitando a cabeça sobre o peito dela.
-Acordem!-A voz insistiu.Abri os olhos.O quarto tinha ficado claro de repente.Olhei na direção da porta e vi Carmen com as mãos na cintura, me olhando com uma expressão encabulada e limpando a garganta.
-Ca-Carmen!-Eu disse, me sentando na cama e puxando o lençol até os ombros.
-Que coisa mais feia!Vocês acham que esse lugar é o quê?
-O que...Merda!-Lucy disse, cobrindo a cabeça com o lençol, ao perceber que não estavamos sozinhos.
-Eu só não vou contar a ninguém, porque isso pode custar meu emprego.Mas você vai para o seu quarto agora, Bill.Entendeu?
-Mas, Carmen...
-Nem mais, nem meio mais.Vou te esperar lá fora e você tem três minutos pra se vestir.-Ela saiu, batendo os pés.
-Que vergonha...-Lucy disse, cobrindo o rosto com as mãos.
-Nem me lembrei que alguém podia entrar aqui.-Eu disse, procurando minha boxer que devia estar em algum lugar do quarto.-Achei!
-Bill.-Lucy disse, se sentando na cama.Nos entreolhamos e começamos a rir.-O que será que ela viu?
-Nada que não veja todos os dias.-Eu disse, vestindo minhas roupas.-Ela é uma enfermeira, Lucy.
-Eu não acredito que fizemos isso num hospital.
-E por algum acaso, -Eu me deitei sobre ela e comecei a beijar seu rosto.-você se lembrou que estavamos num hospital?
-Não.-Ela riu.
-Então!Quer saber?Não estou nem aí!-Eu sorri.Lucy me beijou devagar.
-Eu não quero que você vá embora...Ainda nem amanheceu.
-Nem eu quero ir, mas estou sendo obrigado.
-Você volta mais tarde?
-Volto.Quando o turno da ''sargentona'' alí acabar...-Eu apontei para a porta.
-Vou te esperar.
-Bill!Já se foram três minutos e dez segundos!-Carmen gritou, batendo na porta.
-Estou indo!-Eu falei.-Amo você, Lucy.
-Ídem.-Ela me beijou com urgência, mordiscando meus lábios.
-Lucy...-Eu disse, rouco.-Pare com isso.-Me levantei e fui andando de costas até a porta, olhando Lucy pela última vez, antes de abrir a porta e sair para o corredor.

-Você sabe quantas vezes isso aconteceu neste hospital?-Carmen disse, me pegando pelo braço e me arrastando até o elevador.
-Não.-Eu respondi.
-Muitas...-Ela entrou, apertando um botão no painel.
-Sério?
-Mas os outros costumam ser mais discretos.
-Estavamos no quarto dela, com a porta fechada.
-Sua cara nem queima, né?-Ela me olhou com estafa.-Eu não vou ficar vigiando vocês, porque não adianta.Vocês vão dar um jeito, eu sei!Então, pra que isso não se repita, é bom você saber que as enfermeiras não visitam os quartos dos pacientes das onze da noite às cinco da manhã.A não ser que nos chamem, é claro.
-Obrigado, Carmen.-Eu a abracei.
-Mas mantenham a discrição, tá?E se descobrirem que te contei isso, vou perder meu emprego.
-Não vou contar a ninguém.Só à Lucy, claro.
-Você gosta mesmo dela, né?
-Muito.
-Eu vi no dia em que ela acordou.Você já a conhecia?
-De certa forma, não.Carmen.
-Hum...-Ela respondeu, olhando para o espelho.
-Quando uma pessoa entra em coma, ela pode sonhar?
-Em alguns casos, sim.Mas acho que é meio raro.Muitos paciente já relataram que não viram nada, outros dizem que saíram do corpo e blá, blá, blá.Mas sonhar, talvez seja possível.Por quê?
-Não é nada.Só me lembrei de um sonho que eu tive, quando estava em coma.
-Foi ruim?
-Não.Pelo contrário.Foi incrível!
-Chegamos ao seu andar.Bom dia, Bill Kaulitz.E lembre-se de ser discreto.
-Pode deixar.

Eu saí do elevador e entrei no meu quarto.Fechei a porta e me sentei no chão.Eu conseguia me lembrar de várias partes do meu sonho.Me lembrei do dia anterior, quando Lucy me perguntou se eu tinha sonhado durante o coma.O que será que ela tinha sonhado?Como pude me esquecer de tudo aquilo?Meu sonho foi real demais.Eu a beijava e a amava como fiz na noite passada.Era tão real que parecia ter acontecido de verdade.Então foi isso, me apaixonei por ela durante o sonho.Por isso senti vontade de conhecê-la, por isso tive vontade de beijá-la.Ouvi um ronco alto, vindo da cama ao meu lado.
-Tom?-Me levantei, acendendo a luz.Tom estava vestido com uma calça jeans enorme, uma blusa de lã preta e uma faixa preta em sua testa.Não se dera ao trabalho nem de tirar seus tênis azuis.-Tom!
-Hum?-Ele resmungou, virando para o outro lado.
-Onde você estava?-Me sentei ao lado dele e comecei a sacudi-lo.-Acorda, Tom!
-O que foi, Bill?Que merda!Deixa eu dormir!Acabei de che...Oi.-Ele abriu os olhos e me olhou com uma cara de quem aprontou.
-Onde você estava?-Perguntei, fazendo uma cara maléfica.
-Eu?
-Não.Meu outro irmão gêmeo.Claro que é você!
-E você?Onde você estava?
-Não mude o rumo da conversa!Era pra você ter ficado aqui comigo.
-Cara, sabe o que é?Eu ia ficar...Realmente.Mas aí me lembrei da festa da Juliette.
-Juliette...-Me lembrei do aniversário dela, das garotas humilhando Lucy no camarim.Até Juliette esteve no meu sonho?
-É.Cara, você não vai acreditar no que eu fiz essa noite.
-Acho que você não vai acreditar no que eu fiz essa noite.
-Hum...Estou curioso.
-Conta primeiro.
-Não, você conta primeiro.
-Não.Você é o irmão mais velho.
-Tá.Eu fui na festa dela.Ela estava no barzinho, pedindo uma bebida.Aí eu me aproximei e comecei a conversar com ela.Ela ficou surpresa por eu ter ido na festa sem nem ser convidado.Daí aquela banda...Como é mesmo o nome?
-Good Charlotte.
-É!Isso aí.Eles começaram a tocar uma música lenta, que acho que você ia gostar.Daí pensei:O que o Bill faría?
-Sério?
-Resolvi chamá-la pra dançar e ela aceitou.
-Hum...-Eu disse desconfiado.-Onde ficaram suas mãos?
-Nas costas dela.Eu não queria assustá-la.Depois saímos pra dar uma volta, então arrisquei um palpite e decidi ser meio cafona.
-Ai!O que você fez, Tom?
-Dei uma flor pra ela e disse que tinha gostado muito dela.
-E ela?
-Não acreditou, né Bill?Ela acha que eu sou o maior galinha da história, apesar de não ter falado nesses termos.
-O que foi que ela disse?
-Bom, ela agradeceu pela flor.Disse que eu era um cara legal, mas que não queria se envolver com ninguém.
-Hum...Que fora!
-Pois é.-Ele deitou de costas na cama e suspirou, fitando o teto.-Ela é maravilhosa!
-Ela é diferente mesmo, hein?Se fosse a alguns anos atrás você tinha mandado ela para aquele lugar e tinha partido pra outra.
-Eu tentei partir pra outra, mas não dá!Eu não sei o que está acontecendo?Quando eu estou perto dela eu me sinto tão bem!Me sinto diferente.Ela consegue fazer meu coração disparar...Acho que nunca senti isso na vida!
-Você está apaixonado, Tom.-Eu sorri.
-Droga!Por quê?
-Porque ela é diferente das mulheres que você conhece.
-Talvez.Ela gosta de grafitar e disse que faz isso na parede do próprio quarto.Gosta de tortas de pêssego, tem uma coleção de bonsais.Tem todos os cds do Jay-z, sabe ler tarô, não perde um episódio de ''Lost'' e ''sobrenatural''.Assitiu a todos os ''Todo mundo em pânico'', toca piano e violino.Já ganhou três campeonatos estaduais de xadrez e é faixa preta em Karatê.Gosta de motocross e já fez três cirurgias no joelho por causa disso.Ela é tão...Autêntica, tão única!
-Cara, quando foi a última vez que você soube tanto sobre uma mulher?
-Quando li aquela playboy daquela modelo....Como era o nome dela?
-Sei lá!
-Se eu não ficar com aquela gorota...Não sei o que vou fazer...
-Fique amigo dela e conquiste-a aos poucos.Mas não faça besteiras.Ganhe a confiaça dela.
-Você está certo.
-Eu sei.-Me levantei e fui caminhando para o banheiro.
-Hey, espera aí!Você tem que me contar o que fez.
-Deixa pra lá.
-De jeito nenhum.Pode ir falando.
-Sabe quando nossa mãe falou sobre a ''outra vítima''?-Eu disse, me sentei na minha cama e cruzei as pernas.
-Sei.-Tom se sentou na outra cama.
-Ela se chama Lucy e...
-Lucy?Você já a conhecia antes do acidente?
-Não.Por quê?
-Porque você falou esse nome algumas vezes, durante o coma.
-Mas...Não tinha como eu saber o nome dela.A primera vez que a vi foi no dia do acidente, ela estava no outro carro, toda machucada e insconsciente.Tem certeza que não entendeu errado?
-Não.Você disse ''Lucy'' várias vezes.

Tudo bem.Sonhar com a garota era uma coisa, afinal eu tinha visto o rosto dela no acidente, mas saber o nome dela?Era impossível!E quanto a Juliette?E Joe Nelson Swedback?Todas as coisas que eu sabia sobre Lucy, talvez nem ela se lembrasse mais.Eu me lembrei que ela mentiu para o pai, pra que ele obrigasse Jack a se casar com ela.Eu pensei que essa história tivesse sido inventada, mas agora estava realmente muito estranho.Como é que eu ia saber os nomes de pessoas que nunca tinha visto na vida ou ouvido falar?E aquela casa, com um lago no jardim, na saída de Los Angeles?Será que existia?

-Tom, depois eu te conto sobre isso.-Eu disse, cambaleando para o banheiro.
-Não, Bill.Eu contei minha parte, agora é sua vez!
-Eu estou meio tonto.Preciso tomar um banho.Por favor.-Tom não conseguia entender que a minha história era mais complicada do que a dele.

Me tranquei no banheiro, tirei minhas roupas e entrei no chuveiro.Por mais que eu tentasse, não conseguia entender o que era aquilo tudo?Será que eram lembranças?Não podiam ser...Nós não tocamos no aniversário de Juliette, nem viajamos pra Veneza e eu nunca conheci nenhum cara com um nome tão esquisito como ''Joe Nelson Sweedback''.E quanto a saber o nome de Lucy e do marido dela?Será que previ tudo isso?Talvez eu não tenha ficado com sequelas físicas e sim psíquicas.Será que depois daquele acidente, todos os meus sonhos se realizariam?Era interessante, apesar de muito improvável.Eu não acreditava nessas coisas, mas era a única explicação que eu conseguia ter.Apesar de que existiam falhas nos fatos.No meu sonho, Jack tinha desaparecido, na vida real ele não sobreviveu.Talvez algumas coisas eram verdade, outras só imaginação.

Desliguei o chuveiro, me exuguei e fui para o quarto.Tom estava dormindo de novo.Vesti minhas roupas e saí.Desci para o primeiro andar e caminhei até a portaria do hospital.
-Olá, gostaría de falar com Dr.Morten.-Eu disse para a secretária sonolenta, que estava escorando a cabeça no balcão.
-Ele está em casa.-Ela respondeu, sem muito entusiasmo.
-Você sabe que horas ele chega aqui?
-Oito da manhã.
-Eu sou paciente dele e preciso conversar com ele.
-Você é Bill Kaulitz?-Ela sorriu, de repente.
-Sim.
-Vou ligar pra ele agora!
-Não precisa.Eu posso esperar.Tem como você me avisar, quando ele chegar?
-Claro.
-Obrigado.

Entrei no elevador e voltei para o meu quarto.Continuei tentando entender o que estava acontecendo, mas não encontrava as respostas.Mas eu tinha a sensação de que tudo estava bem na minha cara e eu estava sendo burro demais por não perceber.Precisava conversar com o Dr.Morten.Só tería que tomar cuidado com o que ia dizer, pra ele não achar que eu estava louco.


Capítulo 22-De tempos em tempos acontecem os eclipses.



Acordei com um toque estridente em algum lugar.Meus olhos estavam ardendo de sono.Me levantei da cama e caminhei até a mesinha.
-Alô.-Eu atendi o telefone, meio sonolento.
-Bill Kaulitz?-Uma voz feminina e gentil, disse do outro lado da linha.
-Sim.
-Dr.Morten já chegou e está te aguardando na sala dele.É no terceiro andar, sala 301.
-Obrigado.

Fui ao banheiro, lavei meu rosto e saí do quarto.Caminhei pelos corredores, quase me perdi, até achar uma porta com o número 301.
-Olá, Bill!-Dr. Morten disse sorridente, quando abri a porta e entrei.Ele estava sentado em sua mesa, analisando um monte de papéis espalhados por ela.-Sente-se.
-Bom dia, Dr.Morten.-Eu disse me sentando na cadeira, à sua frente.
-Algum problema?
-Bem, eu estava pensando...Você tem certeza que não desenvolvi nenhum problema, como o de Lucy, por exemplo?
-Certeza, não.Mas não vi nada nos seus exames.Se quiser nos podemos fazer outros.Aconteceu alguma coisa com você?
-Eu tive um sonho estranho durante o coma.
-Isso é normal.
-Eu sonhei com a Lucy, sem nem ao menos conhecê-la.
-Você não me contou isso antes.
-Eu tinha me esquecido e me lembrei ontem.
-Hum...Tem certeza que nunca a viu em nenhum lugar antes do acidente?
-Eu a vi no acidente.Poucos minutos antes de ''apagar''.
-Então foi por isso.Você deve ter achado ela bonita e criou uma fantasia em torno dela.
-Mas é que ela é tão parecida com a garota que conheci no meu sonho e o Tom disse que...
-Sua mente criou tudo isso, Bill.-Ele sorriu, com uma cara de sábio.-Já ouviu a expressão ''Sonhos são desejos da alma''?
-Mas...Parecia tão real.Não sabia que minha imaginação era tão fértil.
-Todos nós temos uma mente brilhante, Bill.Mas cada um desenvolve de uma maneira.Talvez você tenha o dom de inventar histórias.
-Mas é que...
-Desculpa, Bill.Eu podería dizer que o que aconteceu foi como aquela lenda, mas eu não posso.Você sabe que isso não existe.
-Que lenda?
-Nunca ouviu?Algumas pessoas dizem que quando se sonha com uma pessoa e o sonho é tão intenso que parece até ser real, é porque a sua alma encontrou a dela.
-Que...Bonito!
-É bonito, sim.Mas é muito fantasioso.Seria mais romântico dizer que foi isso, não é?
-É.
-Mas, você já é adulto, Bill.E sabe que contos de fadas não existem.Foi só um desejo do seu inconsciente.
-É que eu gosto tanto dela e...Acabei de conhecê-la.Não faz sentido.
-O amor é uma coisa estranha.O próprio ''amar'' não faz sentido algum.
-Você está certo.
-De qualquer modo, se ainda quiser fazer os exames.
-Não.Tudo bem.Foi infantilidade minha.
-Bem, acho que vou te dar alta amanhã.O que acha?
-Mesmo?-Eu o olhei, meio decepcionado.
-Viu só?-Ele disse, rindo.-Você é a primeira pessoa da sua idade que não fica feliz em sair do hospital.
-É que me acostumei a ficar aqui.
-Mas você não precisa mais ficar aqui.
-Eu...Não quero ficar longe dela.
-Faz sentido.
-Não faz sentido.-Eu sorri.-Obrigado, Dr.Morten.Foi bom conversar com você.
-Por nada, Bill.Se precisar, estarei aqui.
-Obrigado.

Saí da sala dele e voltei a caminhar pelos corredores desertos.Talvez eu estivesse sendo exagerado.Ele estava certo, foi só minha imaginação.Ainda assim não conseguia entender como soube o nome dela, mas talvez tivesse sido mera coincidência.Eu não queria desperdiçar aquele sonho, então resolvi realizá-lo.Lucy estava alí, bem perto de mim.Já estavamos juntos, o que me impedia de fazer todas aquelas coisas?Então eu tería que me lembrar de cada coisa, pra tentar fazer o mais parecido possível.

Peguei meu celular e liguei para o Tom.
-Fala, Bill.-Ele disse, exageradamente feliz.
-Você anda sumindo com muita frequência, ultimamente.-Eu disse, com ironia, entrando no meu quarto.
-Você estava dormindo.Queria que eu te acordasse pra avisar que ia sair?
-Não.Onde você está?
-Estou chegando no hospital.
-Então dê meia volta, ache uma locadora aqui perto e alugue um filme pra mim.
-Filme?Que filme?Pra que isso?
-Depois eu te explico.Chama-se ''Doce Novembro''.
-Hum...Já vi que não vou querer assistir.
-Mas não é pra assistirmos.
-Então é pra quê?
-Vou assistir com a Lucy.
-É impressão minha ou eu estou sobrando?
-E a Juliette?
-Eu estava com ela agora a pouco.
-Mesmo?E aí?
-Nada por enquanto.
-Tom Kaulitz no zero a zero?Nunca achei que isso fosse acontecer!
-Engraçadinho.Só porque você já está pegando ''a outra vítima''.
-Pra você ver como sou mais rápido que você.
-Acho que trocamos de personalidade essa semana.
-Também acho.
-Quero a minha de volta!-Ele alterou a voz.
-Esqueça!Traga o filme logo, ok?

Tom demorou quase uma hora pra achar o filme, mas chegou com o dvd e mais um balde de pipocas na mão.Estas últimas ele se recusou a me entregar, dizendo que tinha comprado pra ele.Depois do almoço e da minha última sessão de fisioterapia, a qual eu não precisava mais, já que tinha recuperado todos os movimentos da minha perna,desci para o terceiro andar e fui para o quarto de Lucy.Ela correu e me abraçou, quando me viu entrar.
-Oi, Lucy.-Eu disse, correspondendo ao abraço.
-Senti sua falta.-Ela disse, com aquele sorriso timido, que eu amava, no rosto.
-Também senti a sua.-Eu a beijei, sentindo meu sangue borbulhar.Por um momento tinha esquecido da noite passada.Me lembrar do que aconteceu, me fez ficar ainda mais nervoso.-Vim pra ficar o resto da tarde com você.Posso?
-Claro.O que vamos fazer?
-Tenho uma lista enorme de coisas pra fazer num hospital...-Eu ri.-Mas acho que é melhor só assistirmos ao filme que eu trouxe.
-Ótima idéia!Como se chama?-Ela pulou na cama,enquanto eu colocava o disco no dvd.
-Doce novembro.
-Ah, é um filme lindo!-Ela sorriu.
-Ah...Você já viu?
-Já.Mas não tem problema.Faz muito tempo e eu adoro assistir à esse tipo de filme umas cinquenta vezes.
-Se quiser, posso pedir para o Tom alugar outro.-Me deitei ao lado dela e peguei o controle remoto.
-Não precisa.O Tom ia querer te matar!
-Você é vidente?-Eu ri, puxando ela pra que deitasse a cabeça sobre meu peito.-Ele ia me atirar pela janela assim que eu pedisse.

Depois de quase duas horas o filme acabara e Lucy chorou até o final dos créditos.Era um filme bonito.Eu percebi que não me lembrava de algumas coisas, como a história daquele filme, os personagens.Eu só sabia o nome.Mas uma coisa minha imaginação acertou em cheio.Lucy era, na vida real, exatamente como era no meu sonho.Eu a imaginei com tanta perfeição, que isso até me dava uma certa razão em pensar que foi surreal e até meio mágico.Sería bom se na vida tudo pudesse ser possível, como nos sonhos.

-E agora?O que você quer ver?-Lucy perguntou, pegando o controle remoto da minha mão.
-Tanto faz.O que você quiser.
-Que horas são?Já deve estar passando Camaleões.-Ela disse mudando de canal.
-O quê?
-É uma novela mexicana.
-Você entende espanhol?-Eu disse, percebendo que a novela não era dublada.
-Falo.Não tinha nada pra fazer naquela cidade.Aprendi a falar espanhol, francês e alemão.
-Você fala alemão?
-É.Aprendi pra entender o que vocês falavam nas entrevistas e pra conseguir cantar as músicas.
-Você é mesmo minha fã número um!-Eu beijei o rosto dela.
-Eu não acredito!-Ela disse olhando para a tv.
-O quê?
-Essa idiota, não fez isso!-Ela apontou para uma das personagens da novela.-Ela é uma burra!
-Lucy.-Eu disse, sério.
-Hum?
-Olha pra mim.-Virei para o lado, fechei os olhos e comecei a roncar, fingindo estar dormindo.
-Ah!Sem graça!-Ela se sentou, olhando pra mim e levantando uma sombrancelha.
-O que foi que eu fiz?
-Essa novela é interessante, viu?-Ela pôs as mãos na cintura, se esforçando pra não rir.
-Não é não.
-É sim.
-Não.-Eu a puxei, a deitei contra o travesseiro e me deitei por cima dela.Segurei suas mãos contra o travesseiro e a beijei.
-Bill.-Lucy disse rouca, arfando, enquanto eu beijava o pescoço dela.-Isso não é justo!
-A novela ainda é interessante?-Eu olhei pra ela e sorri, mordendo o lábio.
-Que novela?-Ela disse, desligando a tv e me puxando pra beijá-la de novo.
-Acho que é melhor pararmos.-Eu disse me deitando de costas, na cama.
-Não acho.-Ela se deitou sobre mim, me beijando de novo.
-Sério, Lucy.Carmen me disse que as enfermeiras visitam os pacientes entre às cinco da manhã e às onze da noite.
-Isso não é justo!
-Eu sei, mas é melhor evitar que vejam coisas desnecessárias.
-Tudo bem.Eu vou voltar a assistir a novela, então.
-Não.O sol está se pondo.Agente podia ir para o terraço, fumar um cigarro.
-Boa idéia.

Saímos do quarto e subimos para o terraço.A tarde estava dourada e fria.Nos sentamos em cima de uma enorme caixa d'água, onde custamos a subir.Lucy se sentou entre minhas pernas, se encostando contra meu peito e eu rodiei o corpo dela com meus braços.
-Eu amo essa hora do dia.-Ela disse, sentindo o vento tocar-lhe o rosto.
-Também gosto.Não é noite e nem é dia.-Eu disse, tragando a fumaça do cigarro que acabara de acender.
-Você percebeu que dá pra ver a lua no céu a essa hora?Claro que ela não brilha ainda, mas é como se ela tivesse a chance de ver o sol por alguns segundos antes que ele sumisse.
-É que ela só brilha à sombra dele.
-Alguém já escreveu sobre isso alguma vez?Quem foi mesmo?
-Ah, deve ter sido um cara bem inteligente.
-Ele deve se sentir muito sozinho, não é?
-Por quê você acha?
-Porque parece que a lua e o sol vivem se perseguindo e nunca se encontram.Talvez o compositor dessa música viva buscando uma coisa que talvez nunca vá encontrar.
-Mas ele nunca desiste de buscar.
-Isso é o que mais admiro nele.A persistência que ele tem de encontrar o sol, de encontrar alguém que o aqueça.
-De tempos em tempos acontecem os eclipses, sabia?
-É mesmo.Não tinha pensado nisso.
-Acho que eu encontrei o meu sol.
-Encontrou, é?-Ela sorriu, se virando pra olhar pro meu rosto.
-Encontrei uma pessoa que tem luz própria, que é inconstante e divertida.Que é meio impulsiva às vezes e tem um coração de criança, capaz de amar todo mundo.Eu me sintia tão frio e tão sozinho, Lucy.Às vezes era como estar no escuro o tempo todo.
-Eu amo você, Bill.-Ela me abraçou forte.-Amo muito.
-Eu também te amo.E já que estamos em pleno eclipse...-Eu sorri, me levantando.-Vamos aproveitar o tempo que nós temos.Dança comigo?
-Dançar?-Lucy se levantou, limpando a saia do vestido.
-É.
-Mas não tem música.
-Você tem uma voz linda.Podia cantar pra mim.
-De jeito nenhum!
-Por quê?
-Porque você canta muito bem e eu sou péssima.
-Nada disso!Eu já ouvi você cantar.Você tem uma voz perfeita.Por favor, Lucy!
-Tá bom.Que música você quer?-Ela passou os braços em volta do meu pescoço.
-A que você quiser.-A abracei, aproximando-a do meu corpo.
-Só sei músicas mais antigas, tirando as suas, é claro.
-A que você quiser, Lucy.O show é seu!-Eu comecei a balançar o corpo lentamente, como se tivesse dançando uma música lenta.

Ela me abraçou, chegando perto do meu ouvido e começou a cantar, acompanhando meus passos:

Love me tender, love me sweet
Never let me go
You have made my life complete
And I love you so

Love me tender, love true
All my dreams fulfilled
For my darling I love you
And I always will

Love me tender, love me dear
Tell me you are mine
I'll be yours through all the years
Till the end of time.

Love me tender, love true
All my dreams fulfilled
For my darling I love you
And I always will

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43 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 11:07 am

Capítulo 23-Tudo é poeira de estrelas.



-Não quero voltar para o quarto.-Lucy disse, enquanto desciamos as escadas.
-Por quê?-Eu perguntei, segurando a mão dela.
-Estou cansada de ficar neste hospital.
-Não está pensando em fugir, está?
-Hum...-Ela me olhou com uma cara de culpada, mas não arrependida.
-Não, Lucy.Nós não podemos.
-Por favor...
-Não!
-Bill.-Ela me abraçou e começou a mordiscar minha orelha.
-Droga!-Eu sussurrei, apertando o corrimão com as duas mãos.-Como vamos fazer isso?
-Não sei.
-Toda fulga tem que ter um bom plano, não concorda?
-Ah, Bill!Você que é o mais esperto de nós dois, pense em alguma coisa.Eu só sei que quero sair daqui!
-Eu sei o que fazer.

Entrei no meu quarto, abrindo a porta devagar.Por sorte Tom estava dormindo profundamente.Vasculhei os bolsos da enorme calça dele e encontrei as chaves de seu Audi.Saí do quarto e entrei no elevador.Lucy estaría me esperando no estacionamento.Meu plano era muito simples:Pegaríamos o carro do Tom e fugiríamos pra algum lugar.Mas eu não estava contando com uma coisa...Quando as portas do elevador se abriram, dei de cara com a minha mãe.
-Bill?O que está fazendo aqui, querido?-Ela perguntou.
-Eu?-Eu perguntei, tentando inventar alguma coisa logo.
-Você mesmo.
-Bem, eu...Estou indo falar com...O Dr.Morten.
-Por quê?
-Porque...Preciso falar com ele, mãe!
-Sobre o quê?Você está com algum problema?
-Não.É só...
-Eu vou com você.
-Não!Não precisa!É um assunto...Que eu não quero falar perto de você.
-Ah...Entendi!Bem, então.Vou estar no seu quarto.Tom está lá em cima, né?
-Está.
-Espera...-Ela segurou meu braço, quando saí do elevador.-O consultório do seu médico não é no terceiro andar?
-É, mas ele disse ia me esperar aqui embaixo, porque...Está resolvendo umas coisas aqui.
-Você não está aprontando não, né?
-Mãe!Eu já tenho vinte e um anos.
-Tá.Desculpa!

As portas do elevador se fecharam e eu respirei aliviado.Corri para o estacionamento e encontrei Lucy ao lado do carro do Tom.
-Como sabia que era esse carro?-Eu disse.
-Clip ''World Behind My Wall''.Sou fã da sua banda, esqueceu?-Ela me abraçou, sorrindo.
-Me esqueci.Você está linda!-Eu a olhei de cima a baixo.Lucy tinha trocado de roupa, agora usava uma camiseta branca embaixo de um casaco preto e uma calça jeans com coturnos desamarrados.
-Obrigada.Bill, se abaixe!-Ela disse, se abaixando e se escondendo atrás do carro.
-O que foi?-Me virei para a direção onde ela estava olhando.
-Bill?-Dr. Morten disse, fechando a porta de um carro verde, ao longe.-O que você está fazendo aqui?
-Vim...Desligar os faróis do carro do meu irmão.Aquele cabeça de vento sempre os deixa ligados e isso acaba com a bateria.-Eu disse, engasgando em cada palavra.-Ele só se lembrou quando entrou no chuveiro.
-Hum...-Ele disse com um ar de desconfiança.-Então podemos subir juntos.
-É.-Eu sorri.Joguei a chave do carro no chão perto de um dos pneus e fui caminhando ao lado do Dr. Morten.
-Amanhã faremos os últimos exames e você poderá ir para casa.
-Que bom!
-Já está gostando da idéia?
-Um pouco.Estou com saudades da minha casa.-Eu olhei para trás e vi Lucy entrando no Audi.
-Não se preocupe.Lucy não vai demorar a receber alta.Já está ótima!Só preciso avaliá-la por mais alguns dias.
-Ah, Dr.Morten.-Eu disse, parando no meio do caminho e apalpando os bolsos da calça.-Vou ter que voltar pra pegar o celular do Tom.
-Quer que eu te espere?
-Não precisa.-Eu dei meia volta e fui andando até o carro.-O Tom só não esquece a cabeça, porque está grudada no pescoço.

Andei apressadamente e entrei no carro.Lucy ligou a ignição e dirigiu para fora do hospital.Sorte que os vidros eram escuros, porque vários repórteres se aglomeraram, tirando fotos e gritando.Lucy pisou no acelerador e só diminuiu a velocidade quando já estávamos bem longe do hospital.
-Lucy, agora já posso dirigir.-Eu disse, quando paramos num sinal vermelho.
-Não.-Ela sorriu, acelerando o carro quando o sinal abriu.
-Você não tem abilitação!
-E daí?Eu sei dirigir.
-Isso é perigoso!
-Uau!Estou dirigindo o carro de Tom Kaulitz!
-Lucy, por favor pare o carro!
-Relaxa, Bill!
-Onde estamos indo?
-Já disse pra relaxar.-Ela passou uma das mãos no meu rosto.-Confia em mim!
-Ai!Já me arrependi.-Apertei o cinto e liguei o som do carro.
-Só tem hip-hop nesse carro?-Lucy perguntou.
-Acho que sim.-Peguei a caixa de cds do Tom e comecei a revirá-los à procura de algum que prestasse.-Tem 'The Smiths'!
-Sério?Eu adoro!

Troquei o cd e começamos a cantar as músicas que estavam tocando.Lucy abriu a janela do carro.O vento batia nos cabelos dela e trazia aquele perfume maravilhoso pra mim.Lucy sorria e cantava cada vez mais alto.Eu não me lembrava da última vez que me sentira tão feliz.Era como se só por aquela noite o mundo inteiro fosse nosso.As estrelas do céu, o vento frio entrando pela janela do carro, a voz de Lucy, a melodia das músicas...Tudo isso me deu a sensação de que o mundo era perfeito, que nada de ruim existia.Senti que aqueles minutos podiam ser eternos, que a vida podia ser eterna..Aquela noite, tive a ilusão de que a morte não existia.

Lucy entrou numa trilha que não me era estranha e quando ela parou o carro e eu abri a porta, senti um cheiro fresco de planta molhada.Estavamos na casa do Joe, na casa do meu sonho.Tudo era perfeitamente igual, a árvore perto do lago, o balanço, as flores do jardim.Talvez eu tivesse visto a foto desta casa em algum lugar na internet ou em alguma revista.Estava tentando não criar mais fantasias em torno do meu sonho.
-Que lugar lindo!É sua casa?-Eu perguntei.
-Agora é.-Lucy respondeu, suspirando e saindo do carro.Ela caminhou até o lago e se encostou na árvore.
-Por quê ficou triste de repente?-Eu a abracei por trás e fiquei olhando aquele lago que brilhava à luz da lua.
-Saudades.
-Você morou aqui quando era criança?
-Não.Eu só vinha passar as férias.A última vez que vim, tinha dez anos.
-Quem morava aqui?-Eu já sabia daquela história.Não podia ignorar as coincidências, mas não podia me deixar levar por minhas fantasias.
-Meu avô.Sinto tanta falta dele.-A voz dela ficou rouca.Ela estava chorando.
-O que aconteceu com ele?-Eu fiquei estranhamente triste.
-Morreu no ano passado.O coração dele não aguentou a ausência da minha avó.
-Como ele era?
-O melhor avô do mundo!Ele fazia tudo o que podia pra me ver feliz.Eu queria ter ficado com ele por mais tempo, mas não pude.Meu pai não deixava.
-Eu sinto muito, Lucy.
-Ele deve estar com a minha avó, agora.-Ela olhou para o céu.-Em algum lugar desse céu.
-Será que as pessoas se encontram depois da morte?
-Não sei.Mas espero que sim.Sería muita crueldade de Deus se ele não nos desse essa oportunidade.
-Sería.
-Eu era a única neta dele, então ele deixou essa casa pra mim, juntamente com uma carta, dizendo que era pra eu viver um grande amor nessa casa, como ele viveu.
-Você vai viver, Lucy.Prometo a você.-Eu dei um beijo no rosto dela.-Trouxe a chave da casa?
-Não.Ficou no meu quarto.
-É uma casa linda!-Eu disse, olhando em volta.
-Bill.
-Oi.
-Mora aqui comigo?
-O quê?-Eu sorri.
-Mora aqui comigo.Vou morar aqui depois que receber alta.Queria muito que você viesse.
-Não acha que é meio precipitado?
-Não.A vida é tão rápida.Não quero perder meu tempo ficando longe de você.
-E se isso estragar tudo, Lucy?E se...
-Shh!-Ela tocou meus lábios com os dedos.-Não seja pessimista.Eu só quero poder te esperar.
-Vou pensar, tá?
-Promete?

Eu sorri e a beijei.Caminhamos de volta para o carro e eu consegui tomar as chaves dela.Dirigi pela cidade, sem direção, apenas aproveitando a noite, cantando The Smiths e olhando para a minha Lucy, que dançava descontraída.Quando percebi, notei que estava perto de um parque de diversões e me lembrei de outra parte do meu sonho.Estacionei numa parte mais deserta da rua e saí do carro.

-Meu Deus!-Lucy disse, saindo do carro e batendo a porta.-É o parque de diversões do tio Willian.
-Tio?-Eu perguntei.
-É.O pai da Helena.Mas já está fechado.Que pena.
-São onze da noite, Lucy.-Eu disse, olhando no relógio.-Hoje em dia os parques fecham cedo.
-Agente podia voltar amanhã, né?
-Você sabe como fazer os brinquedos funcionarem?
-Sei.Por quê?
-Vem.-Eu corri e subi na grade, pulando do outro lado.Lucy me olhou perplexa, como se não pudesse acreditar no que eu estava vendo.Mas depois ela riu e pulou a grade também.-Em qual brinquedo quer ir primeiro?
-Na roda gigante.Já volto.-Lucy sumiu na escuridão do parque e eu me sentei em uma das gaiolas da roda gigante.Aquele brinquedo era diferente do meu sonho.Se parecia mesmo com uma gaiola.Era toda fechada e caberiam mais duas pessoas naquele espaço.A parte de baixo era toda revestida, não dava pra ver o que estava abaixo dos nossos pés.De repente algumas luzes se ascenderam e Lucy veio correndo, se sentar ao meu lado e trancar a gaiola.
-Será que não corre o risco de alguém chamar a polícia?
-Não.Meu tio mora aqui e eu conversei com ele.Ele está bêbado e disse que não tinha problemas.-Ela sorriu e me abraçou, enquanto subiamos cada vez mais alto.-O mundo visto de cima é tão lindo!
-Parece uma continuação do céu.
-É.-Ela me olhou e sorriu.Seus olhos estavam cheios de lágrimas.-Eu amo você.
-Muito?
-Infinitamente.-Ela me beijou.Depois se deitou no chão da gaiola e me puxou pela gola da blusa.
-O que está fazendo?-Eu disse, me deitando ao lado dela.
-Eu adoro ficar em lugares altos.Me sinto mais perto do céu.
-Porque somos tão apaixonados pelo céu?
-Talvez sejamos anjos caídos.-Ela sorriu.
-Ou simplesmente gostamos do impossível.
-É.O homem pode inventar aviões, naves...O que quiser, mas nunca vai conseguir tocar o céu.
-Depende da sua definição de ''tocar o seu''.
-Bill,-Ela me olhou confusa.-O céu é infinito, não dá pra tocar.
-''Você é o mais perto do céu, que posso chegar.''
-''Cidade dos anjos''.Você não existe.-Ela me deu um beijo no rosto e começou a cantarolar frases de uma música, enquanto olhava pro céu.-Love me, love me...Say you do.Let me fly away with you...We're creatures of the wind...*-Ela me olhou e sorriu.
-Porque você parou?Adoro te ouvir cantar.Podemos gravar uma música juntos, o que acha?
-Não.
-Por quê?
-Eu...Tenho vergonha, Bill.
-Você canta muito bem, Lucy.Devia montar uma banda.
-Eu tinha uma no Texas.
-Sério?
-Na verdade era uma dupla.Eu e a Helena.Isso foi antes de ela vir embora.Tocavamos só para a família.Por isso sei um monte de músicas antigas:Beatles, Elvis Presley, Bee Gees, Johnny Cash...A lista é enorme!
-Porque vocês não voltam a tocar?
-Helena é muito ocupada, agora.Se casou, teve um filho e ainda trabalha no hospital.
-São escolhas, né?
-É.-Ela voltou a olhar pro céu.

Eu me virei e passei o braço sobre o corpo dela.Comecei a beijar seu pescoço.Lucy encolheu os ombros e riu.Ela se virou, passou uma perna sobre a minha cintura e me beijou.Nossos beijos sempre começavam ternos e inocentes, mas se tornavam urgentes e sedentos.Abri o zíper de sua calça jeans e desci até que ela pudesse tirá-las sozinha, a virei de costas e me deitei sobre ela.Suas mãos percorreram minha barriga, fazendo minha pele ficar arrepiada.Ela abriu o zíper da minha calça e a desceu até minhas coxas.Seus dedos me acariciaram intimamente, me fazendo gemer.Tomei os lábios dela denovo e a penetrei.Senti sua pele úmida e quente me envolvendo.Ela acariciava meus cabelos e gemia baixinho a cada investida minha.Suas mãos percorrendo os ossos da minha espinha, depois ela levantou minha blusa e começou a dar leves arranhões nas minhas costas.Então senti o prazer aumentar cada vez mais, me fazendo aumentar o ritmo.Senti nossos corpos estremecerem e logo depois o prazer se tornou intenso demais, quase insuportável, me fazendo suar frio.Recuperei o fôlego, parando de me movimentar lentamente.Lucy me beijou e sorriu.Me deitei ao lado dela e fechei o zíper da minha calça.Ela vestiu a calça dela e deitou a cabeça sobre meu braço.

-Por quê agente sempre faz isso em lugares tão incomuns?-Ela riu, me apertando nos seus braços.
-Não sei, acho que nós somos um casal meio incomun.-Eu sorri ainda ofegante, beijando a testa dela.-Sabe que até hoje nunca consegui ver nenhuma constelação?-Eu disse, tentando ver a constelação que Lucy havia me mostrado no meu sonho.
-Está vendo aquelas três estrelas enfileiradas?-Ela apontou para o céu.-São as três marias.São também o cinto do caçador.Consegue vê-lo?
-Consigo.Às vezes fico pensando, quem será que inventou tudo isso?
-Isso o quê?
-O mundo, o universo...
-Todo mundo acha que foi Deus.
-E você?-Eu me virei pra olhar pra ela.-O que você acha?
-Acho que não foi inventado por ninguém.São só consequências de explosões.Porque tudo o que é bonito, exigiu muito sofrimento pra ser feito.Muitas estrelas tiveram que explodir e morrer, para construir outras mais bonitas.Tudo o que existe, tudo a nossa volta...Todos nós somos coincidências e não ''filhos de Deus'', como dizem.
-Uau!-Eu sorri e beijei a testa dela.-Isso foi...Perfeito!
-É só o que eu acho.-Ela me olhou e sorriu.-E você?O que acha?
-Acho que isso tudo foi criado por um escritor louco, pra deixar o cenário das nossas vidas mais bonito.
-Acha que somos personagens de uma história?
-Talvez...-Eu ri.-Estou brincando.Na verdade não penso muito nessas coisas.Mas gostei da sua idéia.Faz sentido.
-Acho que sim.-Ela voltou a olhar para o céu.
-Lucy.
-Hum...
-Se tudo o que é bonito exigiu sofrimento pra ser feito, acha que com agente também foi assim?
-Como assim?
-Tivemos que sofrer um acidente, pra nos encontrar.
-Tudo é poeira de estrelas, Bill.Resultados de explosões.Quem sabe...-Ela sorriu e me beijou.

*Nota da autora: Essa música se chama ''Wild is the wind-Cat Power'' (As frase significam:Me ame, me ame/Como você disse que faría/Me leve pra voar com você/Nós somos criaturas do vento...)

Capítulo 24-Te levaría até o fim do mundo se você pedisse.


''Na noite passada eu sonhei
Que alguém me amava
Nenhuma esperança, nenhum dano
Apenas outro alarme falso

Na noite passada eu senti
Braços reais me abraçando
Nenhuma esperança, nenhum dano
Apenas outro alarme falso

Então, me diga quanto tempo faz
Antes da última pessoa?
E me diga quanto tempo faz
Antes da pessoa certa?

A história é velha - eu sei
Mas continua...''


Era uma bela música do 'The Smiths'.Eu tinha sonhado que alguém me amava.Ás vezes tenho a impressão de que naquela noite, enquanto dirigia o carro do Tom, vendo Lucy dormir no outro banco, segurando os dedos da mão dela e acariciando sua pele quente, eu ainda estava sonhando.
Parei em frente a Venice Beach, que estava completamente deserta.O dia estava ficando claro.Tínhamos dormido na roda gigante a maior parte da noite.
-Lucy, quer dar uma volta na praia?-Eu disse, acariciando o rosto dela.
-Não.-Ela murmurou, sem abrir os olhos.
-Já está amanhecendo.-Eu beijei os lábios dela, suavemente.
-Já?-Ela abriu os olhos e olhou em volta.-Não devíamos ter ficado tanto tempo no parque.Você deve estar morrendo de sono e está dirigindo.
-Não se preocupe.Dormi o bastante na roda gigante.
-Vamos voltar para o hospital.Quero dormir.-Ela bocejou, abrindo os braços e espreguiçando.
-É mesmo?-Eu ri.Saí do carro, abri a porta do lado em que ela estava e a peguei no colo.
-O que está fazendo?-Ela disse, enquanto eu empurrava a porta com o pé.
-Acordando você.-Eu tentava me equilibrar, pisando na areia fina.As ondas começaram a bater nos meus pés.
-Bill, me solta!Eu não quero nadar!Está frio!

Me lembrei de uma parte do meu sonho:A noite do jantar no lago, em que ela queria nadar de qualquer jeito.Caí na água, levando Lucy comigo.As ondas estavam fortes, em arrastando para o fundo do mar.Nadei para a superfície.Lucy emergiu, logo a minha frente e começou a me dar tapas nos braços.
-Seu louco!-Ela ria, toda molhada.-Qual é o seu problema?Eu estou morrendo de frio!
-Você acordou, não é?-Eu a abracei.
-Estou com fome.
-Conhece algum restaurante ou algo assim?Os que eu conheço não nos deixaria entrar.Estamos ensopados!
-Culpa sua!-Ela saiu andando pela areia, rindo e se desiquilibrando com as ondas fortes.Eu a segui.-Conheço um lugar, onde servem panquecas deliciosas.Mas vai ter que me deixar dirigir.
-Ham...-Eu passei um braço em volta do ombro dela, enquanto andavamos de volta para o carro.-E se eu disser ''não''?
-Você vai mesmo fazer isso?-Ela me olhou com um sorriso malicioso.-Vou ter muitas oportunidades de te dizer ''não''.
-Pode fazer a chantagem que quiser.-Eu disse com um ar superior.
-Posso mesmo?-Lucy me encostou contra o carro e começou a me beijar, de um jeito persuasivo.Quando ela me beijava daquele jeito, eu não conseguia evitar os calafrios e arrepios que tomavam conta do meu corpo.
-Lucy...-Eu disse, enquanto ela mordiscava minha orelha.
-Hum?
-Pode ficar com as chaves.
-Eu sabia.-Ela riu e me abraçou.

Ela dirigia o carro com tanta tranquilidade, que fazia parecer que era uma coisa fácil e sem tantas regras.Passamos pelo lugar do acidente.Lucy parecia nem ter percebido.Ela parou em frente uma lanchonete, à beira da estrada.A lanchonete onde nos conhecemos, no meu sonho.
-Você...Já esteve aqui antes?-Eu a olhei, surpreso.
-Nunca.Mas me disseram que é um lugar legal.-Ela saiu do carro.Não sei porque, mas a resposta dela me deixou decepcionado.

Entramos na lanchonete, que não estava muito cheia.O ambiente era assustadoramente familiar, outra erro no meu sonho.Era tudo muito bem decorado e havia umas dez pessoas sentadas nas mesas.
-Posso ajudá-los?-Uma garota de mais ou menos quinze anos, veio nos atender.-Oh, meu Deus!-Ela levou a mão a boca.
-O que foi?-Eu disse, olhando para minhas roupas.-Não se preocupe.Estavamos nadando.
-Vo-você é...
-Bill, acho que é uma...-Lucy disse, apertando minha mão.
-Fã.Ham...Louise.-Eu disse, lendo o nome no crachá dela.-Quero te pedir uma coisa, tudo bem?
-Tu-tudo.-Ela balançou a cabeça afirmativamente.
-Podería fingir que eu, não sou eu?
-Ham?
-Podería, por favor, fingir que não sou Bill Kaulitz?-Eu abaixei o tom de voz.
-Não...Consigo!
-Eu prometo que volto aqui outro dia, com a banda inteira, pra tirarmos uma foto.Certo?
-Certo.Vou fazer o possível.-Ela sorriu, ainda com cara de boba.
-Então...Queremos nos sentar.
-Me acompanhem.-Louise nos levou até a mesa do canto, perto da janela.-Eu achei que você...Eu sou muito fã da sua banda e...Fui eu que vi o acidente e chamei a polícia.Eu não acreditei que você estava tão perto e...
-Obrigado, Louise.Acho que se tivessemos ficado lá por mais tempo...
-Tivessemos?É a noiva!-Ela olhou para Lucy.-Você estava no outro carro.Me lembro de ver você na maca.Achei uma pena uma garota tão jovem e bonita...Morrer.
-Obrigada, Louise.Meu nome é Lucy.-Ela estendeu a mão para a garota.
-Prazer.Imagino que vocês estejam com fome.O que querem comer?
-Panquecas!-Lucy exclamou, sorrindo.
-Como no meu sonho.-Eu sorri, me lembrando de Lucy na cozinha, com um avental cheio de babados.
-O que você disse?-Lucy olhou para mim.
-Nada.Também quero panquecas.

Louise anotou o pedido e saiu andando.Quando ela entrou na cozinha, jurei ter ouvido um grito, algo como:'Caraca!'.Olhei pela janela, à minha direita.Exatamente como no meu sonho.
-O que foi?-Lucy perguntou, pegando minha mão por cima da mesa.
-Nada.Só estou meio...Assustado.
-Se lembrou do acidente?
-É.Quando passamos por lá, senti um calafrio subir pela minha coluna.
-Não fique preocupado, Bill.Não vai acontecer de novo.
-Como pode ter certeza?
-Não tenho, mas é melhor pensar positivo, não acha?

Comemos as panquecas e saímos dali, jurando à Louise que voltaríamos.Dirigi de volta para o hospital.Passar pelo local do acidente não foi algo bom pra mim, senti o volante tremer.Na verdade acho que eu estava tremendo, o carro parecia uma arma perigosa.Respirei fundo e continuei a dirigir.Chegamos ao hospital.Havia tanta gente nos dois primeiros andares, que ninguém nos percebeu.Subimos para o terceiro andar.Abri a porta do meu quarto devagar.Minha mãe estava andando de um lado para o outro, arrumando minhas malas.
-O que você está fazendo?-Eu perguntei, puxando Lucy pela mão.
-Onde diabos você estava?-Minha mãe perguntou furiosa, pousando as mãos na cintura.
-Eu saí.-Respondi, com uma voz de ''criança arrependida''.
-Isso eu percebi.Mas pra onde você foi?
-Fui em um monte de lugares, mãe.
-Seu irresponsável!Ainda tem a coragem de dizer ''Tenho vinte e um anos, mãe!''.
-A culpa foi minha, sra.Trümper.-Lucy disse.
-Oi.-Minha mãe sorriu, de repente, olhando para Lucy.-Você é a namorada do Bill?Você é linda!
-Estamos trancados aqui à um mês!Precisavamos respirar um pouco.-Eu abracei Lucy, passando a mão pelos seus cabelos.
-Você está certo.Mas não deixa de ser uma atitude idiota!E se tivesse acontecido alguma coisa?
-Não aconteceu nada.
-Tudo bem.Vamos embora, então?
-Eu já recebi alta?-Perguntei.
-Já.
-Vou levar Lucy até o quarto dela.
-Helena está preocupada com você.-Minha mãe se dirigiu a Lucy.
-Me esqueci da Helena.
-Não quero parecer uma mãe coruja, mas com esse garoto do seu lado.Lógico que você não ia se lembrar.
-Não ia mesmo.-Lucy riu, envergonhada.
-Prazer em conhecê-la, querida.-Minha mãe disse, abraçando-a.
-Igualmente, sra.Trümper.
-Pode me chamar de Simone.
-Está certo, Simone.

Saímos do meu quarto e pegamos o elevador.Meu coração doía por estar saindo dalí.Eu odiava aquele hospital, mas deixar Lucy alí sozinha parecia algo tão cruel.Pareciamos estar na mesma casa, enquanto estávamos internados alí.E agora, eu estava indo embora.
-Isso é estranho, não é?-Lucy me abraçou.-Parece que você não vai voltar mais.
-Eu vou voltar.Prometi a você que não a deixaría sozinha um só segundo.
-Eu sei disso, mas não consigo me convencer.
-Lucy, eu amo você.Te levei para sair essa noite e, acredite, te levaría até o fim do mundo se você pedisse.Se sou capaz de fazer qualquer coisa por você, por quê eu não voltaría?
-Porque talvez...-Ela me olhou, séria.-Tudo isso é bom demais pra ser verdade.Não faz sentido, Bill.
-Acha que está sonhando?-Eu ri.
-Às vezes, tenho essa impressão.

Capítulo 25-Não com outra pessoa.



Os dez dias seguintes foram de intenso trabalho e reabilitação.Tive que viajar à vários lugares, dar várias intrevistas, ir à alguns programas e até fazer alguns shows.Ou seja, não cumpri minha promessa à Lucy.Consegui ligar algumas vezes, pra pedir desculpas prometendo visitá-la no dia seguinte.Depois do terceiro dia, ela já nem quis me atender.Claro que arrumou algumas desculpas, um dia estava tomando banho, outro estava fazendo alguns exames.Por quinze dias não a vi.Numa tarde de domingo, Helena me ligou dizendo que Lucy recebera alta.Era uma chance de me redimir.

Peguei o carro do Tom, porque não tivera tempo de comprar outro carro pra mim.Ainda sentia falta do meu audi, mas como ficara um mês sem trabalhar, estava sem condições de substituí-lo.Entrei no hospital, subi o elevador e fui direto ao quarto de Lucy.Tinha medo de que ela já tivesse ido embora.Ficaría mais difícil pra mim.Quando abri a porta do quarto dela, me deparei com uma cena, que fez meu sangue subir todo para a cabeça.Lucy estava sentada na cama, toda sorridente.Um cara estava sentado à sua frente.Eles discutiam, muito alegremente, sobre estratégias do jogo de xadrez que estavam jogando.
-Olá, Bill!-Lucy disse, com um grande sorriso no rosto.Droga!Preferia que ela tivesse me xingado e perguntado porque sumi, porque não cumpri minha promessa.-Estava com saudades.-Ela se levantou e veio me abraçar.-Bill, este é Matthew Burton.Um amigo que conheci esta semana.
-Prazer em conhecê-lo.-Eu praticamente cuspi a frase.Infelizmente, o sujeito era dezenas de vezes mais bonito do que eu, tinha os olhos verdes, uma maldita covinha no queixo, cabelos loiros e lisos até o ombro, um ar sedutor.Parecia um galã de Hollywood.Era nojento!
-Matt..-Lucy disse.Que droga de ''Matt'' é essa?Ela já está chamando ele por apelido!Que porra de intimidade é essa?-Este é Bill Kaulitz, meu namorado.
-Prazer.-Matthew abriu um sorriso gentil, estendendo a mão para mim.Eu apertei a mão dele, desejando que ele fosse embora, logo.
-Vamos, Lucy?-Eu disse, rispidamente.
-Claro.Só vou ao banheiro.-Ela entrou no banheiro e fechou a porta.
-Então você é...Vocalista de uma banda de rock?-Ele perguntou, se levantando e se encostando contra a parede.Tinha um jeito marrento, era o tipo de cara que gostava de bancar o ''machão''.
-Sou.-Respondi, me sentando na cama.
-Minha irmã é sua fã.
-Que bom.Dê lembranças a ela.
-Eu e ela discutimos muito, sabe?
-É?
-Temos um certo dilema, entre nós dois.Ela jura por tudo o que é mais sagrado, que você é homem.Já eu...Acho que você não é mais do que uma mulherzinha tentando ser lésbica.-Ele pôs a mão no queixo e olhou para o teto.-Ou será que é um homem, tentando ser gay?
-Interessante dilema, não?Pena que seu nível intelectual é muito baixo, sería injusto discutir essa questão com você.
-Não consigo acreditar que Lucy é bissexual.
-Ela não é.
-Então ela é virgem.
-Isso não te interessa!-Eu disse entre dentes.
-Só assim pra ela não sentir falta de um...
-Cale a boca!-Eu me levantei e agarrei o colarinho da camisa dele.-Não admito que vulgarize Lucy dessa maneira.
-Uau!Agora tem certeza de que você é uma mulherzinha tentando ser lésbica.
-Não tenho que te provar nada.Ache o que quiser achar...
-O que você está fazendo, Bill?-Lucy saiu do banheiro.Sua voz era pura indignação.
-Eu não sei o que deu nele, Lucy!-Matt disse com uma voz tão adocicada, que chegou a me dar náuseas.
-Não sabe?-Eu o bati contra a parede.
-Bill!-Lucy entrou no meio de nós dois, me empurrando para trás.-Quer parar com isso?
-Ele é um idiota, Lucy.Estava te desrespeitando!
-É mentira, Lucy.Ele...Me atacou, do nada, e disse que era pra eu ficar longe de você.Não quero atrapalhar o namoro de ninguém, então...
-Deixa de ser cínico!Seu imbecil!-Eu esbravejei, tentando me soltar do abraço de Lucy.
-É melhor você ir embora, Matt.Depois eu ligo pra você.-Lucy disse.
-Tudo bem.Sinto muito.Eu não sei o que esse cara tem...Devia consultar um psiquiatra, Bill.-Matt disse, com voz inocente.
-Seu filho da puta!-Eu gritei, enquanto via Matt sair pela porta.-Mentiroso!Cínico!
-Bill, pare com isso!
-Ele falou um monte de merda, sobre...
-Já chega!Matt é um cara muito legal.Eu achei que vocês iam se dar bem...Vocês são tão parecidos.
-Parecidos?Em quê?
-Matt é educado, fofo, brincalhão, divertido.As idéias dele, são tão parecidas com as suas.
-Você está enganada.Ninguém é igual a ninguém.

Lucy ficou em silêncio.Estava assustada, e com toda a razão.Ela nunca tinha me visto daquele jeito.Talvez pensasse que eu nunca perdia a cabeça.Respirei fundo, peguei a mala dela e saí rumo ao elevador.Ficamos em silêncio durante um bom tempo.
-Não sabia que você era tão egocêntrico.-Lucy disse, quando eu já estava dirigindo pela cidade.
-Não sou perfeito.-Eu respondi, com frieza.-Já devia saber.
-Pois é.Como fui infantil em pensar que era.
-Não me surpreende.
-Está dizendo que sou infantil?-Ela se virou e me encarou com raiva.
-Não.Apenas que você acha que todo mundo é bom e maravilhoso.Acorda, Lucy!-Eu alterei a voz.-Ninguém é perfeito.
-Por quê está gritando comigo?
-O que foi, Lucy?Quebrei sua fantasia de ''príncipe encantado''?
-Não.-Ela começou a chorar.-Apenas me provou que eu estava errada a seu respeito.
-O que você queria?Que eu escutasse tudo calado?Sou humano, Lucy.
-O que aconteceu com a minha casa?-Lucy disse, quando parei em frente a casa dela.Eu havia mandado construir um muro ao redor da propriedade, pra ela ficar mais segura e privativa.
-Eu achei que sería mais seguro pra você.
-Quem te deu autoridade pra fazer isso?-Ela saiu do carro enfurecida.
-Você vai morar aqui sozinha!Precisa de segurança.-Eu saí do carro.
-Você quer me prender aqui dentro.Eu odeio me sentir presa, você sabe disso.
-Pare de fazer drama.Seja um pouco mais racional, pelo menos uma vez na vida.
-Eu não ficaría sozinha se você não fosse tão covarde a ponto de não querer morar comigo!
-Chame o 'Matt' pra morar com você!Ele tem músculos suficientes pra te deixar segura, não é?
-Você está com ciúmes?
-Que merda!É claro que eu estou!A ficha caiu?
-Quem é o infantil, agora?
-Como você se sentiria se entrasse no meu quarto e me visse todo 'felizinho' conversando com uma mulher.
-Matt é meu amigo, Bill.Só isso!Você sumiu por quinze dias.Eu me sentia sozinha.
-Então toda vez que você ficar sozinha, vai fazer amizade com qualquer um que aparecer?
-Não seja possessivo!Não sou exclusividade sua, tenho que ter amigos.
-''Matt'' não é só seu amigo!
-O que está insinuando?Você acha que estou te traindo?
-Sinceramente?Acho!
-Eu nunca sería capaz disso, você sabe!
-Não.Eu não sei!Quem vai me garantir que ele não...Dormiu com você naquela cama de hospital?
-Você está sendo repugnante!Droga, Bill!Você sabe que eu só tive você...Eu não te contei, mas eu sei que você sentiu que eu era virgem.
-É.Naquele dia tinha como ter certeza que eu era o único, mas agora já não tem.
-Cretino!-Ela deu um tapa na minha cara e se afastou.Meu rosto ardia, mas a dor pior não era a física.Ela me olhou espantada, chorando com a mão na boca.Nem ela acreditava que tinha feito aquilo e nem eu acreditava que tinha falado aquilo.
-Me desculpa.-Eu disse fracamente.Minha garganta doía, mas eu não podia chorar.Não alí, na frente dela.
-Tudo estava indo tão bem, Bill!Que droga!Por quê você tem que estragar tudo?-Ela continuou furiosa.-Eu sonhei com você durante o coma inteiro, e...
-Você...O quê?-Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
-Sou apaixonada por você desde o acidente.E não trocaría tudo o que aconteceu no sonho, mesmo que tenha sido só um sonho, por realidade nenhuma...Não com outra pessoa.
-Lucy...-O nó na minha garganta estava insuportável.-Co-como foi esse sonho?
-Não importa.O que importa é que esse sonho durou um mês.Você sabe o que é um mês?
-Sei!
-Não seja irônico.
-Não estou sendo...Eu realmente sei.
-Não.Você não sabe!-Ela alterou a voz.
-Venha aqui.-Eu abri o portão de entrada e a puxei pelo braço.

Capítulo 26-Foi dedicado a você.



Lucy olhou em volta e começou a chorar silenciosamente ao avistar o lago.A tarde já estava deixando tudo muito escuro, mas ele estava iluminado.Eu tinha reconstruído todo o cenário do jantar, como foi no meu sonho.O barco, as velas...Tudo estava idêntico.

-Você sonhou com isso?-Ela me olhou.
-Com tudo.-Eu afirmei rouco, ainda tentando não chorar.-O cinema, o parque, a lanchonete, essa casa...Cada minuto em que estive em coma, cada pensamento que eu tive...Foi dedicado a você.
-Eu não posso acreditar.
-Ainda acha que estraguei tudo?-As lágrimas já tomavam conta do meu rosto.-Todos os erros que cometi, foi tentando acertar.Eu sinto muito, Lucy!Queria muito ser perfeito pra você, mas eu não consigo por mais que eu tente.
-Mais perfeito do que isso?-Ela se aproximou e me olhou nos olhos.-Nós tivemos o mesmo sonho, Bill.É inacreditável!
-É.Por quê isso aconteceu?
-Eu...Não sei.Ainda não sei.
-Eu te amo tanto, que...-Eu a apertei nos meus braços.-Perco o controle.Me desculpa por tudo o que eu disse.
-Eu que tenho que te pedir desculpas.Eu te dei um tapa.-Ela acariciou meu rosto, que ainda devia estar vermelho.
-Tudo bem, eu mereço mesmo.-Eu sorri.

Jantamos dentro do barco, como no sonho.Agora não era mais ''meu sonho'' era ''nosso sonho''.De uma maneira inexplicável, nós dois tinhamos sonhado as mesmas coisas, ao mesmo tempo.Naquela época, tentavamos pensar em algo que pudesse explicar isso tudo, era inútil...Nada explicaría.

Depois do jantar, ela me convidou para entrar na casa dela.Quando ela abriu a porta da sala, me deparei com um dejavú interminável.Cada canto, cada ladrilho do chão, era exatamente igual ao meu sonho.
-O que você acha que aconteceu?-Eu perguntei à Lucy, enquanto ela me puxava pela mão, subindo as escadas.
-Não faço idéia.-Ela sorriu, abrindo a porta do quarto dela.
-Eu nunca vim aqui, Lucy.E conheço esse lugar como a palma da minha mão.

Ela tirou os sapatos e se deitou na cama.Eu me deitei ao lado dela.Ela tocou meu rosto e me beijou.Quanto tempo fazia que eu não sentia o gosto dos lábios dela?Parecia ser um século.A apertei contra meu corpo e ela descansou uma perna sobre minha cintura.
-Talvez tenhamos nos encontrado durante o sonho.-Ela disse, sorrindo.
-Isso não me admira.Eu estava tão sem tempo, que só dormindo mesmo pra eu conhecer alguém.
-Quem sabe esse era o único jeito de agente se conhecer?
-Então será que a lenda é real?Nossas almas se encontraram?
-Acho que tá mais pra ''colidiram''.-Ela riu.
-Two souls collide...-Eu cantarolei.-And we are, We are.Coming tonight.
-''Down on you.''-Ela disse, reconhecendo a música.-A propósito, você nunca cantou pra mim.Nem em sonho.
-Não?E quando cantei Alien?
-Não era só pra mim.
-Bem, neste caso, qual música você quer que eu cante.
-Tem tantas!
-To me you'll be forever sacred...

Aquela noite, dormimos como na primeira noite do nosso sonho.Quando acordei, fiquei me perguntando se Lucy sonhara o mesmo que eu.Será que isso ainda acontecia?Ainda não acreditavamos tanto nessa coincidência.Talvez tivessemos mesmo nos conhecido num sonho, mas ele acabara.Agora eu tinha que fazer o possível para que a realidade superasse aquele sonho.Não queria brigar com Lucy.Se possível, nunca mais.Tomamos café da manhã e saímos.Deixei Lucy no centro da cidade, porque ela teimou em arrumar um emprego.Voltei para casa, pra ensaiar um pouco com o Tom.

-Cara, eu estou muito feliz!-Tom disse, eufórico, quando entrei na sala de estar do nosso apartamento.
-O que aconteceu?-Eu disse, assustado.
-Juliette!Ela...Me beijou ontem.
-Que bom, cara!Finalmente.
-Foi o beijo mais...-Ele ficou alí na minha frente, de boca aberta, tentando definir o beijo dela.
-Esquece, cara.Você nunca vai encontrar palavras.Vai por mim.
-Mas eu...Nunca beijei ninguém daquele jeito.
-Gol!!-Eu gritei.-Parabéns, Tom.Aos quarenta e dois do segundo tempo...
-Engraçadinho.Escuta aqui, ligeirinho...E Lucy, como está?
-Ótima.Mas ontem tivemos uma briga!
-Por quê?
-O novo amiguinho dela.-Contei tudo o que o ''mané'' do Matthew me falara.
-Esse cara precisa de uns socos, sabia?
-Você não sabe o quanto estou com vontade de fazer isso!O pior é que ela está...Defendendo ele.
-Acho que você devia fazer algo à respeito.
-Acho que eu sei o que vou fazer.

Eram seis da tarde.Eu tinha passado as últimas horas tão ocupado, que nem vi o dia acabar.Tom me levou até a casa de Lucy, pois não podia me emprestar o carro.Ia levar Juliette para jantar.Passamos pelos portões de entrada e Tom parou bem em frente a varanda.
-Bill, o que aconteceu?-Lucy me perguntou, saindo de dentro da casa.
-Bem, é que esqueci de pagar o aluguel e fui despejado do meu apartamento.-Eu disse sério.-Então estava pensando...Será que você não tem um espaçinho na sua casa pra mim?-Eu sorri.-Eu durmo no sofá se quiser.
-Peraí.Está falando sério?-Ela disse, feliz.
-Estou.
-Pois é.-Tom saiu do carro.-Até vou morar com a Juliette.-Tom disse, rindo, em pé com os braços debruçados sobre o teto do carro.
-Quem é Juliette?
-Minha namo...Quase namorada.
-É a garota do ani...-Lucy foi interrompida pelo meu sinal de ''Não fale sobre isso''.Tom acharía loucura, se contassemos sobre o sonho.
-E aí, Lucy?O que acha de eu ficar aqui por uns tempos?
-Por quanto tempo?
-Não sei.Que tal o resto da vida?

Ela riu e correu pra me abraçar.
-Claro que você pode ficar aqui!Eu estou surpresa.O que fez você mudar de idéia?
-Senti sua falta quando cheguei em casa.Não consigo morar lá.
-Você pode ficar.Claro.
-Bom,-Tom disse, tirando as malas do porta-malas.-Se não se importam, vou encontrar com a mulher mais linda de Los Angeles.
-Lucy?-Eu disse.
-Lucy é a segunda mais linda.-Ele respondeu, piscando um olho.-A propósito, prazer me conhecê-la.
-Prazer.-Lucy sorriu.-Traga a Juliette para nos conhecer.Daremos um jantar na sexta-feira.
-Daremos?-Perguntei.
-É...Pra conhecê-la, Bill.É sua cunhada.
-Desculpe, eu não estou acostumado a ter cunhadas a longo prazo.
-Vai pro inferno.-Tom me mostrou o dedo do meio, entrou no carro e saiu.
-Não se preocupe.Ele é educadinho assim mesmo.-Eu ironizei.
-Então, vamos entrar na sua nova casa?
-Claro.Estou louco pra conhecer meu quarto.
-Desculpa, Bill.Mas só tem o meu quarto disponível.-Ela sorriu.
-É?Quantos quartos tem nessa casa?
-Três.
-Quem mais mora aqui?
-Ninguém.Mas pra você, só o meu quarto está disponível.
-Serve.-Eu ri.A peguei no colo e subi as escadas da varanda.

Passamos o resto da noite arrumando minhas coisas.De certa forma eu já me sentia em casa.Assistimos tv até altas horas e dormimos no sofá.Naquele tempo eu cheguei a acreditar que me mudei pra lá pra proteger Lucy daquele idiota, pra impedir que ele se aproveitasse da minha ausência.Mas no fundo eu sabia que eu tinha me mudado pra ficar perto dela, pra assistirmos tv e dormirmos no sofá, pra jantar com ela todas as noites, pra vê-la acordar de manhã, pra tomar café...No fundo eu sabia que precisava ficar perto de Lucy o maior tempo que fosse possível.Seriam dias tão preciosos e num futuro nada distante, seriam momentos escassos.

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44 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 11:11 am

Capítulo 27-Ela precisa de um homem, não de um animal.



O interfone tocou, me fazendo acordar assustado.Me levantei sonolento, peguei o fone e o levei até o ouvido.
-Oi.-Eu disse.
-Lucy Macnigan, mora aqui?-Uma voz masculina disse.
-Mora.Quem gostaría?-Eu respondi rispidamente.Devia ser o Matthew.
-O pai dela.
-Por favor, entre.-Eu apertei o botão que abria o portão automaticamente.-Lucy, acorde!
-Ham?-Ela resmungou.
-Seu pai.Ele está aqui.
-O quê?-Ela se levantou, abriu a porta de entrada.O sol entrou pela porta, iluminando a casa inteira.-Pai!-Lucy correu pelo gramado do jardim e se jogou nos braços do pai dela.Era um homem baixo e grisalho, aparentava ter uns cinquenta anos.Vestia umas roupas estranhas, como as de Joe.Eles ficaram conversando por algum tempo, ambos chorando e murmurando palavras que eu não conseguia entender.Eu me mantive na varanda, à distância, só observando.Eles precisavam de um tempo pra se entender.Lucy passou os braços pela cintura do pai e os dois caminharam na minha direção.
-Pai, quero que conheça Bill Kaulitz.-Ela disse, parando à minha frente.
-Bill Kaulitz?-Ele abriu um largo sorriso e me estendeu a mão.-Prazer em conhecê-lo.
-Prazer, senhor...
-Jason Ross.Foi um milagre vocês terem sobrevivido.
-Foi mesmo.-Eu sorri.-Não quer entrar?Tomar uma um chá ou...A viagem deve ter sido longa.
-Foi bastante.
-Vocês me dão licença um instante?-Lucy correu escada acima e entrou pra dentro da casa.
-O que deu nela?-Jason perguntou.
-Não sei.Deve que ela foi pegar alguma coisa.
-Pobre Lucy.Fez tanta besteira...
-Ela achou que você estava com raiva dela, pelo que ela fez.
-Não.Eu nunca ficaría.Lucy é a pessoa mais importante no mundo, pra mim.Eu fiquei doente e não pude visitá-la.
-O que o senhor teve?
-Diabetes.Não cuido desse negócio direito, desde que Cecília...-Ele limpou a garganta.
-É a mãe de Lucy?
-É.Ela cuidava de mim.Mesmo depois de tanto tempo, ainda é difícil falar sobre isso.
-Sinto muito.
-Obrigado, filho.Então, como ela tem passado?
-Está bem.Mas o médico dela disse que ela ficou com sequelas.
-Que tipo?-Ele me olhou assustado.
-Ele disse que ela pode ter ataques epiléticos e perda de memória repentina.
-Ela já esqueceu alguma coisa?
-Por enquanto, não.Teve um ataque epilético e quase me matou de susto.Mas no resto, ela já se esqueceu de coisas banais como desligar o chuveiro, fechar a porta...
-Mas ela não pode ficar sozinha, então?
-Não é recomendável.
-Vou levá-la para San Angelo e...
-Não.Por favor, não faça isso.
-Ela não pode ficar aqui sozinha e eu não posso me mudar pra cá.
-Eu estou morando aqui com ela.
-Bom, agradeço sua gentileza, mas...
-Nós...Vamos nos casar.-Eu menti.Não podia deixar Jason levar Lucy pra longe de mim.
-Ah...Me desculpe.Eu não tinha percebido.
-É.Bem, mas quero aproveitar que o senhor está aqui e quero pedir pra que você fique com ela por alguns dias.Vou viajar por dois dias e não posso deixá-la sozinha.
-Claro, os shows da sua banda.
-É.
-Quero ficar com ela o maior tempo possível.
-Obrigado, senhor Jason.

Lucy voltou para a varanda.Seu rosto estava branco e ela parecia estar cansada.
-O que aconteceu, Lucy?-Eu perguntei preocupado.
-Não sei.Meu estômago está horrível.
-Você tomou seu remédio ontem?
-Tomei.
-Deve ser algum efeito colateral.

Entramos para dentro de casa e tomamos café.Conversamos por horas bem divertidas.Jason nos contou as travessuras que Lucy fazia, quando era criança.Ele ficou meio chateado ao saber que ela não se lembrava de metade das coisas que ele dissera.

-Bill, fui convidada para uma festa.-Lucy disse, enquanto tomavamos banho.
-Mesmo?Que bom.Onde é?-Eu disse, esfregando as costas dela.
-Na casa de uma amiga minha.
-Você tem amigas aqui?
-Conheci no hospital.Se chama Amy.
-Quer que eu vá com você?
-Quero.-Ela sorriu.-Amy tem câncer e esta é sua última semana de vida.
-Nossa.Isso é triste.Quantos anos ela tem?
-Vinte e dois.É como uma festa de despedida.-Ela se virou.-Você tem que conhecê-la!Ela tem uma alegria tão radiante, sabe?Parece que nem sabe que vai morrer.
-Talvez ela esteja tentando aproveitar ao máximo o resto da vida.
-É.Se essa fosse minha última semana, eu faria tanta coisa!Não ia chorar, em momento algum!-Ela tocou meu rosto.-Gostaría de morrer olhando pra você.
-E eu, gostaría de morrer beijando você.-Eu a beijei, apertando o corpo dela contra o meu.A água caía sobre nós dois.
-Se lembra do nosso sonho?Aqui nesse banheiro?-Ela perguntou, me abraçando.Só saímos dalí meia hora depois.

Às nove da noite, estacionei o carro do pai de Lucy (ele fizera a boa ação de me emprestar.) em frente à uma casa enorme e linda.Era branca e devia ter uns dois andares.O jardim na frente era lindo, cheio de flores, chafarizes e luzes morteiras.
-Uau!Que casa linda!-Eu disse, fechando a porta do carro.
-O pai de Amy já foi prefeito da cidade umas duas vezes e agora tem uma loja de automóveis.Todo o dinheiro que ele tem, não pode salvar a vida da filha.
-Então o dinheiro dele não serve pra nada.

Lucy tocou o interfone e em instantes, os portões de ferro se abriram.Caminhamos até a porta de entrada.Uma garota com um cabelo liso e roxo, nos esperava, segurando-se na porta de madeira.
-Olá, Lucy!-Ela disse, abraçando Lucy.-Você deve ser o Bill.Tudo bem?-Ela me abraçou.
-Tudo.Prazer em conhecê-la.-Eu respondi.
-Prazer.Meu nome é Amy.Sejam bem vindos à minha festa.

Ela saiu caminhando para dentro da casa.Seu vestido longo e azul, arrastava no chão.Pelo visto a garota tinha muitos amigos.A sala de estar estava lotada, assim como a cozinha, a copa e vários outros cômodos da casa.Mas as pessoas não estavam felizes.Não estavam dançando, nem ligavam para a música que tocava.Elas riam com as piadas de Amy, mas eram sorrisos falsos.Na verdade, ninguém alí estava achando graça de nada.As pessoas chegavam a se acotovelar pra ficarem perto da garota, tentando extrair dela o máximo de presença possível.Eles sabiam que acabaría.Vendo aquela cena tão triste, eu comecei a refletir.Talvez todos nós devessemos fazer isso com todo mundo.Todos alí sabiam que era a última vez que veriam a garota de cabelo roxo, mas e quanto as outras pessoas?Amy pelo menos sabia quando ia morrer, o que não acontece com todo mundo.Nós nunca sabemos quando morreremos.Eu abracei Lucy, que se agarrou aos meus braços.Eu percebi que ela enxugava as lágrimas e limpava no vestido.Lucy era tão sincera, que não conseguiria esconder sua tristeza como os outros estavam fazendo.

-Isso é tão triste!-Lucy sussurrou, escondendo o rosto no meu casaco.
-Eu sei.-Eu afaguei os cabelos dela.-Mas não pode deixar ela ver que você está triste, meu amor.
-Eu não consigo.
-Não quer que ela passe os últimos dias de vida, chorando, né?-Eu levantei o queixo dela e a beijei.
-Não.-Ela limpou as lágrimas, respirou fundo e me puxou para dentro da sala.
-Pessoal, esses são Lucy Macnigan e Bill Kaulitz.-Amy disse, sorrindo radiante.

Várias pessoas vieram nos cumprimentar.Elas pareciam não saber quem eu era, ou talvez não quisessem estragar a festa.A verdadeira estrela daquela noite, era Amy.Conversamos com muitas pessoas a noite inteira.Amy era uma pessoa agradável, engraçada e contagiante.Era uma pena que estivesse morrendo.
Lucy foi para a cozinha para pegar algumas bebidas e eu saí pela porta dos fundos.Havia uma piscina enorme, no quintal.Me sentei em uma das cadeiras que estavam ao redor da piscina e ascendi um cigarro.
-Olha só, se não é Bill Kaulitz.-Alguém disse, de um jeito tão irônico, que não precisei me virar pra saber que era.
-Você saiu do hospital?Que pena.-Eu disse, tragando meu cigarro e fingindo indiferença.
-Lucy me visitou ontem.-Matthew disse, se sentando na outra cadeira.
-Ela é livre pra fazer o que quiser.
-E ela fez mesmo.
-O que está insinuando, mauricinho?
-Nada.Sabe do que ela precisa?De um homem de verdade.
-Concordo.E também acho que você não se enquadra nessa categoria.
-Quer ter certeza?
-Olha aqui.-Eu me levantei.-Eu não sei qual é sua definição de ''homem'', mas devo te dizer que Lucy precisa de um cara maduro, responsável, que ame ela de verdade, que cuide dela.Ela precisa de um homem, não de um animal.
-Acorda, Bill!Você está sendo um idiota.Toda mulher gosta de homens selvagens.
-Lucy é uma excessão.
-O quê?-Ele gargalhou.-Mas ela adora quando eu a pego e...
-Chega!-Eu me aproximei dele.Ele se levantou e me encarou.
-Sabe qual é o problema dela?-Ele deu um sorrisinho sarcástico.-Ela geme demais.
-Seu cretino!-Eu o empurrei com tanta força, que ele caiu na piscina.
-Seu idiota!A água está gelada e tem cloro aqui...
-Qual é o problema?Não é você que é o ''machão''?

Voltei para dentro da casa.Eu e Lucy dançamos a noite toda e, como eu bebi além da conta, acabamos dormindo em um dos inúmeros quartos da casa de Amy.


Capítulo 28-Eu a amo tanto...Que nem cabe em mim.



-Bill.-Ouvi a voz de Lucy, sussurrada no meu ouvido.
-Ham?-Eu murmurei.
-Onde estamos?
-Na casa da Amy.-Eu abri os olhos e me virei para ficar de frente para Lucy.Ela estava com uma expressão estranha e confusa.
-Como chegamos aqui?
-Não se lembra da festa?
-Não.
-De nada que aconteceu na festa?
-Nada.
-Você deve ter bebido.-Eu menti, mas eu sabia que era a falta do remédio.-Você bebeu o remédio ontem?
-Não sei.Acho que não.
-Vamos embora?Já são dez horas.-Olhei no meu relógio de pulso.-Seu pai está sozinho.
-Não.Olha só o tamanho dessa cama!-Lucy virou de costas.-E o tamanho do quarto, então.
-É lindo!-Eu me deitei por cima de Lucy.-Um dia, quem sabe, nós teremos uma casa desse tamanho.
-Não precisa disso.Morar com você já é o suficiente.-Ela sorriu.
-Acho que já ficamos tempo demais aqui, não?
-Esse colchão é tão macio.-Seu sorriso se transformou de sonhador, pra malicioso.
-E...
-Quero fazer amor, aqui.-Ela disse no meu ouvido.

Eu ri e a beijei.Lucy rodiou minha cintura com as pernas e as apertou, me fazendo comprimir o corpo contra o dela.Começamos a nos beijar com urgência.Tínhamos uma sede que não cessava nunca.Lucy praticamente arrancou minha blusa.
-Estava com saudades do seu corpo.-Ela sussurrou, fazendo o caminho da minha coluna com a ponta dos dedos.-Quanto tempo faz?
-Algumas horas...-Eu respondi ofegante, beijando o pescoço dela.
-Não.Faz mais de quinze dias, Bill.-Ela deslizou as mãos pela minha barriga e abriu o zíper da minha calça.
-Tudo bem.-Eu concordei.Ela tinha se esquecido do dia anterior.

Deslizei minhas mãos por dentro da calcinha dela e toquei sua pele úmida.Ela pôs a mão sobre a minha, me ajudando a acariciá-la.
-Ah.-Lucy gemeu, movendo os quadris.
''Sabe qual é o problema dela?''
-Bill...-Ela sussurrava com prazer.-Ah!
''Ela geme demais''
-Ah...

Me deitei de costas na cama.Será que ele estava mesmo blefando?Será que ele também tinha tocado ela como eu estou tocando?Tentei tirar isso da minha mente e recomecei a beijá-la, fechei os olhos, várias imagens nojentas viam em minha mente.Eu não queria, mas aquelas imagens me deixavam com nojo dela.Minha excitação tinha ido embora.Ela se deitou sobre meu peito e começou a me beijar.Mas não adiantava.Eu não conseguia parar de imaginá-la com aquele sujeito.
-Tenho que ir.-Eu disse, me levantando da cama.
-O quê?Pra onde você vai?-Ela disse, se sentando na cama e me puxando pela mão.
-Tenho que...Estou atrasado pra uma entrevista.É isso.
-Fica mais um pouco...
-Não posso.Te busco mais tarde, acho que Amy não vai se importar.-Vesti minha blusa.Precisava respirar um pouco.

Saí daquela casa o mais rápido que podia.Precisava falar com alguém.Fui para a casa, que agora era do Tom.
-E aí, Bill?A que devo a honra?-Tom disse, ao abrir a porta do apartamento.
-Preciso falar com você.-Eu disse, ansioso.
-O que aconteceu?
-Droga, você vai me zoar para o resto da vida!-Eu me sentei no sofá.-Mas você é a única pessoa que pode me entender.
-Claro que não vou te zoar.O que foi?Você não conseguiu transar com a Lucy?-Ele riu.Eu o olhei sério.-Oh!-Ele levou a mão a boca, tentando não rir.-Peraí.Não foi isso não, né?
-A culpa é daquele filho da mãe!
-Matthew?
-É.Ele ficou me dizendo umas coisas idiotas, que estão martelando na minha cabeça e aí...Eu perdi a vontade.
-Cara, isso é muito...-Ele não conseguiu segurar o riso e caiu na gargalhada.
-Tom!É sério!E agora?E se toda vez que estivermos quase lá, eu começar a imaginar essas coisas?
-Desculpa, Bill, mas é engraçado.
-Não é, não!Eu estou falando sério, Tom.Eu amo ela, mas estou com nojo.
-O que ele te falou?

Contei tudo ao Tom.
-Mas que filho da...-Tom socou o ar.
-Pois é.E...Eu acredito nela, Tom.Eu sei que ela não me traiu, mas...Eu fico imaginando os dois...É incontrolável!E se ele tiver feito tudo o que eu faço?
-Tudo bem.Isso nunca aconteceu comigo, mas...
-Mas você não amava a Juliette.Espere só alguém insinuar que está dormindo com ela.
-Eu não vou nem ouvir.Do jeito que eu estou, ultimamente...Não vou me importar, mesmo.
-Vocês ainda não...
-Não, cara.E eu já estou ficando louco!
-Tudo bem, prometo que te ajudo se você me ajudar.
-Acho que ainda tenho um daqueles comprimidos que quase me mataram...
-Não!-Eu horrorizei.-Eu não quero aquilo!
-Estou brincando.Mano,-Ele se sentou do meu lado.-Você confia nela e sabe que ela não te traiu.E, honestamente, eu também acredito que não.Conheço uma mulher sacana quando vejo uma.E Lucy não é desse tipo.
-Eu sei disso.Mas tem uma parte de mim que não concorda.
-Tem mesmo, né?-Tom voltou a gargalhar.
-Tom!-Eu o repreendi.-Eu não quis dizer ''aquela parte''.Quis dizer ''uma parte da minha mente''.
-Tá, desculpa.Só estava descontraindo.-Ele limpou a garganta.-Voltando ao assunto, fale com ela.
-Não!Ela não acredita em mim, Tom.
-Então vai ter que fazê-la acreditar.
-Mas como?
-Eu tenho um plano!

Estacionei o carro em frente à casa de Amy.Toquei o interfone.
-Quem é?-Amy, disse do outro lado da linha.
-Bill Kaulitz.
-Oi!Entre.

Os portões se abriram.Fui caminhando pelo jardim, sendo seguido por Tom.Amy nos recebeu sorridente e pareceu gostar muito da presença de Tom.Ela nos levou até a piscina, onde poucas pessoas tocavam músicas antigas, sentados em roda como se estivessem em um lual.
-Quem é o mauricinho?-Tom disse, baixo.
-Aquele alí...-Eu apontei para ele.-Ao lado da Lucy.
-Bill.-Lucy me viu e veio ao meu encontro.Parou na minha frente e me encarou séria.-O que deu em você hoje de manhã?
-Sabe, Lucy...-Tom disse, sorrindo.-É que o Bill estava com uns probleminhas técnicos.
-Cale a boca, Tom.-Eu respondi entre dentes.-Eu...Não sei, Lucy.
-Você não me ama mais?
-Claro que eu amo.
-Então por quê não me quis?
-Vou me sentar com a galera.-Tom disse, saindo de fininho.
-Eu...É complicado.
-Você não me deseja, não é?-Ela pôs uma mão na testa e fechou os olhos.
-O que foi?-Eu a segurei.
-Bebi demais.
-Não pode fazer isso.Seus remédios são tão fortes!Quantas doses você tomou?
-Umas...Cin...-Ela levou a mão à boca e correu até o banheiro.

Tom estava conversando descontraídamente com o Matthew.Ele sabia ser falso.Fui atrás de Lucy, que já estava vomitando quase o estômago inteiro.Pelo menos ela não ia estar tonta na hora da verdade.
-Bill.-Tom chamou, me puxando pelo braço.-É agora.
-Tá.

Deixei Lucy no banheiro, molhando o rosto e lavando a boca e fui para a sala de estar.Matthew estava sentado no sofá.Tom levaría Lucy até um lugar onde ela pudesse nos ouvir.
-Preciso falar sério com você.Sem brincadeiras ou ironias, certo?-Eu disse, friamente.
-Tudo bem, ''roqueirinho''.-Ele se levantou e se pôs à minha frente.
-Você acha que Lucy é uma garota normal?
-Ela me pareceu bem normal...E gostosa.
-Deixaría tudo por ela?Até onde você iría por ela?Você teria paciência pra conviver com os problemas dela?Quanto tempo da sua vida, você dedicaría a ela?
-Do que você está falando?
-Lucy não é como as outras.Ela sofreu um acidente e perdeu parte da memória.Às vezes é estressante e frustrante saber que ela esqueceu da noite de ontem ou de alguma coisa que eu disse a ela.E eu sei que com o tempo, ela vai se esquecer de tudo...Inclusive de mim.
-Se ela é um fardo pra você, por quê não a deixa?
-Porque a amo.
-Eu também a amo.
-Não, Matt.Pra mim não é só um desejo ou um capricho.Eu preciso dela.Eu a amo tanto...-Eu já estava morrendo de raiva.-Que nem cabe em mim...Você não entende como é isso!
-Como você é bobo!Mulheres só servem pra serem usadas, Bill.Aprenda isso.
-Engano seu.Não vou deixar que você faça isso com a Lucy.Pelo amor de Deus, Matt.Deixe Lucy em paz.Me deixe cuidar dela.É só isso que eu quero.Não a engane, por favor!
-Não estou mentindo pra ela, Bill.Tudo bem, inventei muitas coisas, mas...Eu gosto dela.E eu vou ficar com ela.
-Não vai.-Lucy disse, rouca.Olhei para trás, ela estava chorando.Esteve escondida, ouvindo a conversa o tempo todo.Tom estava atrás dela.O plano dera certo.
-Lucy?Você...-Matt gaguejou.
-O Bill estava certo.Você estava enchendo a cabeça dele de mentiras.E estava fingindo ser quem não é, o tempo todo!
-Eu...Me desculpe, Lucy.É que você merece coisa melhor.Olha só pra ele...Nem parece...
-Cale a boca!-Ela caminhou furiosa até ele.-Pense duas vezes antes de insultá-lo!
-Ele é uma...
-Chega!-Lucy deu um soco no nariz de Matt.O sangue voou longe.
-Você é louca?-Matt disse, tocando o nariz.-Sua...Idiota!
-Você não vai me usar, seu imbecil!
-Quer saber, Lucy?Me enganei a seu respeito.Vocês se merecem!Fique com ela pra você, 'gayzinho'.-Ele saiu furioso, enxugando o nariz.
-Belo soco.-Eu sorri.Lucy me encarou séria.
-É por isso que...Estou tomando aqueles remédios?
-É.-Eu disse, amargurado.
-Eu já...Esqueci alguma coisa?-Ela perguntou.
-Já.
-O quê?
-Antes eram coisas banais.Mas hoje, você esqueceu de ontem à noite.
-O que aconteceu ontem à noite.
-Nós fizemos amor em baixo do chuveiro, no banheiro da nossa casa.
-Nossa?Você...-Ela levou a mão à boca.-Você está morando comigo.
-Estou.E pelo visto você esqueceu isso também.
-Me desculpe, Bill.-Ela correu e me abraçou.-Eu sinto muito.
-Ei.A culpa não é sua.Pensei que o Dr.Morten tinha te contado.
-Não contou.-Ela me abraçou mais forte.-Eu não quero me esquecer de você!
-Por isso tem que tomar os remédios.
-Eu não estou bem, vamos pra casa?
-Vamos.

Eu a peguei no colo e a levei até o carro do pai dela.Tom ficou na casa de Amy.Tinha feito amizade com todo mundo da festa.Dirigi de volta pra casa.Lucy dormia no banco ao meu lado.Agora sim eu tinha certeza de que não tinha acontecido nada entre eles.Lucy nunca tinha quebrado um nariz, daquele jeito...E foi por minha causa.


Capítulo 29-...Se inventasse um monte de obstáculos, você desistiria dela.



Eu passei o resto da semana viajando com a banda e só pude voltar à Los Angeles na sexta de manhã.À noite daquele mesmo dia, nunca vai sair da minha memória.Nunca vai deixar de ser a mais importante da minha vida.Daquele dia em diante, nada sería como antes.

Estava dirigindo tranquilamente pelas ruas da cidade, à procura de um supermercado.Lucy ficara em casa com o pai, preparando o jantar, no qual conheceriamos Juliette.Levei uma lista enorme de coisas.Comprei ingredientes que eu nem sabia que existiam:Massa para Ravióli, molho branco, vinagrete, folhas de louro, canela em pó, etc...Nosso jantar sería o mais vegetariano possível.

Ás sete da noite, tudo já estava pronto.O interfone tocou e Lucy correu para atendê-lo.Caminhamos até a varanda.Tom entrou dirigindo o seu carro e o estacionou de frente para o lago.Depois veio caminhando de mãos dadas com uma garota pouco mais baixa que ele.
-Olá.-Lucy disse, abraçando Juliette, quando eles chegaram à varanda.-Sou Lucy.
-Prazer, Juliette.-Juliette disse, sorrindo.Era uma garota bonita e idêntica a do meu sonho.-Você é linda!
-Obrigada.-Lucy sorriu tímida.

Feitas as apresentações, nos sentamos à mesa.O jantar foi bem divertido e descontraído.Jason foi a atração da noite, nos contando histórias engraçadas de sua juventude.
-Uma vez, eu estava saindo com uma mulher, que era mais alta do que eu...-Jason disse, bebendo um copo de cerveja.
-Como era o nome da mulher?-Tom perguntou.
-Tanya...Não, Vânia.Era algo assim...Eu estava tão bêbado que nem ouvi direito.-Jason riu.
-E o que aconteceu?-Juliette perguntou.
-Ela me perguntou se eu podia levá-la até Las Vegas.Na época eu tinha um chevette, que bebia mais gasolina do que eu.
-O senhor bebia gasolina?-Tom se desmanchou em gargalhadas.
-Garoto, eu vivia pra lá de Bagdá.Você acha que eu sabia a diferença entre gasolina e pinga?Sem contar que naquela época a gasolina era tão pura, que nem fazia mal ao estômago.Esperemente beber um pouco hoje em dia!

Todos nós começamos a rir.Lucy se levantou da mesa, deu alguns passos até a geladeira e caiu.Jason se levantou rapidamente, segurando o corpo inconsciente da filha.
-Lucy!-Eu gritei, correndo até ela.-O que aconteceu?
-Acho que ela desmaiou.-Jason disse, aflito.
-O que vamos fazer?-Tom falou, se levantando.-Agente leva ela para o hospital ou chama uma ambulância?
-Liga para o Dr.Morten.-Eu disse, entregando meu celular para o Tom.-Ele é o neurologista dela.
-Vamos levá-la lá pra cima.-Jason disse, subindo as escadas com Lucy em seus braços.Ele a deitou em nossa cama e eu me deitei ao lado dela.Estava preocupado, com medo de que ela não acordasse mais.Minutos depois, Dr.Morten entrou no quarto.
-O que aconteceu com ela?-Ele perguntou.Estava pálido e com uma expressão preocupada.
-Eu não sei...-Eu respondi.-Ela se levantou da cadeira e desmaiou.
-Bill...-Lucy disse, sua voz quase inaldível.
-Ela está acordando.Pode nos dar licença, Bill?Quero examiná-la.
-Tá.-Eu olhei para Lucy com pesar em deixá-la alí, sozinha.-Eu...Vou.

Saí do quarto e desci as escadas.Tom, Juliette e Jason, estavam sentados no sofá, em silêncio.Pouco tempo depois, Dr.Morten desceu as escadas.
-E aí?Como ela está?-Jason perguntou se levantando.
-Ela vai ficar bem?-Juliette perguntou.
-O que ela tem?-Tom perguntou.
-Bill,-Dr.Morten disse sério.-Preciso falar, à sós, com você.-Senti meu coração parar por alguns instantes.O tom de voz que ele usou, não me deixou feliz.
-Vamos.

Eu caminhei até a varanda, seguido por Dr.Morten.Desci as escadas e andamos em silêncio, até à árvore, perto do lago.Sentia um nó na minha garganta.Estava preocupado demais, pensando no pior.
-E então?O que ela tem?É grave?-Eu perguntei, tentando esconder a aflição.
-Não.-Ele respondeu sombrio.
-Então, o que é?
-Ainda não tenho certeza.Coletei uma amostra do sangue dela para fazer o exame.
-Sangue?
-Eu acho que ela...-Ele suspirou.-Ela está grávida, Bill.
-O quê?-Eu me sentei na gangorra.-Grávida?
-É.
-Grávida.-Eu disse, tentando absorver o significado da palavra.

Olhei para o lago.Até hoje, não sei explicar o que senti naquele momento.Sem querer, imaginei uma criança loira, com o olhar de Lucy, o sorriso de Lucy, as covinhas nas bochechas, a pele alva...A imaginei correndo e fazendo arte, sendo uma pestinha como Lucy foi.O que será que ela herdaria de mim?E se fosse um menino?Isso me fez sorrir.
-Eu vou ser pai.-Eu disse, sorrindo ainda mais.Senti uma alegria gigantesca, crescendo cada vez mais.Eu ia ter um filho...Com Lucy!-Isso é...Ótimo!
-Parabéns, Bill.-Dr.Morten deu um sorriso amarelo.Eu percebi que ele estava se esforçando para parecer convincente.
-Você não parece ter gostado disso, né?-Eu disse, sendo compreensivel.
-Uma fantasia só é boa, quando tem chance de acontecer.Quando essa chance se torna nula, o sentimento é terrível!
-Você a ama tanto quanto eu, não é?
-Eu não quero que me julgue, Bill.Eu não pude controlar.
-Não vou julgá-lo.Eu percebi que você sente algo por ela, quando você chegou procupado.Você se preocupa mais com ela, do que com os outros pacientes.
-Me dediquei à medicina a minha vida inteira.Nunca soube direito porque eu amava fazer aquele curso desgastante, os plantões, a correria...Perdi a minha vida inteira, pra viver num hospital, salvando a vida dos outros, enquanto a minha ficava em terceiro plano...-Ele sorriu, sem graça.Seus olhos estavam marejados.-Sempre me perguntei porque eu passava por aquilo tudo ou porque não abandonava aquela profissão.Mas, quando vi aquela menina, deitada numa maca, o vestido dela estava ensanguentado.Ela parecia estar morta e aquilo me entristeceu tanto...Eu juro que não fiz por mal, Bill.Ela era tão nova e tão frágil...Tudo fez sentindo e eu entendi porque tinha escolhido aquela profissão.Fiz de tudo pra salvá-la e a visitei todos os dias durante o coma.Checava os batimentos cardíacos, ficava ao lado dela, segurando a sua mão e desejando que acordasse.
-Por quê escondeu por tanto tempo?
-Achei que conseguiria esquecer.-Ele me olhou amargurado.-Quando eu soube que ela acordou, meu coração se encheu de esperança.Mas eu já devia saber que ela não amaria um homem mais velho.Quando vi você com ela, eu te invejei tanto...Me desculpe, eu me arrependo muito pelo que eu fiz, mas eu tentei te afastar dela.
-Como?
-Numa noite, eu estava andando pelo corredor e abri a porta do quarto de Lucy.Vocês dois estavam...
-Você viu agente...-Eu perguntei, enojado.
-Não!Vocês estavam dormindo.Então mandei Carmen vigiar vocês.Claro que ela não fez isso, ela tem mais o que fazer.E também, aquelas coisas que eu disse pra você, sobre a doença de Lucy.Não é tão grave assim.Ela não vai te dar trabalho, Bill.
-Você mentiu sobre aquilo?
-Eu queria assustar você.Você é jovem, então eu pensei que, se inventasse um monte de obstáculos, você desistiria dela.
-Eu nunca desistiria dela.Nada nesse mundo vai me fazer desistir de Lucy.
-Eu sei.Eu tentei esquecê-la, mas...É impossível!Então, vou me afastar dela.Sería anti-ético continuar sendo o médico dela.Daqui vinte dias eu vou mandar o resultado do exame pelo correio.
-Você disse alguma coisa, sobre a gravidez, pra ela?
-Não.Achei melhor você dar a notícia.Eu não conseguiría.
-Eu sinto muito, Dr.Morten.
-Eu também sinto muito, mas do que você.Desejo toda felicidade do mundo à vocês dois.De coração.

À luz da fraca lâmpada ao lado da árvore, o rosto do Dr.Morten nem aparentava seus cinquenta anos.Ele tinha um ar cansado, mas ainda era um cara bonito.Lucy podería ter se apaixonado por ele.Talvez ele cuidaría dela, melhor do que eu cuidava.Será que ela tería sido mais feliz ao lado dele?Era estranho ver aquela cena.Dois homens, amando a mesma mulher, frente a frente.Eu não conseguia ter raiva dele, nem ciúme.Tinha pena dele, por não poder tocar Lucy como eu tocava, não poder ver o brilho no olhar dela, não poder amá-la todas as noites, não ter nada de Lucy além de respeito e amizade.Dr.Morten, por outro lado, estava alí, me invejando, desejando estar no meu lugar, amargurado por não poder ter o que eu tinha.
-Vai lá.Conte a ela.-Ele disse, olhando para a janela do quarto dela.Os olhos dele brilhavam.
-Obrigado, Dr.Por me contar a verdade.
-Obrigado, Bill.Por não ter me julgado.Eu só...A amo tanto, que...
-Que nem cabe em você?
-É.Às vezes parece que vou explodir.E insuportável viver sem saber qual é o gosto dos lábios dela ou se a textura da pele...
-Eu sei como é torturante não tê-la por perto.
-Adeus, Bill.
-Espero que você encontre alguém pra você.Uma mulher tão boa quanto Lucy.

Nos abraçamos, desejando felicidades um ao outro.Ele virou as costas e saiu andando em direção ao seu carro.A amargura dele, fez meu coração pesar.Eu não me sentia vitorioso por ter o amor de Lucy.Eu só conseguia sentir pena daquele homem.

Quando entrei na sala, os três me olharam em silêncio, anciosos por respostas.Eu não disse nada.Apenas subi as escadas e entrei no quarto de Lucy.Ela estava deitada na cama, fitando o teto.
-Bill..-Ela disse, quando me viu entrar.-O que eu tenho?Dr.Morten não quis dizer.Será que é grave?-Eu não respondi.Sentia os outros me seguindo e entrando no quarto também.Me sentei na cama e olhei para Lucy.Ela era tão linda!Isso só me fazia sentir mais pena daquele homem.-Por quê está me olhando desse jeito?-Lucy estava aflita.Eu me mantive em silêncio.Me abaixei e encostei os lábios na barriga dela, abaixo do umbigo.Depois pousei minha mão sobre o mesmo local e me deitei ao lado dela, beijando seu rosto.Lucy pousou a mão sobre a minha.
-Você está grávida.-Eu sussurrei, sorrindo.
-É verdade?-Juliette riu, pulando na cama e se deitando do outro lado de Lucy.
-Eu...Uau!-Lucy disse, chorando e rindo ao mesmo tempo.-É por isso que tenho vomitado tanto!
-Cara, parabéns!-Tom disse, se sentando na cama.
-Filha...Eu...Parabéns!-Jason disse, abraçando Lucy com muito custo.-Isso é motivo para abrirmos um champagne!
-Droga!Só porque eu não posso beber?-Lucy disse, brincando.
-Está louca?Nosso filho já bebeu muito alcool naquela festa da Amy.-Eu disse.
-Nosso filho.-Ela sorriu e me beijou.

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45 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 11:16 am

Capítulo 30-Pra mim, não importa, desde que minha noiva seja você.



-Bill,-Lucy sussurrou, quebrando o silêncio da noite.Estavamos deitados na cama do nosso quarto, depois de termos comemorado a gravidez de Lucy.Ela ficara com sono, o que nos fez subir cedo para o quarto.
-Ham..-Eu respondi, sentindo a respiração dela no meu pescoço.
-Quando você acha que aconteceu?
-Acho que foi aquela noite, na roda gigante.Não usamos camisinha.
-Você acha que foi errado?
-Nunca é certo não usar camisinha, Lucy.
-Mas, você acha que é cedo demais?
-Não é cedo demais.Eu estou feliz por isso!-Eu abaixei a cabeça pra olhá-la nos olhos.
-Quando eu morava em San Angelo, ficava horas admirando seu pôster.Ficava imaginando como sería te abraçar, te beijar...Mas nunca nem sonhei em ir tão longe.
-Estive pensando.Talvez aquele sonho tenha mais significados do que agente imagina.
-Você acha que existe algo de sobrenatural na vida?-Ela sorriu.Estava sendo irônica.
-Não sei se sobrenatural, mas o universo é grande demais.Existem mais mistérios entre o céu e a Terra do que podemos pensar.Talvez minha teoria sobre a vida esteja certa.-Eu me virei de costas e fiquei olhando para o teto.
-Que teoria?-Ela se deitou sobre meu braço que estava estendido, passando uma perna sobre minha barriga e rodeando meu corpo com um braço.
-Talvez todos nós sejamos personagens de uma história.Acho que aquele acidente não foi necessáriamente um acidente.Estavamos na mesma estrada, cada um seguindo sua vida de forma diferente e de repente, batemos de frente...E começamos a sonhar um com o outro.
-Mas de certo modo, todos os relacionamentos são assim.Cada um segue seu caminho e um dia, se encontram.Isso pode acontecer em qualquer lugar, numa lanchonete, no cinema, numa livraria ou no meio da rua.Todo mundo se encontra e se perde no meio do caminho, Bill.
-Não vamos nos perder, né?
-Nunca.-Ela sorriu.
-Quero que ele, ou ela, tenha o seu sorriso.-Eu disse, acariciando a bochecha dela com o polegar.-Seus olhos, seus cabelos...Quero que seja parecido com você.
-De jeito nenhum!-Ela fez uma careta.-Uma Lucy encomoda muita gente...Imagine duas!
-Você nunca me encomoda.
-Mas ela, ou ele, vai ser uma peste se me puxar.
-Imagine, Lucy.Quando ele estiver correndo pela casa inteira.
-Gritando e cantando!E se for gêmeos?-Ela riu, empolgada.
-Nossa!Teremos que ter uma babá.Eu e Tom erámos terríveis!
-Prefere que seja menino ou menina?
-Tanto faz.
-Se for menino, como deve se chamar?
-Ainda estou muito surpreso.Não consigo pensar em nenhum nome!
-Se for menina, quero que se chame 'Cecília'.
-Certo, se for menina vai ser Cecília.
-Minha mãe me faz tanta falta.Ela ia ficar tão feliz.
-Ela está feliz, Lucy.Em algum lugar desse universo, ela está feliz por nós.
-Será que sua mãe não vai ficar com ciúme?
-Minha mãe!-Eu exclamei, tateando em busca do meu celular, que estava em algum lugar do criado mudo.-Dona Simone vai pirar quando souber do nosso filho.

Disquei o número e esperei.Nem me importei com o horário.Queria tanto contar à minha mãe.Na verdade, sentia vontade de contar pra todo mundo que eu e Lucy teríamos um filho.
-Alô?-Minha mãe disse sonolenta, do outro lado da linha.
-Mãe, eu vou ser pai!-Eu disse, radiante.
-O quê?-Minha mãe bocejou.-Tom, volte a dormir...
-Não, mãe.É o Bill!Lucy está grávida!
-Grávida?-Ela finalmente acordou.-Lucy está grávida?Eu vou ser avó?
-É!Desculpa eu ter te acordado, mas...Estou tão feliz, mãe!
-Espera, mas, quanto tempo?
-Mais ou menos um mês.
-Oh, meu Deus!Bill...Aconteceu tão rápido, filho.Tem certeza que é isso que você quer?
-Absoluta.
-Parabéns, meu filho.Eu sabia que isso ia acontecer um dia, mas não pensei que fosse tão rápido.Passe para Lucy.
-Ela quer falar com você.-Eu estendi o telefone para Lucy.Ela se sentou ao meu lado, cruzando as pernas e me olhou com uma expressão de medo.
-O-oi dona Simone.-Lucy disse, apreensiva.Ficou em silêncio por um momento e depois seu rosto se iluminou, num sorriso radiante.-Obrigada...Estão terríveis!Nada pára no meu estômago...Não, ainda não tive...Obrigada...Pode deixar.Boa noite.-Ela me devolveu o celular.
-Oi, mãe.
-Atenda a todos os desejos loucos de Lucy, tá Bill?
-Tá.
-Qualquer coisa, me ligue.Boa noite, filho.
-Boa noite, mãe.-Desliguei o telefone e Lucy se deitou de costas ao meu lado.
-Achei que ela não ia gostar da idéia.
-Você não conhece a dona Simone!-Eu ri.Deitei a cabeça sobre a barriga de Lucy, encostando meu ouvido na pele dela.-Posso ouvir o coração dele, ou dela.
-Não vejo a hora de sentir ele virando ou chutando.
-Lucy, casa comigo?-Eu me deitei sobre ela e fitei seus olhos.
-O quê?-Ela sorriu.
-É!Se você quiser podemos ir de carro pra Las Vegas amanhã.Podemos nos casar em uma daquelas igrejas malucas.Ou se você preferir, podemos nos casar em Notre Dame, ou numa gôndola em Veneza, ou em algum bosque da Irlanda, ou na Alemanha...É só escolher o lugar.Pra mim, não importa, desde que minha noiva seja você.

-Eu...Nem sei o que dizer!
-Que tal, ''sim''?
-Sim, claro que eu quero me casar com você!-Ela me beijou, ternamente.-Mas...Casamento precisa de tantos preparativos.Vamos esperar mais uns meses.
-Lucy, vai começar uma nova turnê.Viajo na segunda-feira.-Eu disse, pesaroso.-Só vou te ver daqui uns meses.
-Que pena.
-É por isso que queria me casar amanhã.É meu último dia aqui, antes de viajar.
-Então, podemos ficar noivos.
-Não é a mesma coisa, mas serve.
-Além do mais, já moramos juntos.Essa casa é nossa!
-É, mas sua barriga já vai estar grande, quando eu voltar.
-Não tem problema.Nos casamos depois que ele nascer...
-Daqui nove meses?
-É, Bill.Ela, ou ele, pode ser nossa dama de honra ou cavalheiro.
-Vamos ter que esperar ele, ou ela, andar?
-Não.Alguém leva ela no colo, até o altar.O casamento da minha mãe, foi assim.
-Mesmo?
-É.Eu entreguei as alianças.
-Então, onde você quer casar?
-Na fazenda do meu pai.
-Ótima idéia!E já que ainda não pude comprar alianças.-Eu tirei um dos meus colares, o qual tinha um crucifixo de ouro como pingente, e coloquei no pescoço dela.-Você quer mesmo, casar comigo?
-É o que eu mais quero.-Ela respondeu, seriamente.Eu fechei os olhos e a beijei.


Capítulo 31-E eu tenho odiado ficar longe de você.



Os próximos dois meses foram de trabalho intenso.Eu estive nos quatro cantos do globo, Inglaterra, Finlândia, Malásia, Brasil, Itália, Portugal, Alemanha, Canadá e o único lugar onde eu realmente queria estar, era numa certa casa que tinha um lago no jardim.

Eu ligava para Lucy todos os dias, pra saber como ela estava.Juliette e Jason ficaram hospedados na minha casa, para cuidarem dela.Num domingo do terceiro mês, dei um jeito de fugir da turnê e fazer uma visita rápida à Lucy.Quando abri os portões e olhei para o jardim, meu coração se encheu de um sentimento quente e confortante.Eu me senti em casa.A primavera estava acabando, mas os dias em Los Angeles ainda estavam quentes.Lucy estava sentada na gangorra, lendo um livro.Estava vestida em um vestido leve, cheio de pequenas rosas azuis.Uma sapatilha branca.Seus cabelos voavam, pairando no ar com a brisa fresca.Andei até ela sorrateiramente e tapei seus olhos.Ela tateou minha mão.
-Bill.-Ela disse, feliz.Se levantou de um salto, deixando o livro cair no chão, e me abraçou com urgência.
-Oi, meu amor.-Eu disse, sentindo o indescritível cheiro de erva-doce do cabelo dela.
-Senti tanto a sua falta!
-Eu também senti a sua.Como você está?E o bebê?-Toquei a barriga dela.-Já está grande!-Eu sorri.
-Fiz uma ultrassom ontem.Chorei tanto!-Ela riu.-Juliette foi comigo.
-Queria ter ido com você, mas não consegui fugir a tempo.
-Quando você vai voltar?
-Amanhã.
-Tão pouco tempo!
-É.
-Vem.Tenho que te mostrar uma coisa.

Andamos de mãos dadas até a varanda.Subimos as escadas e Lucy abriu a porta de um quarto, onde eu nunca tinha estado.
-É lindo!-Eu disse, entrando no quarto.O teto era pintado de azul escuro, repleto de pontinhos de tinta branca, como um céu estrelado.A constelação do caçador fora cuidadosamente desenhada.O azul ia ficando claro, a medida que descia pelas paredes, e na metade delas haviam nuvens brancas desenhadas.O carpete do chão era branco e macio, como se pudessemos pisar nas nuvens.Na janela branca, havia uma cortina de pássaros de papel azul escuro, intercaladas por pequenos peixes azul claro.Senti uma emoção tão grande.Aquele quarto era cheio de significaos e parecia um pedaço do céu.
-Como não sabemos se é menina ou menino.Decidi contar a nossa história nesse quarto.
-A constelação do caçador, o ''L''...-Eu sorri, quase chorando.-Uma vez eu disse que poderíamos viver nas nuvens.
-Um peixe pode se apaixonar por um pássaro.-Ela passou os dedos pela cortina.-E podem ser felizes.
-Você que fez a cortina?
-É.Já tinha feito os pássaros quando era criança.Meu plano era fazer uma cortina de pássaros pra minha mãe.Ela adorava pássaros e sua cor preferida era azul escuro.Só deu trabalho fazer os peixes.-Ela sorriu.
-Está faltando os móveis e os brinquedos.
-Deixei isso pra comprarmos juntos.
-Quer comprar hoje?
-Você deu sorte.-Ela sorriu, se aproximando e rodeando meu pescoço com os braços.-Hoje é minha folga.
-Você conseguiu arrumar um emprego?
-Consegui.É numa livraria tão calma e cheia de livros ótimos.Passo o dia inteiro lendo.
-Você sabe que não precisa trabalhar.
-Mas eu gosto.Fiz tantas amizades!
-Isso é bom.
-Amy morreu na semana passada.-Sua voz ficou triste.
-Sinto muito.
-Eu fui ao velório.Você precisava ver!Todo mundo tinha uma história divertida pra contar sobre ela.Amy tería adorado saber que eu estava grávida!
-Poderíamos ter chamado ela pra ser madrinha.
-É mesmo.A propósito, ainda não pensei nisso.
-Tom e Juliette?
-Pode ser.-Ela sorriu.

Passamos a tarde inteira comprando brinquedos, ursinhos de pelúcia, móveis brancos, um cortinado branco, e até um abajur, que quando ligado, projetava vários aviões na parede, que ficavam rodando pelo quarto.Nem ligamos para os paparazzi que tiravam fotos nossas.Um deles me perguntou o que estava acontecendo e quem era aquela mulher.Eu sorri e respondi com empolgação que ela era minha noiva e que estava grávida.Me senti tão bem em fazer aquilo.Eu queria que o mundo inteiro soubesse que eu estava feliz!Quando voltamos pra casa, arrumamos o quarto, que ficou impecável.

-Bill!-Juliette disse, entrando no quarto e correndo pra me abraçar.-O que achou do nosso trabalho?
-Você ajudou a Lucy?-Eu perguntei.
-É.Eu, ela e o senhor Ross pintamos tudo isso.
-Ficou lindo!
-Nós estamos trabalhando no mesmo lugar, Bill.-Lucy disse, pegando na mão de Juliette.Elas pareciam duas colegiais, amigas de infância.-Papai pintava os lugares mais altos e nós duas os mais baixos.
-Onde está Jason?-Eu perguntei.
-Viajou para uma cidadezinha, no interior da Califórnia.Acho que pra assitir à um rodeio.
-Ele é tão parecido com o Joe.
-Se for menino, pode se chamar Joe!-Lucy exclamou.
-Claro!-Eu sorri.
-Quem é Joe?-Juliette perguntou.
-Meu avô.-Lucy disse.
-Bill, como o Tom está?-Juliette mudou, bruscamente de assunto.
-Está ótimo.Morrendo de saudades de você.Ele te mandou uma carta.-Eu corri, peguei a carta na minha mala e entreguei a ela.
-Fala pra ele que eu...Estou louca pra ele voltar!
-Eu falo.

Juliette saiu correndo para a sala.Eu e Lucy fomos para o nosso quarto.
-Eu tenho odiado ficar longe de casa!-Eu disse cansado.Me deitando na cama.
-E eu tenho odiado ficar longe de você.-Ela se deitou ao meu lado e me abraçou.
-Quando acabar a turnê, vou ficar o maior tempo possível perto de você.
-Mal posso esperar!

Deitei a cabeça sobre a barriga dela.Aquele coraçãozinho, batia mais forte agora.
-Oi, filho.Senti sua falta.-Eu acariciei a barriga dela.
-Pede pro seu pai não ir embora.Quem sabe ele te escuta.-Ela disse, olhando para a barriga.
-Eu queria muito poder ficar, Lucy.Mas não posso.-Eu me deitei ao lado dela e a abracei forte.
-Nós vamos esperar por você.

Naquela noite, não consegui dormir.Fiquei olhando para o Lucy a noite inteira.Eu sentia pesar em deixá-la, mas eu tinha que trabalhar.Ás dez da manhã do outro dia, embarquei de volta para a turnê, deixando meu coração em Los Angeles.

Capítulo 32-Imagine que eu estou aí, te abraçando.



A notícia já tinha se espalhado pelo mundo inteiro!Eu via notícias na tv, no jornal, nas revistas e na internet.Eu e Lucy estavamos estampados em todos os cantos.Muitas pessoas perguntavam se iamos nos casar, se o filho era meu e mais um monte de coisas.Eu apenas dizia que ela era minha noiva, que ia ter um filho e que nunca estivera tão feliz!

Numa noite, eu estava dormindo em um hotel na Austrália.Quando meu celular tocou.Era Lucy, às duas da manhã!
-Oi, meu amor.Tudo bem?-Eu atendi o telefone, preocupado.
-É uma menina, Bill.-Ela respondeu emocionada.
-Menina?-Eu sorri.-Então vai ser Cecília.
-É.Me desculpe por ter ligado à essa hora.Mas, precisava ouvir sua voz.-Eu senti a voz dela fraquejar e tremer.
-Lucy, está chorando?
-Não.-Ela tentou disfarçar.-Estou com saudades.
-Feche os olhos.
-Pra quê?
-Imagine que eu estou aí, te abraçando.
-Se importaría se nos casassemos antes da Cecília nascer?
-Não.Eu adoraría!Mas, você não tinha dito que...
-Esqueça o que eu disse.
-Marque a data.
-Daqui a dois meses?
-Você vai estar com sete meses, Lucy.
-Não tem problema.Eu uso um vestido mais largo.Pode ser?
-Pode.Claro.
-Eu te amo.
-Também te amo, muito.
-Boa noite.
-Sua voz está tão triste, Lucy.Está acontecendo alguma coisa?
-Estou sentindo sua falta!
-Eu sinto muito.O que eu mais queria era estar aí, mas você sabe...
-Oi, Bill!-Uma outra voz feminina disse, animada.
-Quem fala?
-Juliette!
-Oi, Juliette!Como você está?
-Estou ótima.Olha, Bill, não se preocupe, tá?Estou cuidando de Lucy!
-Ela está muito triste.Estou preocupado.
-Mulheres grávidas são assim.Ela está extremamente sensível.
-Tem certeza?
-Vai por mim.
-Não deixe ela sozinha, tá?
-Nem um minuto!Te vejo em San Angelo.
-Você ouviu a conversa?
-Claro!Eu vou organizar o casamento de vocês.Boa noite.
-Boa noite, Juliette.
-Bill, boa noite.-A voz de Lucy, voltou a soar.
-Logo, logo vou estar aí com você.

Os dias se passavam.Semanas inteiras se arrastavam, parecendo anos.Eu já não aguentava esperar, falar com Lucy só pelo telefone.Eu notava que seu humor mudava a cada ligação.Um dia ela estava irritada, revoltada, reclamona.No outro estava doce, animada, empolgada.Juliette sempre me assegurava de que aquilo era normal.Eu nunca tinha convivido com uma gestante, então torcia pra que Juliette estivesse certa.Não queria que Lucy ficasse daquele jeito pra sempre.

Numa tarde dourada de outono, cheguei ao Texas!O clima não era frio, mas também não era quente.Meu casamento sería na noite do outro dia.Tivemos que fretar um pequeno avião, que pousou no Ozona Municipal Airport em San Angelo.Meus convidados eram:Minha mãe, meu padrasto, meus avôs, meu pai, Tom, George, os pais de George, a namorada do Georg, Gustav, os pais de Gustav e mais alguns amigos da família.

Jason nos esperava no aeroporto, encostado em uma van.
-Olá, Bill!-Jason disse, sorridente.Depois cumprimentou todo mundo, forçando um alemão que com certeza, fora ensinado por Lucy.
-Olá, Jason.Lucy não veio com você?-Eu disse, olhando para os lados.
-Não.Você precisa ver os pés da pobrezinha.
-Estão inchados?
-Bastante.Vamos, gente!Entrem!Vocês vão adorar minha fazenda!

A viagem não era longa.Poucas horas depois, Jason estacionou a van.Quando desci do veículo, fiquei maravilhado com o que me cercava.Um casarão, que devia ser da época da primeira guerra mundial, se destacava com suas paredes brancas e janelas de madeira vermelhas.Tudo ao redor era íncrivel.As montanhas e colinas que cercavam a fazenda, pareciam não ter fim.Uma enorme árvore parecia guardar a casa, perdendo folhas vermelhas pelo chão, ameaçadora com seus galhos quase vazios.O sol batia contra aquela casa, a deixando com uma incrível luz amarelada.De repente a porta se abriu, e Lucy caminhou devagar até a cerca da varanda.Seus cabelos haviam crescido um pouco mais, os cachos caíam sobre um suéter vermelho.Ela usava um vestido leve e branco.Eu corri em sua direção, não via a hora de abraçá-la.Quando finalmente cheguei perto dela e a abracei, senti um grande alívio.Eu havia sonhado com isso todas as noites anteriores, mas sempre acordava antes de conseguir abraçá-la.
-Que saudade!-Eu disse, a abraçando o mais forte que podia.
-Bill.-Ela riu.-Calma.Eu estou grávida, lembra?
-Desculpe.-Eu a soltei lentamente.-Oi, Cecília.-Me abaixei e beijei a barriga dela.
-Ela está chutando!-Lucy pegou minha mão e a levou até sua barriga.
-Será que ela me reconheceu?-Eu sorri.
-Acho que sim.
-Não via a hora de te ver.-Eu toquei a covinha que se abriu ao lado do sorriso dela e beijei seus lábios.-Não queria ter ficado tanto tempo longe de você, mas foi preciso.
-Agora você está aqui.O que achou da fazenda?
-É mais bonita do que eu imaginava.
-Lucy!-Minha mãe subiu as escadas da varanda e abraçou Lucy.-Quanto tempo, menina.Nossa, sua barriga já está enorme!Oi, Cecília!-Minha mãe acariciou a barriga de Lucy.Foi imitada por todos os outros, até Jane, a namorada do George, ficou encantada com Lucy.

Jason nos levou até os fundos da casa.Uma verdadeira festa estava sendo preparada.Mais ao fundo havia uma mesa branca e várias flores ao redor.Com certeza era o altar, que fora armado perto de uma árvore de folhas douradas, que caíam dos galhos a cada minuto.Juliette correu e pulou nos braços de Tom.
-Que saudades, meu amor!-Ela dizia entre beijos melados.
-Esta é Juliette?-Gustav perguntou ao Tom.
-É!-Tom respondeu, sorrindo orgulhoso.
-Juliette preparou tudo isso!-Lucy disse, pegando minha mão.-Ela pode ser uma boa decoradora, não é?
-Ficou lindo!-Eu sorri.Olhando para as mesas, postas em frente ao altar.Um tapete vermelho descia das escadas da varanda e ia cortando as duas fileiras de mesas, até chegar ao arco.-Está muito cheio aqui.Vamos subir?
-Vamos.-Ela sorriu, timida.

Ela pegou minha mão e nós subimos as escadas.Me deparei com um corredor enorme, cheio de portas fechadas.
-Essa casa é enorme!-Eu disse, admirado.
-Era do meu bisavô.A família era muito grande, mas os irmãos do meu avô, morreram na primeira guerra.Só sobrou ele e o velho Joe.Eram amigos.
-Espera, o pai do seu pai, era amigo do Joe?
-Quase irmãos.Meu outro avô se chamava Kevin.A fazenda de Joe é bem perto daqui.Depois que minha avó Juliette e meu avô Kevin, morreram...Ele vendeu e se mudou para Los Angeles.
-Sua mãe já tinha se casado com seu pai?
-Não.Eles só se casaram depois que eu nasci e depois que Melina morreu.
-Quem era Melina?
-Minha irmã mais velha.Minha mãe tinha dezesseis anos quando engravidou do meu pai.Meus avôs tinham acabado de falecer, então eles não se preocuparam muito com casamento e ficaram morando aqui.
-E sua irmãe, morreu de quê?
-Pneumonia.
-Sinto muito.
-Eu não cheguei a conhecê-la.Eu tinha acabado de nascer.-Ela sorriu e abriu uma das portas.

Era um quarto grande, com uma cama de casal, um guarda-roupas e uma penteadeira.Todos os móveis eram brancos.As paredes, brancas, eram forradas de fotos e posters da minha banda.
-Uau!Você tem fotos que nem eu tenho!-Eu ri, observando minha cara de treze anos.-Meu Deus, como pude usar o cabelo assim?
-Não reclame!Você era lindinho, nessa época.
-Olha, só!-Eu olhei para o mural de fotos dela.Cheio de fotos de Lucy quando era criança.-Lucy Ross!
-Você percebeu que em cada foto, estou com um esfolado diferente?-Ela riu, me abraçando por trás, beijando meu ombro.
-Percebi.
-Estou tão cansado!-Me deitei na cama, Lucy se deitou perto de mim.
-Você não gosta muito do meu sobrenome, né?Macnigan.
-Honestamente, não.Mas vamos resolver isso, amanhã.-Eu a abracei, sorrindo.
-Lucy Kaulitz.
-Estou quase dormindo.-Eu ri.
-Durma.Ninguém vai sentir nossa falta, mesmo!-Ela começou a acariciar meus cabelos.
-Lucy-Eu fechei os olhos.-Canta pra mim?

Esqueça todas as suas preocupações
O derramamento de sangue, e o sofrimento
Deixa a sua mente descansar e viver um pouco mais

Esqueça todas suas preocupações
Essas feridas e os tropeços
Deixe todas as suas balas de lado

Oh, como as luzes de repente desaparecem
E o mundo dorme ao som de anjos cantando
A sinfonia mais bela
E a vida dorme no meio da noite

Esqueça todas as suas preocupações
Remorso e insanidade
Somente feche seus olhos
E durma bem...



_____________
Nota da autora:Jane é um nome fictício, já que eu não consegui achar algo sobre a namorada do Gee!
A música do final se chama ''Sleeptight-Lovex'', pra quem quiser ouvir...Recomendo!

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46 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 11:25 am

Capítulo 33-Até mesmo depois da morte.



Acordei com o barulho de pessoas conversando e rindo alto.Não estava acostumado com uma casa muito cheia e somando meus convidados com os de Lucy, o barulho era inevitável.Procurei Lucy pela cama enorme, mas ela não estava alí.Me levantei e andei pelo quarto escuro, até achar a porta.Desci as escadas e fui para a varanda dos fundos.Uma verdadeira pré-festa, estava acontecendo no jardim.Jason estava vestido com um avental, cuidando de uma churrasqueira.Lucy estava em uma das mesas, conversando animadamente com minha mãe, minha avô, Juliette e Helena.Os outros estavam comendo e jogando baralho.

Tom estava sentado numa das cadeiras de descanso da varanda, fumando um cigarro, olhando para os outros com um olhar sombrio.
-E aí, cara?-Eu disse, dando um tapinha no ombro dele e me sentando ao seu lado.-Por quê está excluido?
-Sou meio anti-social.-Ele disse, dando um sorrisinho sem graça.
-Você?Se eu não te conhecesse...O que está acontecendo?
-Nada.Eu só...
-Você está com o olhos vermelhos.Estava chorando?
-Não!-Ele me olhou, meio constrangido.-É a fumaça do cigarro.
-Aconteceu alguma coisa entre você e Juliette?
-É!-Ele respondeu, rapidamente.-Nós nos desentendemos.Mas eu não estava chorando!
-Tá.Acredito em você.-Eu suspirei.-Você tem noção?Vou me casar amanhã!
-Pois é!Estou feliz por isso.
-Não vai ficar chateado, sei lá, de agente se ver menos?
-Claro que não!Eu adoro a Lucy.-Ele sorriu.-Desejo de todo meu coração que vocês sejam felizes.
-Afinal de contas, você é meu padrinho, né?
-Justamente.
-E Juliette também, então faça o favor de ir lá e pedir desculpas pra ela.Não quero padrinhos brigados.

Descemos as escadas e Juliette veio ao encontro de Tom, com um olhar igualmente triste.Ela o abraçou e ficaram assim, cochichando um com o outro por um tempo.A festa durou quase a noite inteira.Depois todos foram dormir, para aguentar a festa do outro dia.Acordei com batidas apressadas na porta.
-Pode abrir!-Eu resmunguei.
-Desculpe, Bill, mas tenho que levar a sua noiva.-Juliette disse, abrindo a porta e arrastando Lucy pela mão.
-Espera.Deixe eu dar pelo menos um beijo nela.-Eu disse, pegando a mão de Lucy.
-Te vejo no altar.-Lucy sorriu.
-Só vou te ver no casamento?
-É, Bill.O noivo não pode ver a noiva antes do casamento.São as regras!-Juliette disse, animada.Neste momento Tom, Georg e Gustav entraram no quarto.
-Pode se levantar e trocar de roupa, Bill.-Georg disse, pulando na cama.
-Pra quê?-Eu perguntei.
-Vamos nos atrasar para sua despedida de solteiro.-Tom disse, olhando para o relógio.
-O quê?-Lucy disse.-Despedida de solteiro.
-Não, amor.É mentira deles.
-Ah, Bill!Você que pediu pra gente fazer!
-Tom!É mentira!
-Não importa, Lucy.-Juliette disse.-Nós temos que nos arrumar.E quanto a você, Tom Kaulitz, experemente olhar para outra mulher nessa festinha.
-Nós...Não vamos pra festa nenhuma!-Tom disse, com medo.
-Acho bom.-Ela saiu, levando Lucy.
-Uau!O que ela fez pra você obedecê-la desse jeito?-Gustav cruzou os braços.
-Nada.
-Acho que ela colocou uma coleira no Tomzinho!-George gargalhou.
-Juliette, domadora de um ''Sex Gott''!-Eu gargalhei.
-Pois é.Ela é a única que pode.-Tom riu.-Mas, vamos ao que interessa?
-O quê?-Eu perguntei, ainda rindo.
-Cara, você vai se casar!

Nós quatro saímos para San Ângelo, para fazermos compras.Juliette me dera instruções de que o casamento sería simples e jovial, então minha roupa tería que ser simples e jovial.Comprei uma blusa branca de manga comprida e tecido leve, uma calça jeans preta e um pouco larga, e um tênis branco.Tom, Georg e Gustav compraram roupas um pouco mais formais, mas nada de terno e gravata.

Ás cinco e meia, eu já estava pronto.Estava vestido com as roupas que acabara de comprar, tinha jogado meu cabelo para trás e usava pequenas correntes no pescoço.Podia ouvir risadas animadas das mulheres da casa, num dos quartos, enquanto caminhava pelo corredor.Elas deviam estar arrumando a Lucy.Respirei fundo e desci as escadas.Cheguei a varanda.Várias pessoas estavam sentadas nas mesas, me olhando com sorrisos nos rostos.Tom estava sentado em um piano preto, que fora colocado ao lado do altar, onde um juiz de terno preto estava parado como uma estátua.Alguns minutos depois minha mãe passou por mim, sendo seguida por Juliette, Helena, minha avô, a mãe do Gustav e mais várias outras mulheres.Elas desceram as escadas da varanda e ocuparam seus lugares nas mesas.Eu estava nervoso, todos me olhavam e eu não sabia o que fazer.Respirei fundo e caminhei até o altar, sorrindo e comprimentando várias pessoas.Era o casamento mais estranho que já vira.As pessoas estavam eufóricas, vestidas em trajes bonitos e simples e eu estava caminhando num ritmo normal, rumo ao altar.

Olhei para o Tom e sorri.Ele olhou pra frente e começou a tocar ''zoom into me''.Eu me virei e olhei para o casarão.Lucy estava descendo as escadas da varanda, segurando o braço de Jason.Ela estava linda!Com um vestido branco de mangas compridas, que deixavam os ombros à mostra.O tecido era tão leve, que disfarçava um pouco a barriga.Não era longo, mas descia até os joelhos.Algumas mechas do cabelo dela, fora amarrado para trás, deixando uma parte solta, como um penteado medieval.Uma pequena grinalda reluzia no alto de sua cabeça e ela segurava um pequeno ramalhete de jasmins.As folhas caíam da árvore, voando e pousando no tapete vermelho.O sol estava se pondo atrás da casa.

Eu dei alguns passos na direção dela.Estava admirado com tudo.Ela sorria pra mim, como se não tivesse mais ninguém naquele lugar.Jason apertou minha mão e sorriu.
-Seja feliz, garoto.Cuide bem da Lucy.-Ele me abraçou e se afastou.
-Oi.-Lucy, sorriu.
-Você é a noiva mais linda que eu já vi.-Eu beijei a testa dela, peguei sua mão e a levei até o altar.

Nosso casamento sería apenas no civil.O juiz disse um monte de coisas, que até hoje não sei dizer o que era.Eu não conseguia prestar a atenção.Meu coração estava disparado.Minhas mãos tremiam, segurando as de Lucy.
-Lucy Macnigan, -Eu disse, pegando as mãos dela, repetindo o que o juiz cochichava pra que eu repetisse.-Prometo ser fiel...Na alegria e na tristeza...Na saúde e na doença...Te amando e te respeitando...
-Até que a morte nos separe.-O juiz soprou.
-Até mesmo depois da morte.-Eu disse, sério.O juiz deu uma risadinha e passou o microfone para Lucy.
-Bill Kaulitz, -Lucy disse, com voz trêmula.Ela ficara surpresa por eu ter mudado a frase.-Prometo ser fiel...Na alegria e na tristeza...Na saúde e na doença...Te amando e te respeitando...Até mesmo depois da morte.-Ela disse, começando a chorar.
-Vai estragar a maquiagem.-Eu sussurrei, sorrindo e limpando o rosto dela com as costas da mão.Trocamos as alianças e assinamos em um livro, seguidos pelos padrinhos:Tom e Juliette, como meus padrinhos, Helena e Yuri, como padrinhos de Lucy.
-Eu os declaro, marido e mulher.-O juiz finalmente disse.

Eu olhei para Lucy com amor, passando uma mecha do cabelo dela, pra atrás da orelha.Me aproximei, beijei seus lábios e a abracei.Finalmente estavamos casados!

Capítulo 34-Me casar com você já é perfeito.



Sorrimos juntos ao ouvir os aplausos e assovios das pessoas.Ficamos alí no altar, para receber os comprimentos.Minha mãe foi a primeira a me abraçar.Estava com os olhos vermelhos de tanto chorar e um sorriso no rosto.
-Foi o casamento mais bonito que já vi.-Ela disse, tremendo a voz.
-Eu também achei, mãe.-Eu disse, afagando os cabelos dela.-Agradeça a Juliette.
-Oh, meu menino.-Ela me abraçou de novo, depois de beijar meu rosto.-Quero que você seja muito feliz com a Lucy.Que tenham mais um monte de filhos e...
-Tudo bem, mãe.Tenho certeza que Lucy vai me fazer feliz.

Abracei a família inteira, os amigos e mais várias pessoas que nunca tinha visto na vida.A maioria me recomendou que cuidasse bem de Lucy e que tinha tirado a sorte grande em me casar com ela.E era exatamente o que eu pensava.Os convidados se espalharam, indo para a mesa de buffet ou voltando para as mesas.
-Parabéns, Sra.Kaulitz.-Eu disse, abraçando Lucy depois de abraçar o último convidado da fila.-Que você seja muito feliz ao lado do seu marido lindo, talentoso e romântico!
-E modesto, também.-Ela sorriu e me beijou.-Com certeza vou ser feliz com ele.Parabéns, Sr.Kaulitz.Espero que sua esposa consiga te fazer feliz.
-Já está conseguindo.
-Será que ela não vai se importar se eu dançar com você?
-Bem, com certeza sim.Mas você é tão...Linda!-Sorri com um canto da boca.-Eu não posso recusar.

O altar se transformou em um palco e o juiz em um cowboy tatuado que tocava violão de doze cordas.Se chamava Henry e fazia dupla com Jason.Cantaram Elvis Presley, Creedence, Pink Floyd e The Smiths.Lucy me puxou para dançarmos na pista que surgira do nada em frente ao palco.Em poucos instantes a maioria dos convidados estavam dançando também.
-Estamos casados!Isso não te dá um frio na barriga?-Lucy disse, acariciando meus cabelos.
-Fiquei tão nervoso...E ainda estou.-Eu ri.
-O que achou da cerimônia?
-Perfeita!Juliette é um gênio!
-Achei que você não fosse gostar.
-Por quê?
-É que foi tudo tão simples e você é tão elegante.
-Elegante?
-É, eu pensei que você iria preferir uma catedral ou castelo em algum outro país.Com roupas sofisticadas e flores raras.
-Com você eu me casaria até em uma igreja maluca de Las Vegas.Eu te disse isso, lembra?
-Lembro.Mas, achei que você estava brincando.Essa festa ficou simples demais, então...
-Me casar com você já é perfeito.
-Eu estou tão feliz, Bill.
-Será que estamos sonhando ainda?
-Talvez.Os budistas acreditam que a vida é um sonho, uma ilusão passageira.Morrer é acordar.
-Então nós dois vivemos duas vidas em uma só.
-Dois sonhos.
-Será que tem um jeito de não acordar nunca?
-Infelizmente não.-Ela me olhou pesarosa.
-Então aproveite que estamos sonhando o mesmo sonho e canta pra mim?
-Bill...
-Chame a Helena.Voltem a cantar juntas por pelo menos um dia.
-Tudo bem.-Lucy sorriu.

Ela me deu um beijo e virou as costas.Caminhando até Helena, conversou com ela e voltou.
-Ela vai pegar o Hebert.
-Quem?
-Hebert, o violão dela.
-Ele tem nome?
-É.Tom e Georg não fazem isso?
-Não que eu saiba.
-É o companheiro inseparável da Helena.Quando você pronuncia, parece um coaxar, não é?
-É.-Eu disse, meio sem entender.Lucy olhou para o lado.-Eu conheço aquela garota de algum lugar.
-Quem?
-Aquela ruiva, perto do...Victor!-Ela sorriu.-Me lembrei.
-Você se lembrou de alguma coisa?
-Sim.Venha.-Ela pegou minha mão e foi andando.-Victor!-Ela sorriu, se jogando nos braços de um cara.Ele estava muito bem vestido, tinha cabelos cacheados e olhos castanhos.Parecia um anjo vestindo Calvin Klein.
-Eu te comprimentei no altar, lembra?-Ele disse, sorrindo.Tinha um sorriso incrivelmente branco.Lucy não desgrudava dele.Senti uma pontinha de ciúme.Será que era um ex-namorado dela?
-Eu...Não te reconheci.
-Lucy se esqueceu de algumas coisas.Por causa do acidente.-Eu disse, tentando ser o mais gentil possível.
-Bill, esse Victor.Meu melhor amigo.
-Oi.Sou Bill.-Eu estendi a mão pra ele e sorri.
-Eu...Sei.-Ele disse, me olhando com um constrangedor olhar apaixonado.
-Pare de babar no marido alheio, Vic!-Uma garota ruiva disse, dando uma cotovelada na costela do garoto.Ela usava um vestido azul escuro, que combinavam com suas unhas da mesma cor.Uma maquiagem carregada enfeitava seu rosto.Sua pele era branca, o que deixava seus lábios ainda mais vermelhos.Tinha um ar rebelde, segurando um cigarro numa mão e uma taça de rum na outra.Seus cabelos desciam em cachos até a cintura.-Sou Amanda, prazer.-Ela estendeu a mão, percebendo que eu a estava olhando.
-Bill...-Eu apertei a mão dela.
-Kaulitz.Eu sei.A Aluce vivia falando em você.
-Aluce?
-É um antigo apelido de guerra da Lucy.Aluce no país das maravilhas.Nunca conheci alguém tão sonhadora quanto ela.-Ela riu.-Não ligue para o Victor.Ele simplesmente não consegue parar de ser tão escandalosamente gay.
-Hei, Vandinha!-Victor repreendeu Amanda, franzindo o cenho.
-O que foi?É verdade!Olhe só pra você, babando no cara.
-Ah, quem não babaria perto de um ''homem desse''?-Victor pôs a mão na cintura e apontou pra mim com a outra mão.
-Nada contra você, Bill.Te acho lindo, mas prefiro o Gustav.
-Gustav?-Eu ri.
-É o preferido dela.-Lucy disse, afagando minha mão.-Ah, e vandinha é seu apelido.Ela é assustadora como a vandinha da família adams.
-Aluce!-Uma garota japonesa chegou, abraçando Lucy.
-Você é...
-Não se lembra?-A garota perguntou indignada.
-Ela perdeu uma parte da memória, bein!-Victor disse.
-Você me esqueceu?
-Não.-Lucy disse, me olhando com urgência.
-Você é...A...
-Olha isso, Vic!Ela esqueceu da gueixa!-Amanda gargalhou.
-Gueixa!Claro.-Lucy sorriu.-Te demos esse apelido depois de ver você dançar em um polly dance.
-Eu disse que ela era uma gueixa moderna.-Victor resmungou.-Eu inventei o apelido.
-De qualquer forma, prefiro que me chame de Yoko.
-Lucy saía muito com vocês?-Eu perguntei, abraçando ''Aluce''.
-O pai dela não costumava deixar.Era meio controlador.-Yoko disse.
-Mas Lucy vestia seu casaco de couro e pulava a janela junto com Helena.
-Helena era bem mais velha, mas sempre teve mentalidade de adolescente.-Victor disse.
-Você se lembra, Lucy?Quando você e Victor ganharam duzentos dolares no bilhar?-Amanda disse.
-E você, Yoko e Helena ganharam Cinquenta.
-Entramos na boate, bebemos horrores e saímos de lá tropeçando até chegar no carro.
-Dormimos alí, amontoados.-Yoko riu.
-Meu pai quase me matou quando voltei pra casa, aquele dia.-Lucy riu.
-Agora já sei onde Lucy aprendeu a fumar escondido.-Eu disse.
-Vamos lá, Lucinha?-Helena disse, segurando seu violão.
-Helena de tróia!-Amanda a comprimentou.-Quanto tempo.
-Vandinha!Vic!Gueixa!-Helena abraçou um por um.-Que saudades.
-Vocês duas vão cantar?
-Sim.

Helena sorriu e foi para o palco, levando seu violão verde musgo.Ele parecia um sapo, por isso o nome Hebert.Lucy a seguiu.Elas se sentaram nos baquinhos atrás dos microfones.
-Bem, eu e Helena resolvemos relembrar os velhos tempos.-Lucy disse no microfone.-E como foi meu...Marido.-Ela sorriu.-...Que pediu pra que eu cantasse.Vou cantar uma música da melhor banda do mundo.
''In mir wird
es langsam kalt
Wie lang könn' wir beide hier noch sein
Bleib hier
Die schatten woll'n mich hol'n
Doch wenn wir gehen,
Dann gehen wir nur zu zweit

Du bist
Alles was ich bin
Und alles was durch meine adern fließt
Immer werden wir uns tragen
Egal wohin wir fahr'n
Egal wie tief

Ich will da nicht allein sein
Lass uns gemeinsam
In die nacht
Irgendwann wird es zeit sein
Lass uns gemeinsam
In die nacht

Ich höre
Wenn du leise schreist
Spüre jeden atemzug von dir
Und auch wenn
Das schicksal uns zerreißt
Egal was danach kommt
Das teilen wir

Ich will da nicht allein sein
Lass uns gemeinsam
In die nacht
Irgendwann wird es zeit sein
Lass uns gemeinsam
In die nacht

In die nacht...irgendwann
In die nacht...nur mit dir zusamm'

Halt mich, sonst treib ich alleine in die nacht
Nimm mich mit und halt mich
Sonst treib ich alleine in die nacht

Ich will da nicht allein sein
Lass uns gemeinsam
In die nacht
Irgendwann wird es zeit sein
Lass uns gemeinsam
In die nacht

Du bist
Alles was ich bin
Und alles was durch meine adern fließt''

Aplausos e assovios inundaram toda a festa.Lucy sorriu pra mim e cantou mais um monte de músicas, de Norah Jones a Johnny Cash.
-Ela está tão mais feliz agora!-Amanda disse.
-Eu pensava que ela não tinha amigos quando morava aqui.
-Amigos, não.Tinha amigas.Lucy nunca foi boa pra fazer amizade com garotos.
-Mas e Jack?
-Ela era apaixonada por ele.Só falava e só pensava nele.Era uma doença.
-Ela inventou que estava grávida pra se casar com ele, não é?
-É.Ridículo!Mas ela era obcecada e...Isso a prejudicou muito.Aquele acidente foi ótimo pra vida dela.
-Vandinha!-Victor a repreendeu.
-O que foi, Vic?Está apaixonado por mim hoje?
-Deus me livre!Só não quero que fale assim.Jack está morto.
-Mas é verdade.Ela nunca tería conhecido você, Bill.E ela precisava disso.
-Como ele era com ela?
-Um escroto!Estúpido e canalha.Mas ele teve o que mereceu.-Amanda fez uma cara de satisfação.
-Ele estuprou a Amanda.-Yoko sussurrou pra mim.
-E está queimando no inferno, agora!-Amanda acrescentou, sombria.
-Pobre Lucy.Ele deve ter feito sexo com ela e...-Victor disse.
-Não fez.
-Você fez.-Amanda concluiu, feliz.
-Depois que acordamos do coma.
-Você a salvou.Ele era nojento.-Amanda disse.-Vou pegar mais uma dose de rum.-Ela saiu, pisando firme.
-Ele tirou a virgindade dela.Ela não contou para Lucy, porque soube do casamento.Achou que já tinha acontecido.-Yoko disse.
-Ela sempre bebe demais, quando se lembra disso.-Victor disse.

Lucy desceu do palco para dar lugar à um tio William bêbado, que teimou em cantar Bee Gees.
-Gostou da música que cantei pra você?-Lucy me perguntou ao se aproximar de mim.
-Linda.-Eu a abracei.-Como sua voz.Gustav!-Eu chamei.
-Fala, Bill!-Gustav disse, se aproximando.
-Está vendo aquela ruiva, alí?-Eu apontei para a Amanda.
-De vestido azul?
-É.Chame ela pra dançar.
-Está louco?Jamais!
-Por quê?
-Ela é linda, cara!Vai me mandar chamar a avó dela pra dançar.
-Te dou cem dólares.
-Não.Sem condições.
-Trezentos.-Yoko disse.
-Não.
-Quinhetos, Gustav.-Lucy levantou uma sobrancelha.
-Tá!Mas se eu levar um fora, vou querer o dobro.

Gustav caminhou até Amanda, parou ao lado dela e disse alguma coisa em seu ouvido.Amanda se virou de repente e sorriu.Meia hora depois já estavam dançando no meio da pista.
-Operação culpido.-Lucy sorriu.-Deu certo!
-Ela merece.-Eu disse.
-Olha só.Já fez amizade, né?
-Fiz.Eles são muito legais.-Eu disse, olhando para Yoko e Victor, que dançavam ao lado de Gustav e Amanda.-Que bom que você tem amigos assim.
-Pena que eu me lembre de tão pouca coisa que vivi com eles.-Lucy segurou meus braços, apertando os dedos.Olhei para o rosto dela.Ela estava pálida, seus olhos fechados.
-O que foi?-Eu perguntei, prestando a atenção nela.
-Estou cansada.-Ela me olhou.
-Você está pálida.
-É?Estou me sentindo tonta.Vamos pro quarto?
-Vamos.

Nos despedimos de todo mundo e voltamos para o quarto.Lucy foi direto para o banheiro e se trancou lá por alguns minutos.Ela saiu se escorando pelas paredes até chegar a cama.
-O que você tem, Lucy.-Eu disse, ajudando-a se deitar.
-Não se preocupe.Eu só forcei demais!
-Tem alguma coisa errada.
-Não, Bill!Relaxa.Eu só estou cansada.Vem, deita aqui.-Ela me estendeu a mão.Me juntei a ela.
-Estou preocupado.-Eu fiquei sério e a beijei.
-Estou acordada desde às oito da manhã.Você não tem idéia de quanto laquê inalei..-Ela suspirou.
-Te amo, Sra.Kaulitz.
-Promete que vai me amar até o meu último dia de vida?
-Até depois disso.

Capítulo 35-Você é o melhor marido do mundo!



Acordamos às cinco e Jason nos levou até o aeroporto de San Angelo.Pegamos o avião e à tarde, chegamos em Veneza.Nos hospedamos no ''Hotel Antiche Figure''.Lucy ficou encantada com a fachada do hotel e a aconchegante decoração do quarto.Tinha uma cama de casal, uma televisão, sofá, mesa de jantar...Era um verdadeiro apartamento, faltando só a cozinha.
-Podíamos morar aqui.-Lucy disse, olhando pela janelas, onde cortinas brancas e amarelas, voavam pra dentro do quarto.
-Não.Prefiro morar na nossa casa, mesmo.-Eu disse, a abraçando por trás e pousando as mãos sobre a barriga dela.-Temos várias lembranças naquela casa.
-Essa cidade é mais bonita do que eu pensava.
-Você ainda não viu nada.Está cansada?
-Um pouco.Por quê?
-São seis da tarde.Podemos dar uma volta.

Saímos, caminhando pelas poucas ruas que não eram alagadas.Atravessamos pontes e entramos numa tão sonhada gôndola.Lucy ficou maravilhada com a arquitetura da cidade.Os prédios, as casas, as pontes, as igrejas...A lista era infinita.
-Se eu não tivesse grávida, cantaria ''Like a virgin''.-Lucy riu, olhando para uma ponte cinza, que acabara de passar sob nossas cabeças.
-Ah, depois de saber que você era a garota mais louca de San Angelo, não dúvido!-Eu ri.
-E eu era mesmo.Brrrr!!-Ela estremeceu.-Está tão frio!
-É por causa da água.-Eu a abracei, esfregando seus braços.-Melhorou?
-Muito!-Ela me lançou um olhar sedutor.-Sabe, não me lembro direito das coisas que eu fazia lá.Ainda não entendi porque me casei com Jack.
-É melhor deixar pra lá.Isso não importa mais.
-Você tem razão.-Ela beijou meu rosto.-Estou com fome.
-Vamos pra algum restaurante pra jantar.

Descemos em um restaurante lindo, que era tão perto da água, que parecia ser flutuante.Comemos alguns tipos de massa e voltamos para o hotel.Lucy dormiu assim que chegou.Estava exausta.Eu fui mandar um e-mail para o Tom e esbarrei com uma notícia na internet.Tinha uma foto minha e de Lucy, em Veneza.Estavamos em quase todas as notícias.Algumas pessoas faziam comentários desagradáveis, outras diziam estar felizes com isso.Resolvi ignorar o que todos pensavam e desligar o notebook.Não me importava com mais nada, desde que estivesse com Lucy.Me deitei ao lado dela e dormi.

Acordei com o toque do meu celular.
-Oi.-Eu resmunguei.
-Oi, Bill.Tudo bem?-Tom disse, na outra linha.
-Tudo.
-Desculpa ter te ligado a essa hora, mas é que...Juliette quer saber como Lucy está.
-Ele está bem.Aconteceu alguma coisa, Tom?Você está com uma voz tão séria.Não é normal em você.
-Ai, cara.Eu e Juliette temos...Brigado bastante.Estou estressado.Mas, isso não importa.Lucy está bem?
-Ótima!Está dormindo, agora.Ficou cansada da viagem.
-E Cecília?
-Não para de se mexer!Ontem ela ficou eufória, eu acho.Se mexeu a viagem inteira e não deixou Lucy dormir.
-Essa menina vai ser ''o bicho''!
-Também acho.
-Vai fazer muita bagunça com o tio Tom.
-Tomara.-Eu ri.
-Então, falou cara!
-Mande um abraço para o Jason.
-Qualquer coisa, ligue pra mim, ok?
-Tá.E tente não brigar muito com Juliette.Ela é uma pessoa maravilhosa.
-Eu sei.Obrigado, Bill.
-Te amo, cara.
-Também te amo.
-Quem era?-Lucy disse, rouca.
-Tom.Estava preocupado com você.
-Que tio coruja!-Ela sorriu.
-Não é?Mas ele estava tão sombrio.-Eu desliguei o celular.
-Por quê?
-Disse que está brigando com Juliette.
-Pobre Tom.
-Mas, me conte, Sra.Kaulitz.O que está achando de Veneza?
-Melhor do que eu pensava.
-Então se prepare, porque hoje vamos andar por essa cidade inteira.
-E navegar, também.-Ela me abraçou.-Você é o melhor marido do mundo!
-Eu faço o que posso.

Em uma semana exploramos toda a Veneza.Assistimos à uma missa na Basílica de São Marcos, só pra ver como era.Ficamos lá por duas horas cansativas, ouvindo o padre rezar em latim.Dançamos na Ponte dos Suspiros, enquanto Lucy cantava ''Que c'est triste Venice'' sem nem ligar para as pessoas que passavam ou para os paparazzi que tentavam se esconder inutilmente.Conhecemos uma boa parte do lindo Palácio Ducal, que fora construído entre 1309 e 1424. Comemos frutas incrivelmente frescas no Mercado Rialto, onde ficamos encantados com a hospitalidade e gentileza das pessoas.Assistimos à um concerto de piano no Teatro La Fenice e jantamos no Bistrot de Venise um dos melhores restaurantes da cidade.De Veneza, fomos à Paris e à Londres.Gastamos duas semanas para conhecer todos os pontos turísticos das três cidades.Teríamos ido até Berlim, se Lucy não tivesse pedido pra vir embora.Ela já devia estar cansada de ficar fora de casa.Cecília estava começando a pesar muito, o que deixava Lucy com dores nas costas e os pés inchados.

Chegamos em casa num sábado de manhã.Juliette foi a primeira a nos receber, correndo para abraçar Lucy, enxendo-a de perguntas.Lucy foi lhe mostrar as milhares de fotos que haviamos tirado, enquanto eu carreguei algumas malas para a sala.Quando abri a porta de entrada, ouvi Tom e David discutindo na cozinha.
-Eu não vou!-Tom dizia, irritado.
-Mas, Tom...-David disse pacientemente.
-Não, David!Já disse!
-O que está acontecendo aqui?-Eu perguntei.
-Oi, Bill!-David abriu um largo sorriso e veio me abraçar.-Quanto tempo!
-Pois é, você não foi ao meu casamento.-Eu cobrei.
-Cara, eu estava muito ocupado!Era justamente sobre isso que estava falando com o Tom.
-Já disse que não vou fazer isso.-Tom estava sério demais, o que me deixou preocupado.
-Fazer o quê?-Eu perguntei.
-É que marquei vários shows e eventos pra vocês.Além de entrevistas, ensaio de fotos...E estava pensando até em um novo dvd.
-Sería ótimo!-Eu sorri.-Por mim tudo bem.
-Mas Tom se recusa!
-Por quê?-Eu perguntei.
-David, não force, cara.-Tom disse, mais calmo.
-Por quê você não quer trabalhar, Tom?-David disse.
-Eu...Quero que Bill fique com Lucy.
-Peraí!Isso é por mim e por Lucy?
-É.
-Ah, para Tom!Admita que é por você!Não fique jogando a culpa em mim.
-Vocês acabaram de se casar!Cecília vai nascer, Bill.
-Eu sei, mas agente pode conciliar as....
-Não dá, Bill!Eu quero que você fique com Lucy esses últimos meses, certo?
-Mas, Tom...
-Fim de papo.Está decidido.
-Tom, você tem que pensar...-David começou a argumentar.
-David, venha dar uma volta comigo.-Tom o cortou, saindo da cozinha.

David me olhou confuso e eu fiz o mesmo.Tom estava estranho desde o casamento.Estava irritado e chatiado.Talvez ele quisesse ficar perto de Juliette, talvez eles estivessem com problemas bem mais sérios do que eu imaginava.Era a única explicação para o humor negro de Tom e sua relutância em não trabalhar, além de que estava jogando toda a culpa em mim.Algo de muito sério estava acontecendo com ele, pra que ele se escondesse atrás do meu casamento.

Capítulo 36-Nosso conto de fadas.



O inverno chegou em Los Angeles.Os picos das montanhas estavam inundados de gelo, o céu ficava nublado o tempo todo.Era uma época triste, melancólica.Os celtas consideravam essa época do ano a mais triste.Segundo eles, a primavera era o nascimento da Deusa, o verão era o ápice de sua vida, no outono ela envelhecia e o inverno era sua morte.

O interfone tocou estridente.Eu estava sentado no sofá e Lucy deitara a cabeça no meu colo.Era iníco do nono mês de gravidez e ela vivia dormindo.Sua barriga estava enorme e seus pés inchados.Como Tom teimou em não trabalhar nos últimos meses, passei o tempo me dedicando à Lucy.
-Tom!-Gritei.Mas Tom parecia ter ficado surdo ultimamente.Quando ele se trancava naquele quarto com Juliette, nem adiantava chamá-lo.Respirei fundo e me levantei, tendo o cuidado pra não acordar Lucy.-Quem é?-Eu perguntei, levando o fone ao ouvido.
-Oi Bill!sou eu.-Ouvi a voz de Jason.
-Oi, sogro.Pode entrar.-Eu apertei o botão que abria o portão eletrônico.Abri a porta da sala.Uma rajada de vento frio, congelou minha pele.Eram dez da manhã, mas o tempo estava tão escuro que nem parecia ser tão cedo.A van de Jason passou pelo portão e parou em frente a árvore.A porta de trás se abriu e de lá saíram Yoko, Victor e Amanda.Jason veio logo atrás deles.
-E aí, Bill?-Yoko disse, subindo as escadas e me abraçando.-Tudo bem?
-Tudo.Que surpresa!-Eu disse.
-Iiiiii, bein....Acho que ele não gostou da surpresa!-Victor disse, olhando para Amanda.
-Só se for da sua surpresa.Meu quase cunhado me adora!
-Diz isso pela sua quase-irmã Lucy, ou pelo meu quase-irmão Gustav?-Eu ri, abraçando Amanda.
-Os dois.-Ela riu.-Lucy está em casa?
-Está dormindo no sofá.Mas podem acordá-la, ela anda muito dorminhoca ultimamente.
-Oi, Bill.-Victor disse, com um sorriso malicioso em seu rosto.
-Oi, Victor.Tudo bem?-Eu o abracei.
-Ai, bein...Estava ótimo, mas agora...Fiquei ainda melhor!
-Controla Victor!-Jason disse, batendo no ombro do rapaz e jogando-o longe.
-Tudo bem, sogro?-Abracei Jason.
-Sim.Só estou meio cansado da viagem.
-Deviam ter me avisado que viriam.Eu tería mandado passagens de avião para...
-Está louco?Nunca mais entro numa coisa daquelas.
-Mas o senhor foi para San Ângelo semana passada e...
-Quase morri de medo.Se Deus quisesse que os homens voassem, teriam dado asas a eles, não acha?-Ele me olhou sério e depois começou a gargalhar.-Na verdade é que eu tenho medo de altura.
-Tom também tem.-Eu ri.
-Como minha filha está?
-Ótima.-Eu sorri.
-Eu não queria ter ido embora na semana passada, mas...Você sabe.Eu tinha que resolver algumas coisas.

Depois do almoço, nós nos sentamos na varanda.Fizemos uma espécie de roda, pra colocarmos as fofocas em dia.
-Vocês viram aquela moça de verde limão?-Amanda disse.-Estava ridícula e ainda conseguiu dançar com George.
-Ele estava tonto.-Yoko disse.
-Como sempre.-Tom retrucou.-Só assim pra dançar com um repolho.A namorada dele quase teve um piti.
-Pior foi você, senhor Tom, que dançou com todas as mulheres da festa.-Juliette disse.
-Só comigo que não.-Amanda disse.-Você tem preconceito contra ruivas?
-Não.É que tenho medo de bateristas enfurecidos e que tocam na mesma banda que eu.
-É mesmo, vandinha.-Lucy disse, afagando minha mão.Ela estava sentada entre minhas pernas enquanto eu a abraçava, escorando na parede.-Como vocês terminaram a noite?Eu não vi.
-É mesmo, vandinha?O que aconteceu?-Yoko disse.
-Não é da conta de vocês.-Amanda disse, tragando uma boa quantidade de fumaça do cigarro que segurava em seus dedos.
-Ah, não?Então porque não conseguimos dormir?-Victor disse, com um ar soberano.
-Cale a boca.Bicha má!-Amanda retrucou.
-Maldito quarto, era o meu e o da Yoko.De um lado Tom e Juliette fazendo a festa, no outro Gustav e Amanda fazendo outra festa.Quem conseguia dormir?
-Victor...Pare de por a culpa nos outros, meu bein.-Yoko disse, fazendo cara de safada pra ele.
-Cruz credo!Chuta que é macumba, Yoko!Nem se eu nascesse hetero na próxima encarnação!
-Por que será que eu sempre sobro?
-Gueixas são recatadas demais!-Amanda disse, olhando para o chão.
-Mas, resumindo...-Lucy disse.-Como vocês estão ultimamente?
-Bem...-Amanda começou a dizer, mas o celular dela a interrompeu.-Falando no diabo...
-Gustav Schäfer aparece, né?Danada!-Victor disse, batendo de leve no braço de Amanda.
-Hum...Bicha invejosa é um problema!-Amanda disse, se levantando para atender o telefone.
-Eu que o diga, né Vic?-Lucy sorriu.
-Pois é.-Victor me olhou com um ar pesaroso.-Ai se seu marido fosse gay!
-Victor!-Yoko o repreendeu.
-O que foi, gueixa?
-Não fale assim!
-Falo mesmo!Bill, se você fosse gay...
-Ainda assim eu estaría com a Lucy.-Eu sorri, a apertando em meus braços.
-Bem feito!Agora você rodou como um frisbee!-Yoko disse, sorrindo.Era uma mulher bonita.Seus traços orientais distacavam no rosto bem maquiado.Seus cabelos negros e lisos desciam até a cintura, além de tudo ela ainda era dona de um humor inabalável.Sempre estava sorrindo ou brincando.Isso me fez pensar o porque de ela estar sozinha.
-Estou com fome.-Lucy disse, assim que conseguiu parar de rir.-Não comi nada no almoço.
-Quer que eu prepare algo pra você?-Eu perguntei.
-Se não for te encomodar.
-Claro que não.É uma honra ser seu cozinheiro.

Me levantei e fui até a cozinha.Lucy me seguiu.
-O que quer comer?-Eu perguntei.
-Qualquer coisa.
-Omeletes?
-Pode ser.Estou com frio.Vou subir pro quarto.-Lucy pegou uma maçã da cesta de frutas e saiu da cozinha.Eu fiquei andando de um lado para outro, juntando os ingredientes.Ouvi um barulho.Quando olhei para a sala, vi uma maçã rolando pelo tapete.
-Lucy!-Corri para a sala.Lucy estava sentada na escada, debruçada sobre os degraus à cima.
-O que aconteceu?-Eu perguntei, me sentando perto dela.
-Não é nada.-Ela disse com os olhos fechados.Sua voz estava fraca.
-O que você está sentindo?
-Nada.Eu...-Ela parou e vomitou.
-Oh, meu Deus!-Eu disse, segurando os cabelos dela.-Jason!-Eu gritei.-Me ajuda aqui!
-O que foi?-Jason veio correndo, sendo seguido pelos outros.
-Lucy está passando mal.
-Minha filha.O que você tem?
-Pai...Me levem pro hospital!-Ela sussurrou.
-Já?-Jason perguntou.
-Por favor.-Lucy disse.
-Tom.Você dirigi!-Eu a peguei no colo e a carreguei até o carro de Tom.Juliette e Jason nos acompanhou.
-Não querem que agente vá?-Amanda perguntou, preocupada.
-Não precisa.Deve ser uma febre forte ou algo assim.-Eu disse, colocando Lucy no banco traseiro do carro.-Ela vai voltar logo.

Entrei no carro e puxei Lucy para o meu colo.Ela tremia de frio e eu tentava aquecê-la.
-Bill.-Ela disse.Senti sua respiração fraca, aquecer meu pescoço.
-Oi, meu amor.-Eu respondi, acariciando o rosto pálido dela.-Já estamos chegando.
-Me desculpa.-Ela sorriu, sem graça, olhando em meus olhos.
-Pelo quê?
-Por estragar tudo...
-Você está delirando.
-Não.Eu estraguei tudo, Bill!
-Tudo o quê, Lucy?
-Nosso conto de fadas.
-Fique quietinha.-Eu olhei para Jason, que manteve seu rosto inexpressivo.-Deve ser uma gripe, Lucy.Vai passar.
-Eu amo você.-Ela disse, se aconchegando em meu peito.

Tom dirigiu até a clínica onde eu e Lucy tínhamos ficado depois do acidente.Desci do carro e carreguei Lucy para o pronto socorro, até ser interceptado por enfermeiros que traziam uma cadeira de rodas.
-Qual é o problema dela?-Um dos enfermeiros perguntou.
-Ela ficou tonta e...-Eu comecei a me explicar.
-Ela...Ela é paciente da Dra.Honey.-Juliette disse.Ela com certeza sabia o nome da médica.Lucy não me deixava acompanhá-la às consultas.Só aceitava Juliette, porque dizia que era ''coisas de mulher''.
-Pode colocá-la na cadeira.-A enfermeira disse.Eu fiz o que pediram.Começaram a se afastar, empurrando a cadeira de rodas.
-O que estão fazendo?-Eu disse, tentando segurar a mão de Lucy.
-Ela precisa ser examinada!-O enfermeiro disse.
-Mas eu quero ir junto!Sou o marido dela!
-Bill, -Lucy disse, beijando minha mão.-Fique aqui quietinho, me esperando.Vai ser rápido.-Ela sorriu, sem força.

Eles a levaram pra longe.Eu estava ficando assustado.Fiquei andando de um lado para outro.Até que um dos enfermeiros voltou.
-O que aconteceu com a minha esposa?-Eu disse, quase me jogando na frente dele.
-Ela está bem, Sr.Kaulitz.Mas vai ter que ficar em observação.-O enfermeiro me respondeu.
-Mas o que ela tem?
-É só um mal-estar.Vá para casa, pegue umas roupas e poderá passar a noite com ela, se quiser.
-É claro que eu quero.

Voltamos para casa.O carro se encheu de um silêncio assustador.Jason olhava para a estrada lá fora, escondendo o rosto.Juliette e Tom ficaram de mãos dadas durante o trajeto todo.Nunca me sentira tão sozinho.E Lucy estava lá, sozinha naquele hospital.Quando chegamos em casa, fui o primeiro a descer do carro.Subi as escadas correndo, ignorando as perguntas de Amanda, Victor e Yoko.

Abri o guarda-roupas, no lado onde ficavam as roupas de Lucy.Peguei algumas peças de roupa pra ela..Me lembrei que os hospitais eram bem frios naquela época, eu ia dormir numa cadeira, algo bem desconfortável.No alto ficavam as roupas de cama.Puxei uma manta marrom de lá e junto com ela, vários lençoes e travesseiros caíram.Por quê tínhamos tantas coisas?Quando guardei o que não precisava, percebi um envelope branco no chão, que devia ter caído junto com os travesseiros.

Capítulo 37-Os eclipses só duram alguns minutos.



Na frente do envelope estava escrito:''Lucy Macnigan''.Era de antes de ela se casar comigo.Abri o envelope e tirei uma folha de dentro.Havia várias coisas escritas, as quais eu não tinha noção do significado.Vi algumas fotos da ultra-som de Cecília e junto de tudo isso, havia um outro papel menor.
-Hemograma.-Li no cabeçário do papel.-Leucócitos 6%.Mas isso é muito baixo!-Eu percebi minha voz falhar.Desci as escadas, quase correndo.
-Alguém aqui viu isso?-Eu disse, estendendo o papel para os outros, que estavam em pé, perto da cozinha.Ninguém me respondeu nada.-Vocês viram?
-Onde você achou isso?-Juliette perguntou.
-Não interessa.O que significa isso, Juliette?
-Bill, você tem que ficar calmo.-Tom disse, se aproximando de mim.
-Calmo?Então...É sério?
-Cara, eu...
-Alguém aqui vai me dizer o que significa isso?

Todos ficaram em silêncio, sem conseguir olhar pra mim.Peguei as chaves do carro de Tom e saí, apressado.Eu até ouvi ele me gritar, mas eu já tinha ligado a ignição.Dirigi na maior velocidade que era permitida.No fundo eu sabia o que aquele exame significava, mas não conseguia admitir.Era terrível demais e impossível de aceitar.Nem em pensamento eu conseguia pronunciar o que aquele exame diagnosticava.Cheguei à clínica e fui direto para à recepção.
-Quero falar com a Dra.Honey!-Eu disse, apertando aquele pequeno papel branco nas minhas mãos suadas.
-Ela está na sala dela.-A recepcionista respondeu.-Você tem horário marcado?
-Não.
-Então, sinto muito.Ela só atende até às dezessete horas e hoje não é plantão dela.
-Mas ela está em sua sala?
-Sim.Está atendendo.
-Obrigado.-Virei as costas e saí andando, em direção ao elevador.
-Senhor.-Escutei a recepcionista gritar.-Você não pode falar com ela!Volte aqui!

Não dei ouvidos.Subi dois andares e quando saí do elevador, comecei a correr pelos corredores vazios, procurando pela sala da médica.Me deparei com uma porta que dizia ''Sala 205 Dra.Honey: Ginecologista.''.O desespero às vezes nos faz esquecer quem somos.Nossos valores, nossos princípios, tudo se perde com o desespero.Abri a porta de uma vez e entrei.
-Dra.Honey!-Eu chamei, ao encontrar a anti-sala vazia.
-Mas o que é isso?-Uma mulher de branco, que aparentava ter uns cinquenta anos, saiu de trás de um biombo.-O que está fazendo aqui?
-Preciso falar com a Dra.Honey.
-Sou eu.Mas você tem que marcar consulta e...
-Preciso falar agora!-Eu alterei a voz.
-Eu estou atendendo!Por favor, espere sua vez!
-Preciso saber o que está acontecendo com Lucy!-Minha garganta queimava e ardia.Mas eu não podia chorar.Não agora.
-Você é o marido dela.-Ela afirmou com uma voz assustadoramente serena.Sua expressão mudou de perplexa para piedosa.Neste momento senti duas pessoas segurando meus braços.
-O que é isso?-Eu perguntei, indignado.Dois homens de terno preto, tentavam me tirar da sala.-O que estão fazendo?
-Soltem ele.-Dra. Honey disse.-Não é preciso.Ele só está...Agoniado.Senhor Kaulitz, pode me esperar aqui por um instante?-Ela disse, depois que os seguranças me soltaram.
-Claro.-Eu disse, me encostando contra a parede.Enquanto ela ficou atrás do biombo, eu lia e relia aquele papel.Lia o nome de Lucy milhares de vezes, pra ter certeza de que o exame era dela mesmo.De repente Dra.Honey saiu de trás do biombo, seguida por uma mulher grávida.A mulher me olhou assustada e saiu da sala, tomando distância ao passar perto de mim.
-Primeiramente, prazer em conhecê-lo, Sr.Kaulitz.-A Dra. me estendeu a mão.
-Quero...Quero que me explique isso!-Eu disse, estendendo o papel branco para ela.
-Sente-se.-Ela me indicou uma cadeira em frente à escrivaninha.
-Para de me enrolar!O que minha esposa, tem?
-Lucy me pediu para guardar segredo, então eu...
-Que se dane!-Eu alterei a voz.-Quero saber agora!
-Bem, no quinto mês de gestação, diagnostiquei um nível baixíssimo de leucócitos, em Lucy.
-Sim, eu percebi, mas...O que isso significa?
-Eu lamento muito.Lucy está com leucemia.
-Câncer?-Eu sussurrei, me sentando pesadamente na cadeira que antes ignorei.
-Sim.
-E...O tratamento?
-Então, como ela está grávida, receitei remédios mais fracos que poderiam controlar a doença.Assim poderíamos tratá-la após o parto.Mas os exames que fiz hoje, não são animadores.
-O que aconteceu?
-O organismo de Lucy não está respondendo aos remédios e a doença está progredindo a cada dia.A única opção viável agora, sería a quimoterapia, mas antes temos que retirar o bebê.
-Então, Lucy tem chances?-Eu disse, quase sorrindo.
-Sim, apesar de serem poucas.Lucy está fraca e não terá força suficiente para um parto normal.Teremos que fazer uma cesária.Mas a minha preocupação é se Lucy terá resistência para aguentar isso.Digamos que o sangue dela está muito fraco para uma cirurgia desse porte.
-Ela pode morrer?-Engoli o nó que estava na minha garganta.
-Sessenta por cento de chances.
-E se ela sobreviver?
-Trataremos a doença.Mas não estou lhe garantindo nada, Sr.Kaulitz.O estado de Lucy é grave.Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance.-Ela me lançou um olhar de compaixão, que me fez estremecer.
-Quando vai ser a cirurgia?
-Em no máximo doze horas.
-Só doze horas?
-Sim.Eu sinto muito.
-Onde ela está?
-No quarto 208, neste mesmo andar.
-Obrigado.E desculpe minha falta de educação.
-Não se preocupe.Lucy é tão nova...Eu lamento muito!
-Obrigado.-Eu virei as costas, sentindo minha garganta doer.
-Quer um conselho?-Ela disse.Eu não respondi, apenas parei no meio do caminho.Entendendo que eu não falaría nada, mas escutaría, ela continuou.-Leve ela pra algum lugar que gostem.Vou fazer de tudo pra salvá-la, mas viva essas dozes horas como se fossem as últimas.
-Tá.-Eu respondi, notando minha voz falhar cada vez mais.

Caminhei pelos corredores, apressadamente.Não conseguia aceitar.Em um minuto Lucy estava bem, rindo e fazendo piadas e agora, estava morrendo...Aos poucos.Abri a porta do quarto 208 e entrei.Lucy estava deitada de costas, acariciando a barriga com as mãos.Um fio saía de sua mão direita, terminando em um pacote de soro que estava pendurado ao lado da cama.A pele dela estava assustadoramente pálida, os lábios até sumiam em seu rosto.Ela me olhou e esboçou um sorriso.
-Oi.-Ela disse.Sua voz era quase inaldível.Engoli o nó na garganta, tentei disfarçar, mas vendo ela alí, não consegui conter o choro.-O que foi?

Dei alguns passos até a cama, me sentei na frente dela e acariciei seu rosto branco.Ela pôs uma mão sobre a minha e fechou os olhos.
-Quem contou a você?-Ela disse, sem parar de sorrir.
-Eu...Descobri.
-Você é esperto demais, Bill.Sabia que não ia conseguir esconder por muito tempo.
-Por quê você fez isso?
-Não queria gastar nosso tempo de hospital em hospital, procurando uma solução que não existe.
-Existe sim, Lucy.
-Não quero te deixar, Bill.Mas não tive escolha.Se eu me tratasse com quimioterapia e radioterapia, sería ruim pra Cecília.Era eu ou ela...Eu não consegui me escolher.
-Estava indo tudo tão bem...Por quê isso tinha que acontecer?
-Os eclipses só duram alguns minutos.Depois disso, ou o sol ou a lua têm que morrer no horizonte.-Ela me puxou pra perto dela.Eu a abracei forte, como se assim pudesse evitar que ela me deixasse.Não me lembro de ter chorado tanto em toda a minha vida, como chorei naquele momento.
-Talvez exista algum modo.-Eu olhei pra ela.-Podemos chamar outro médico.Não sei...Da Alemanha ou da China, Japão...Sei lá, Lucy.Talvez eles consigam curar você.Talvez...
-Shh!-Ela colocou o indicador sobre meus lábios.-Quero morrer como a Amy.Por isso não te contei antes.
-Foi por isso que você quis se casar comigo mais cedo?
-Foi.Eu sabia que não ia aguentar até o fim e ainda sei disso.
-Não fale assim, Lucy.Não desista!E se conseguirmos uma cura?
-E se não conseguirmos?Pelo menos vivi com você até o último instante.Isso já vale a pena.-Ela molhou os lábios e começou a chorar.-Você foi maravilhoso em cada minuto.Eu só tenho que te agradecer.Obrigada por aquele beijo que me acordou do coma, por nunca me soltar, por estar sempre por perto, por me amar como ninguém jamais amou, por dançar comigo, por cantar pra mim, por casar comigo, por me levar à Veneza, por tentar realizar cada parte daquele sonho maluco...Obrigada por ter realizado todos os meus sonhos, por me fazer viver um amor forte, que é capaz de vencer qualquer coisa...Até mesmo a morte.
-Espera.Ainda falta uma coisa.

A enrolei com cobertores do hospital, a peguei no colo e a carreguei para o estacionamento.Pedi que Helena me ajudasse a levar Lucy para fora do hospital.De início ela não concordou, mas depois de ouvir meu plano e ter a permissão da Dra.Honey, até que gostou da idéia.Lucy dormiu no meio do caminho até o parque do tio Willian.
-Você tem certeza que ele tem isso aqui, Helena?-Eu perguntei, estacionando o carro perto da calçada.
-Tenho.Vou falar com ele.-Ela saiu correndo do carro.Neste meio tempo, peguei Lucy no colo e fui andando pelo parque, carregando o soro dela também.As pessoas me olhavam espantadas, mas eu não ligava.Nunca me perdoaría se não realizasse o último sonho dela.
-Me acompanhe.-Helena disse, correndo pra perto de mim, pegando o soro de Lucy.

Eu a segui por um campo verde, depois do parque.De longe eu avistava o balão azul escuro com rajadas amarelas.Willian estava dentro do cesto, aquecendo o balão com ar quente.
-Olá, Bill.-Willian disse, dando um sorriso sem graça.
-Olá, Willian.
-Me dê ela aqui.-Ele estendeu os braços e pegou Lucy, levando-a pra dentro do cesto.Eu e Helena também entramos.Peguei Lucy no colo, novamente.O balão começou a subir, cada vez mais alto, até ganhar altitude suficiente para planar no ar.
-Lucy.-Eu sussurrei, perto do rosto dela.
-Hum..-Ela respondeu fracamente.
-Abra os olhos.-Eu sorri, beijando os lábios dela.
-O quê?-Ela disse, abrindo os olhos devagar.-Onde estamos?-Ela desceu do meu colo e se segurou na borda do cesto.Fiquei atrás dela a abraçando, segurando-a pra que não caísse.
-Estou realizando um de seus sonhos!
-Voar!-Sua voz era fraca, mas tinha um tom tão sonhador.

A cidade começava a ascender suas primeiras luzes, o sol se punha atrás das montanhas geladas, entre nuvens cinzas pesadas, deixando o céu alaranjado, quase rosa.O vento estava frio, mas Lucy parecia nem perceber.Olhava tudo em volta, encantada com a paisagem.
-Nada que voe, nem a cotovia, nem você...Podem morrer como os outros morrem.
-''Outono em Nova York''.-Ela sorriu.-Nada é impossível pra você, né Bill?
-Exceto evitar sua morte.
-Até o sol morre, Bill.A morte faz parte da vida.
-Não estou pronto pra dizer adeus, Lucy.-Eu disse, sentindo o cheiro de erva-doce dos cabelos dela.-Eu vou sentir tanto a sua falta.-Eu chorava agoniado, apertando meus braços em volta dela.
-Vou estar com você o tempo todo.Toda vez que sentir meu perfume, quando o vento tocar seu rosto, eu vou estar lá, tocando você.-Ela se virou pra me olhar nos olhos.Estava chorando também.-Eu posso não ter sido a mulher mais bonita do mundo, a mais rica, a mais atraente...Mas com certeza fui a mais feliz.Graças a você.Onde quer que eu esteja, vou estar te amando.E não quero que fique sozinho, tá?
-Não me peça isso, por favor.
-Arrume outra pessoa.Você merece ser amado.É o homem mais encantador que existe, não pode desperdiçar isso.Eu fui só uma página na sua vida, Bill.Uma visita passageira.
-Não posso amar outra pessoa.
-Viver é tudo o que você pode fazer por mim.

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47 Re: Rota 66 - Two souls collide em Dom Set 29, 2013 11:32 am

Capítulo 38-Eu amo cada parte de você.



Helena dirigia o carro pelas ruas escuras de Los Angeles.Lucy estava deitada no meu colo, no banco de trás.Estava mais pálida do que nunca, seu soro estava acabando.Eu olhava para o céu, pelo vidro da janela.Tantas coisas aconteceram para que eu encontrasse Lucy.Quase morremos em um acidente, sonhamos o mesmo sonho durante um mês, nos apaixonamos e agora estavamos aqui, com nada mais do que dez horas juntos.Hoje, no entanto, o céu estava escuro e nublado.Esta noite as estrelas não estavam lá para atender aos meus pedidos.

Chegamos ao hospital e levei Lucy direto para seu quarto.Ela desceu do meu colo, caminhou até a janela e olhou para o céu.
-Tudo começou com um doce novembro.-Ela abriu um largo sorriso, infeliz.-E está terminando em um novembro.
-Por favor, Lucy.-Eu disse, a abraçando por trás.-Não faça isso comigo.Não vou conseguir viver sem você...-A apertei nos meus braços.-Como vou conseguir acordar sem ver você do meu lado, como vou ficar sem sua voz cantando pra mim, sem seus cabelos, sem sentir seu corpo, sem beijar você, sem amar você...Sem o seu sorriso?
-Você não merecia isso, Bill.-Ela se virou e me encarou, com os olhos cheios de culpa.-Me desculpe.
-Isso não é justo.-Eu recomecei a chorar.-Todas as coisas que aconteceram, pra terminar assim!
-Eu não quero te deixar.-Ela me abraçou forte.
-Então, por quê não me contou antes?Poderíamos ter feito tanta coisa.
-Eu não sabia o que fazer, Bill.Você ficaría arrazado e entraría em pânico.Então decidi me casar com você antes, porque queria morrer com o seu sobrenome.Depois, contei aos que eram mais próximos de você.Por isso, Tom não quis trabalhar nesses últimos meses.Fiz eles prometerem que não contariam a você.Se tivessemos lutado esse tempo todo contra essa doença, ficariamos tristes e cansados.Você passaría a maior parte do tempo trabalhando, pra poder pagar meu tratamento.Tive medo de morrer, sem ter vivido meus últimos dias com você.Percebi que não importa quanto tempo pode durar minha vida, mas quero estar com você até meu último suspiro.
-Eu não te deixaría sozinha, Lucy.Mas tentaría te salvar, nem que eu gastasse todo o dinheiro que eu tenho.Eu pararía de cantar, de comprar essas roupas caras...Abdcaría de tudo, pra não ter que ficar sem você.
-Me desculpa, Bill.Eu devia ter te contado.
-Mas, eu ainda posso fazer alguma coisa.
-Só temos algumas horas.-Ela disse, com pesar.
-Lutei por você desde o início, me deixe lutar até o fim.

Ela fechou os olhos e limpou o rosto com o dorso da mão.Eu toquei o rosto dela e a encarei.Não conseguia aceitar que era a última vez que eu via os olhos dela, o sorriso dela, as lágrimas, a última vez que eu ouviria sua voz, que tocaria seus cachos loiros e sua pele quente.Eu não ia conseguir viver sem isso tudo.Lutar pela vida dela, sería lutar pela minha própria vida.Beijei seus lábios, demoradamente.Meu coração doía, ao sentir os lábios dela e pensar que vivería a vida inteira sem isso.Não, eu não podia aceitar!

Saí do quarto dela e caminhei pelos corredores.Me sentia exausto, mas precisava buscar ajuda.Desci até o primeiro andar.Quando saí do elevador, vi Tom, Juliette e Jason sentados em um banco de espera, no corredor.
-Bill.-Tom caminhou apressado em minha direção e me abraçou.Eu não sei porque, mas quando estamos tentando não chorar e alguém nos abraça, a tentativa é sempre frustrada.E quando meu irmão me abraçou, senti como se fosse desabar.Eu queria brigar com ele, xingá-lo por não ter me contado nada, por não ter me ajudado, mas não conseguia.Tom sempre foi a pessoa mais importante pra mim, sempre foi meu porto seguro.Só consegui abraçá-lo e chorar.-Nos deixou preocupado, saindo de casa daquele jeito.
-Tom!-Eu chorei, apertando meu abraço, como se isso pudesse preencher o vazio que eu estava sentindo.-Ela está morrendo e...Eu não posso fazer nada!
-Eu sinto muito, cara.
-Precisa me ajudar, Tom!Por favor, ache algum médico, algum jeito de ela ficar viva.Eu não posso viver sem ela!
-Eu sei, Bill.Eu sei que não pode.Prometemos não contar a você sobre a doença, mas não paramos de procurar ajuda um só segundo.Contatamos vários médicos e dois deles viram os exames dela e acham que podem salvá-la.-Tom me olhou e sorriu.
-Vocês...Quem procurou ajuda?
-Todos.Eu, Juliette, Jason, a mamãe, Gordon, Amanda, Victor, Yoko...Um monte de gente procurou por meios de salvá-la esse tempo todo, Bill.Até Gustav e Georg estão no meio!
-Obrigado.Eu...Queria lutar por ela, mas não sabia o que fazer em tão pouco tempo.Só tenho dez horas antes da cirurgia.
-Eu não me conformei com esse fim trágico.Vocês se conheceram de uma maneira tão estranha...E vocês se gostam tanto.Bem, quando eu soube da doença dela, não consegui aceitar.Fiquei olhando aquela festa de casamento...Não podia terminar assim!Então fiz um verdadeiro motim pra salvá-la.
-O que sería da minha vida, sem você Tom?
-A questão não é essa.Eu sei que você não vive sem aquela garota, cara.-Ele engoliu em seco.Seus olhos estavam vermelhos.Me lembrei que raramente via o Tom chorar.-Então, a questão é: o que sería da minha vida sem você?
-Tom...Eu te amo, cara.-Eu o abracei.
-Vá lá pra cima.Fique com Lucy.Não se preocupe, nós cuidamos de tudo.Um dos médicos está vindo da Rússia e o outro do Japão.Já estão a caminho.
-Muito obrigado mesmo.

Abracei Juliette e Jason e depois subi para o andar em que Lucy estava.Antes que eu chegasse no quarto, meu celular tocou.
-Oi.-Eu atendi, me esquecendo de olhar quem era.
-Oi, meu filho.-Ouvi a voz da minha mãe.Minha garganta queimou de novo.Me sentei no chão frio do hospital.
-Mãe...-Comecei a dizer.Queria tanto que ela estivesse alí pra me abraçar.Nunca sentira tanta falta da minha mãe.-Ela...Está morrendo.-Eu chorei mais ainda.
-Eu sei, Bill.Sinto muito.Estou embarcando pra Los Angeles no próximo avião.Não entre em pânico.Conseguimos os dois melhores médicos do mundo.
-Obrigado, mãe.
-Vamos conseguir, meu filho.Não perca as esperanças.Eu te amo.

Desliguei o telefone e entrei no quarto de Lucy.Ela estava sentada em uma cadeira, olhando pela janela.Me sentei na cama, desabando no travesseiro que estava encostado na cabeceira da cama e percebi o quanto estava cansado.Lucy se levantou e se deitou sobre meu peito.A abracei e fiquei acariciando a barriga dela.
-Deus deve ser um cara inteligente.-Ela disse, acariciando sua barriga também.-Acho que finalmente entendi, nós nos conhecemos naquele sonho.Não havería outro jeito, porque nossas vidas tomavam rumos diferentes.Por isso você sabia o nome do meu avô, sabia minha história com Jack, conhecia aquela casa.Acho que Deus nos deu aquele mês de presente, pra termos mais tempo juntos.
-Por quê ele não te curou de uma vez?
-Eu não sei.
-Quando eu te vi naquela lanchonete, sozinha, vestida de noiva...Achei você tão linda!
-Por quê então, se fez de difícil?-Ela riu.
-Por medo de te perder.-Eu beijei o alto de sua cabeça e comecei a acariciar seus cabelos.-E quando você me abraçou na roda gigante...Eu não estava tremendo de frio, estava nervoso.
-Eu sabia.-Ela enxugou o rosto e sorriu.
-E quando te vi na casa de Joe, vestindo aquele avental cheio de babados!
-Eu me vestia daquele jeito quando era criança.Você conheceu meu lado infantil, meu lado inocente e até bobo.
-Conheço tudo em você, Lucy e é tão ruim pensar em me despedir de tudo isso.Eu amo cada parte de você...Não vou conseguir amar outra pessoa.
-Você percebeu que os homens da minha família são viúvos e sozinhos?
-Percebi.
-Não quero que fique assim, Bill.Cresci vendo meu pai, trancado em casa o tempo todo.O quarto dele e da minha mãe, ainda está intacto como ela deixou, até hoje.
-Ele não quer que ela vá embora.
-Mas ele precisava deixá-la ir.Ele ainda está vivo.
-Se eu morresse, o que você faría?Conseguiria me deixar ir embora assim, tão facilmente?Jogaría minhas coisas fora e tería coragem de dormir com outro homem em nossa cama, por mais que amasse ele?
-Não.-Ela sussurrou.-Eu não tinha pensado nisso.
-Ninguém é substituível e eu não posso perder você.
-Não quero te levar comigo, Bill.Uma morte já é terrível o suficiente.
-Não funciona assim.
-Mas precisa!Você precisa ficar bem, pra cuidar de Cecília, por você e pela sua família.Não fique preso a mim...Por favor.
-Você não vai morrer.-Eu fechei os olhos e a abracei ainda mais forte.-Eu não vou deixar.

Ficamos relembrando muitas coisas, reais ou não, durante as horas seguintes.Até que dois médicos entraram no quarto, sendo seguidos por Jason, Tom e Juliette.O primeiro médico era asiático e baixinho.O outro era alto e mais novo, usava óculos de grau e era bastante sério e concentrado.
-Olá.-O primeiro disse, num inglês não muito bom.-Sou Misuki Aono.-Ele me comprimentou com uma aperto de mão e depois fez o mesmo com Lucy.
-Bill Kaulitz.-Eu disse.
-Lucy Kaulitz.-Lucy disse, apreensiva.
-Eu sou Caio Medved.-O russo nos comprimentou, rapidamente.-Nosso tempo é curto, então eu e o Dr.Aono, gostariamos de examiná-la.Vocês nos dão licença?-Ele olhou pra todo mundo, inclusive pra mim.

Eu dei um beijo no rosto de Lucy e acompanhei os outros para fora do quarto.Andei de um lado para o outro o tempo todo.Todos ficaram em um silêncio pesado e perturbador.A porta de repente se abriu e os médicos saíram de lá.
-Bem, o caso da Sr.Kaulitz é grave, mas faremos o possível.-Dr.Aono disse, cordialmente.
-Gente.-Ouvi Helena limpar a garganta.Me virei para olhá-la, ela empurrava uma cadeira de rodas.-Já está na hora da cirurgia.
-Já?-Eu perguntei.Voltei para dentro do quarto, sendo seguido pelos outros.

Lucy se levantou da cama e começou a chorar.
-Já está na hora?-Ela perguntou, tentando disfarçar.
-Já.-Helena disse, amargurada.
-Papai, eu quero te agradecer por tudo o que você fez por mim...-Lucy disse, abraçando Jason.
-Minha filha, não...-Jason disse, chorando.
-Me desculpe por ter feito você passar por aquela vergonha...Eu nunca estive com nenhum homem, a não ser o Bill.
-Isso não importa mais, Lucy.
-Eu te amo, pai.
-Também te amo.
-Juliette.-Ela abraçou Juliette, que já estava aos prantos.-Você foi mais do que uma irmã pra mim.Obrigada por tudo.Caso eu não volte, ajude o Bill a cuidar da Cecília.
-Eu ajudo.-Juliette respondeu, rouca.
-Tom.-Lucy sorriu, abraçando o Tom, que começou a esfregar os olhos.-Cuide bem do Bill, tá?
-Já faço isso, Lucy.
-Não deixe ele fazer nenhuma besteira.Você sabe que ele não tem juízo.-Ela riu, sem graça.
-Eu vou sentir sua falta, Lucy.Gosto muito de você...Mesmo.
-Oh, Tom, também gosto muito de você.Seja um bom tio pra Cecília, viu?
-Vou ser.
-Helena.-Lucy abraçou a prima.-Obrigada por tudo.
-Não diga adeus, Lucy.Ainda não.-Helena disse, enxugando as lágrimas.

Capítulo 39-Você vai estar segurando a minha mão do mesmo jeito

.

Caminhei ao lado da cadeira de rodas, segurando a mão de Lucy, enquanto Helena guiava a cadeira pelos corredores frios do hospital.A seguiría até a sala de cirurgia e depois ficaria do lado de fora, torcendo pra que tudo desse certo, pra que ela voltasse pra mim.Ficava imaginando como sería o rosto de Cecília e como Lucy ficaría quando a visse.Me sentia ansioso o bastante, para esquecer um pouco o risco que Lucy corria.Na verdade já não estava preocupado.Era apenas uma tempestade sobre nós dois, algo que venceríamos.Eu não podia esquecer que nosso amor era mais forte que tudo, mais forte que a própria morte.

Entramos em um quarto pequeno, onde Lucy vestiu uma camisola verde e uma touca cobrindo os cabelos.Também vesti roupas especiais , a acompanhei e a ajudei a se sentar na mesa de cirurgia.
-Estou com medo.-Ela me olhou.
-Não precisa ter.Vai dar tudo certo, Lucy.Não pode acabar assim.-Me abaixei e peguei o rosto dela com as mãos.-Sei que não acredito em Deus, mas vou estar rezando, implorando pra que você sobreviva.-Lucy sorriu.Eu acariciei sua bochecha com o polegar e encostei minha testa na dela.-Eu não posso viver sem seu sorriso, Lucy.Por favor, não morra.
-Não vou morrer.
-Olá Sr. e Sra.Kaulitz.-Um homem de meia idade entrou na sala e nos comprimentou.-Meu nome é Simon e sou o anestesista.Lucy, preciso que você se curve um pouco pra frente.-Ele disse, dando a volta na mesa.Lucy se curvou e me lançou um olhar infantil, enquanto Simon descobria as costas dela.
-Aperte a minha mão.-Eu me abaixei e peguei a mão dela.
-Ai!-Lucy exclamou, apertando minha mão e fechando os olhos com força, quando Simon aplicou a anestesia em sua coluna.
-Pronto.-Ele disse.-Pode se deitar.Boa sorte.
-Obrigada.-Lucy sussurrou se deitando de costas.

Algumas enfermeiras entraram na sala, despiram Lucy, a cobriram com lençoes verdes e a enxeram de fios que ficavam ligados a vários tipos de máquinas.Dra.Honey entrou na sala, já vestida para a cirurgia.
-Olá, Bill.-Ela me comprimentou.-Conversei com os médicos dela, são mesmo excelentes, vão acompanhar o procedimento.Agora ela tem mais chances ainda!
-Isso é ótimo.
-Estou torcendo pra que tudo dê certo.
-Obrigado.
-Como se sente, Lucy?-Ela perguntou, afagando o braço de Lucy.
-Anestesiada.-Lucy sorriu.
-Ótimo.Não queremos que você sinta nenhuma dor.

Me agachei ao lado da mesa, peguei a mão de Lucy, encostei meu nariz no rosto dela.Apesar da mascara que eu estava usando estar tapando meu rosto, eu conseguia sentir aquele cheiro nitidamente.Cheiro de Lucy.
-Você vai sair daqui viva.Vamos vencer essa doença e ainda vamos fazer milhares de coisas.Vamos à maior roda gigante do mundo, em Singapura,vamos pular de para-quedas, bumg-jump e asa delta.Vamos andar de teleférico no Brasil e ver o cristo redentor de perto, andar de bicicleta pelos campos floridos da Holanda, fazer compras em Toquio, esquiar nos alpes Suíços, comer um monte chocolate Belga, dançar às margens do Siena em Paris, jantar na torre eifel de novo, visitar o Taj Mahal na Índia, surfar na Austrália...Sem contar as bodas...De ouro, prata, diamante...-Eu suspirei.-Você vai morrer um dia, Lucy.Mas não agora, nem desse jeito.
-Você acha?
-Claro.Você vai morrer numa noite estrelada, fazendo crochê para os nossos netos e eu vou morrer do seu lado, sentado na cadeira, segurando sua mão e olhando pro céu.
-Vamos estar velhos e cansados...
-Mas nosso amor vai continuar do mesmo jeito.-Eu beijei o rosto dela.-Aguente firme.Por favor, Lucy.Não me deixe sozinho no mundo.
-Você nunca vai estar sozinho.-Ela beijou as costas da minha mão.
-Bill, você precisa ir.-Dra.Honey disse.-A cirurgia vai começar.
-Seja forte, Lucy.Eu sei que você vai conseguir.
-Queria que você ficasse aqui comigo.Lembra que prometeu nunca mais me soltar?
-Lembro.Mas disseram que eu não posso ficar aqui dentro.
-Isso não importa, você vai estar segurando a minha mão do mesmo jeito.
-Eu te amo.-Me levantei e beijei a testa dela.-Minha Lucy.
-Eu também te amo e não importa o que aconteça, vou amar pra sempre, onde eu estiver.-Ela sorriu.-Me beija?

Eu apenas sorri e me curvei, como tinha feito quando a vi em coma.Talvez dessa vez, meu beijo a curasse e a salvasse da morte.Talvez dessa vez eu a salvasse de novo.Fechei meus olhos e a beijei de leve e demoradamente.

-Bill, sinto muito, mas vamos começar a cirurgia agora.-Dra.Honey disse, tocando meu braço com gentileza.
-Até logo, Lucy.-Eu acariciei o rosto dela e ela retribuiu o gesto.Nos olhamos por um tempo e depois virei as costas e saí da sala.Tom, Juliette e Jason estavam sentados em um banco num lado do corredor, enquanto Yoko, Amanda e Victor, estavam sentados em outro banco no outro lado.
-Vai dar tudo certo, mano.-Tom se levantou e me abraçou.
-Vai.-Eu disse, confiante.

Me sentei ao lado de Tom.Amanda roía as unhas, Victor folheava uma revista de moda e Yoko tentava não me olhar, mas eu percebia que ela me olhava com uma certa pena no olhar.
-Vocês...Também sabiam?-Eu perguntei a eles.
-Sabíamos.-Yoko respondeu, tremendo as pernas.
-Bill, desculpa...-Juliette disse.-Mas não sabíamos o que fazer, então...
-Pelo menos procuraram ajuda.Mesmo assim, eu queria ter sido informado sobre isso.
-Lucy nos fez prometer.-Jason disse.-Você sabe como ela é!
-Sei.Não tem como dizer não pra ela.

Victor deitou a cabeça no ombro de Amanda e começou a chorar.Amanda tentava acalmá-lo, me olhando apreensiva.Yoko fazia o mesmo.Aquilo fez meu coração disparar.Comecei a me sentir mais ansioso do que antes.E se Lucy não conseguisse?E se a Dra.Honey viesse andando pelos corredores, com uma expressão de derrota e me dissesse que o pior acontecera?O que eu faría?As portas do elevador se abriram e minha mãe saiu de lá.
-Mãe!-Eu corri e a abracei.Quando senti seus braços me rodeando, não consegui segurar o choro.
-Calma, filho.Eu estou aqui.-Minha mãe disse, afagando meus cabelos.
-Estou com tanto medo, mãe!
-Eu sei, mas você tem que ser forte, aconteça o que acontecer.
-Eu não sei o que vai ser de mim se eu perder a Lucy.
-Bill,-Minha mãe pegou meu rosto com as mãos e olhou nos meus olhos.-Precisa ser forte, meu filho.Vai ter uma filha e ela precisa muito de você.
-Eu sei, mas...Não quero ficar sem Lucy.
-Tenha fé.E lembre-se que nada é por acaso.

Nos sentamos no banco e Tom ficou abraçado com nossa mãe, enquanto eu deitei a cabeça no ombro dela.Fechei os olhos e tentei me acalmar, pensar positivo.Pedi a quem quer que estivesse me ouvindo, pra que não deixasse Lucy morrer.Eu precisava dela, mais do que tudo.

Quando abri os olhos, vi todos se levantarem e olharem para o fim do corredor.Olhei naquela direção.Dra.Honey vinha com uma expressão preocupada no rosto.A expressão que eu temia.Engoli em seco.
-Correu tudo bem.-Ela disse, parando na minha frente.-Lucy está bem e já foi para o quarto.Mas perdeu muito sangue e está fraca.Fizemos mais alguns exames e estou aguardando os resultados.
-E minha filha?-Eu perguntei, me sentindo aliviado por saber que Lucy estava bem.
-Está no berçario.-Ela sorriu.-É no primeiro andar.

Desci para o primeiro andar e andei pelos corredores, ansioso.Cheguei ao berçário.Helena estava lá dentro.Ela me olhou e sorriu, apontando para um dos bercinhos ao seu lado.Eu espalmei as mãos no vidro e olhei para Cecília.Ela estava com os olhos fechados, e as mãozinhas perto do rosto.Estava toda agasalhada e com um gorrinho roxo na cabeça.Eu queria tocá-la, sentir sua pele macia, queria pegar sua mãozinha minúscula.Eu ria e chorava ao mesmo tempo.Enquanto os outros diziam que ela era linda e tão pequena, eu não conseguia dizer nada.
-Minha netinha!-Minha mãe disse, me abraçando e chorando.
-Ela é linda, mãe.
-Tenho tanta saudade de quando você e Tom eram daquele tamanho.
-Posso entrar?-Gesticulei para Helena, apontando para a porta.
-Pode.-Ela balançou a cabeça afirmativamente.

Abri a porta e entrei.Haviam vários bebês, dormindo naquele pequeno quarto à prova de som.Tinha um cheiro agradável e uma atmosfera pacífica.Helena pegou Cecília e me entregou.A peguei com cuidado, morrendo de medo de deixá-la cair.
-Oi, filha.É o papai.-Eu disse, beijando o rostinho dela.Ela abriu os olhos e me olhou, curiosa.Peguei uma de suas mãozinhas.Ela apertou meus dedos com força e com as duas mãos.
-Cecília é muito esperta, Bill.Se mexe o tempo inteiro.
-Puxou seu tio, né filha?-Eu ri.
-Acho que ela puxou mesmo.-Helena riu.-De tranquila só tem a pose.
-Lucy viu ela?
-Viu.Ficou encantada.
-Quando vai levar Cecília para o quarto dela?
-Quer levá-la agora?
-Quero.

A deitei no berço, que na verdade era uma espécie de carrinho.Helena abriu a porta e eu empurrei o carrinho para fora do berçário.
-Que linda!-Juliette exclamou, tocando o rosto de Cecília.
-Oi, pequena!-Minha mãe disse.

Todos os outros rodearam o bercinho e ficaram paparicando Cecília.Ela olhou pra todo mundo e começou a chorar.
-Vocês estão assustando ela!-Eu ri.
-Ii!Ela não puxou o Tom.-Juliette disse.
-O que você quis dizer com isso?-Tom perguntou.
-Quis dizer que você adora atenção.
-Fala pra ela que ela está errada, Cecília.Se tem alguém aqui a quem você puxou, esse alguém sou eu.Fala pra ela, Ceci!Defende o titio!
-Vamos levá-la para o quarto!-Eu exclamei.

Empurrei o carrinho para o elevador e depois para os corredores do terceiro andar, seguindo Helena.Ela parou em frente à uma porta e a abriu.Todos entraram primeiro e eu entrei por último.Lucy estava deitada na cama.Estava fraca e debilitada.Tinha uma expressão cansada e olheiras profundas em seu rosto.Mas quando ela viu nossa filha, seu rosto se uliminou e ela sorriu.
-Traga ela aqui, Bill!-Sua voz saiu fraca.Eu peguei a Cecília e a levei até Lucy.Ela não conseguiu se sentar, então deitei Cecília de bruços sobre o peito da mãe.-Oi, filha!-Lucy disse, colocando uma mão sobre as costas de Cecília.
-Conta pra sua mãe, que você se assustou com todo mundo!-Eu disse, me deitando ao lado de Lucy e pegando a mãozinha de Cecília.-Menos com o papai, é claro.
-É verdade?
-É mamãe, eu não gosto de atenção.
-Puxou seu pai, é?
-Eu?O que eu tenho a ver com isso?
-É.Você adora ficar sozinho, pensando.
-É que eu gosto da sua atenção.-Eu sussurrei no ouvido de Lucy.
-Ei, vocês dois!Vamos parar com essa melação?-Tom disse, abraçando Juliette por trás.-Tem menores de idade aqui nesse quarto.
-Você ouviu, né Yoko.Pode sair!-Victor riu.-Gueixas são atentados ao pudor!
-Engraçadinho.-Yoko respondeu.

Todos pegaram Cecília, até as enfermeiras e os médicos.Eles ficavam encantados, dizendo que ela era o bebê mais lindo que já viram.Eu concordava.Cecília era metade de mim e metade de Lucy.Tinha uns fios loiros em sua cabeça, o nariz era igual ao meu e a boca igual a de Lucy.Seus dedinhos eram compridos e finos, como os meus e suas unhas eram grandes.Ela tinha covinhas em suas bochechas e ficava furiosa quando sentia fome.Como a vida podia ser tão feliz e tão triste ao mesmo tempo?

Capítulo 40-Claro que não estou feliz, Bill.Eu a amo.



Todos os outros foram embora, pra descançarem, já que Lucy não corria riscos.Dormi abraçado a ela, olhando para o bercinho de Cecília.Dra.Honey entrou no quarto de Lucy e me acordou.
-Bill, eu preciso falar com você.-Ela sussurrou.
-Agora?-Eu disse, me levantando devagar.
-É!-Ela afirmou.Ela saiu andando e eu a segui pra fora do quarto.
-E então?-Eu disse, fechando a porta.
-Eu sinto muito, Bill.Mas as notícias não são boas?
-O quê?
-Lucy precisa de uma doação de medúla, urgentemente.
-Em quanto tempo?
-Não sei dizer, Bill.Ela tem alguma irmã?
-Não.
-Bem, você precisa achar alguém que seja compatível ou ela vai morrer.
-Mas onde?
-Não sei!Ligue para seus amigos...Os amigos dela!Corra, Bill.Ainda dá tempo!

Peguei meu celular e andei de um lado para outro do corredor vazio.Liguei para todo mundo que conhecia.Estava desesperado.Não podia deixar Lucy morrer, não agora.Voltei para o quarto e me deitei ao lado de Lucy.
-Bill, o que foi?-Ela perguntou.
-Nada.-Eu respondi.
-Eu sei quando você não está bem!O que aconteceu?
-Não se preocupe comigo.Descanse.

Cecília começou a chorar.Me levantei, ajudei Lucy a se sentar e entreguei Cecília a ela.
-Ela está com fome.-Lucy disse, colocando o seio na boca de Cecília, que se calou na hora.
-Que menina gulosa.-Eu disse.-Se Gustav fosse nosso parente, isso se explicaria.
-Não consigo acreditar que ela está aqui.-Lucy disse, acariciando o rosto de Cecília.
-Sabia que eu amo rodas gigantes?-Eu ri, me sentando ao lado de Lucy e a abraçando.
-Eu ouvi você ligando pra um monte de gente.
-Ham?
-Não se faça de desentendido, Bill.Eu sei que ainda não estou salva.
-Não quero que se preocupe com isso.
-Eu estou morrendo, Bill.Não adianta.Não vamos achar alguém compatível.
-Não fale assim.Eu ainda estou lutando por você.

Horas depois minha mãe entrou no quarto e pegou Cecília no colo.
-Oi, minha netinha linda!-Ela disse, embalando minha filha.-Ela se parece tanto com você, Bill.
-Também acho, Simone, mas Bill ainda insiste em dizer que ela se parece comigo.-Lucy disse.
-Eu não disse isso!-Eu ri.-Eu disse que ela se parece com o Tom.
-Que é o mesmo que dizer que ela se parece com você!-Minha mãe disse, rolando os olhos.
-Que menina de sorte, não?
-Oh, Narciso.-Minha mãe retrucou.-Tom quer falar com você.
-Tá.-Eu me levantei e saí.

Tom estava encostado na parede, do outro lado do corredor.
-Cara, todos nós fizemos os exames.Até Georg e Gustav vieram, mas ninguém é compatível.
-Droga!
-Falta você.
-Tomara que eu seja.

Segui Tom até o primeiro andar.Todos os outros estavam no corredor, com expressões apreensivas e apáticas.Entrei numa das salas, onde havia uma enfermeira ruiva, sentada ao lado de uma mesa cheia de seringas.
-Olá, sou Bill e vim fazer o teste.-Eu disse.
-Oi, Bill.Você é o marido dela, não é?-A ruiva me disse.
-Sou.
-Prazer, meu nome é Alexia.
-Prazer.
-Sente-se e ponha o braço sobre o suporte.-Ela disse.Eu fiz o que ela pediu.Eu odiava tirar sangue e aquela dor irritante da agulha entrando na veia, mas precisava fazer isso...Por Lucy.Alexia amarrou um elástico amarelo no meu braço.Eu virei o rosto e senti aquela dor aguda e chata no braço.-Pronto.-Ela disse, massageando minha pele com um algodão.
-Já fizeram o teste em Cecília?
-Não.
-Poderíam.
-Claro.Vou subir até o quarto de Lucy.
-E quanto às células do cordão umbilical?Ouvi dizer que podem curar esse tipo de coisa.
-Sim, mas nós tentamos.O corpo de Lucy rejeitou.

Saí para o jardim do hospital e ascendi um cigarro enquanto esperava pelo resultado.Tom me acompanhou.
-Ai, cara.Eu...Estou com medo!-Ele disse, soltando a fumaça de seu cigarro.
-Não vai dar certo, Tom!-Eu comecei a chorar.-Ela vai morrer!
-Não pode pensar assim, tem que...
-Pensar positivo?Eu pensei e não adiantou.A vida não quer eu fique com Lucy.
-Tem que ter fé, Bill.-Tom pôs a mão no meu ombro.
-Fé.

Eu apaguei o cigarro e virei as costas.Voltei para o terceiro andar e entrei em uma espécie de capela.O teto era pintado de azul, com nuvens brancas desenhadas.Se parecia muito com o quarto de Cecília.Me sentei em um dos bancos e fiquei olhando para as imagens de santos que estavam espalhados pelo altar.Havia uma cruz pregada na parede, logo acima dele, com uma imagem de Jesus crucificado.
-Nunca pensei que fosse fazer isso.-Eu disse, ouvindo o minha voz ecoar pelo lugar.-Aliás, eu não acredito muito nisso, mas é minha última chance.Deus, se você existir mesmo e estiver me ouvindo...Bem, eu queria pedir desculpas por ter te ignorado por tanto tempo.Mas é que não tive muitos motivos pra acreditar em você.Eu preciso de Lucy, Deus.Por favor, não tire ela de mim.Eu a amo mais do que tudo.O jeito como nos conhecemos, foi tudo tão mágico!Não acabe com isso agora.Por favor!

Me levantei e caminhei até o altar.Olhei para a imagem crucificada.A expressão de sofrimento no rosto daquela imagem.Talvez toda aquela história tenha sido lenda ou talvez não.Eu sei que naquela manhã eu implorei pra que aquele cara, me ouvisse.Eu não prometi nada, como sei que muita gente faría.Não estava negociando com ele.Estava apenas implorando por um milagre, como quando implorei para conhecer aquela garota do acidente, como quando implorei para ter uma nova chance e para poder amá-la.

Saí da capela e fui para o quarto de Lucy.Ela estava deitada na cama, com Cecília ao seu lado.Ela ficava acariciando e admirando o rosto da nossa filha.
-Oi, meu amor.-Ela sorriu, ao me ver.
-Oi, querida.-Me agachei ao lado da cama.Acariciei o rosto de Cecília e depois peguei a mão de Lucy.
-Tiraram sangue da Cecília.Ela chorou tanto!
-Eu vou conseguir achar alguém, Lucy.Nem que pra isso eu tenha que procurar na cidade inteira.-Eu disse, beijando as costas da mão dela.
-Eu te amo.
-Não me deixe, Lucy.Aguente mais um pouco.Eu vou conseguir.
-Eu sei que vai fazer o possível.-Ela tocou meu rosto.-Estou com a boca seca, Bill.Busque um pouco de água pra mim?
-Claro.

Me levantei e saí do quarto.Caminhei até o fim do corredor, onde havia um filtro, peguei um copo de água e voltei para o quarto.Lucy estava com os olhos fechados, segurando a mão de Cecília.Caminhei até o lado dela, me sentei na cama e pousei o copo sobre o criado-mudo.Me abaixei e beijei o rosto dela.
-Lucy.-Eu chamei, sorrindo.-Acorde, minha preguiçosa.Eu trouxe sua água.Você dorme muito rápido, sabia?-Eu beijei os lábios dela.Não senti o ar saindo de seu nariz.-Lucy!-Eu disse, balançando o corpo dela.-Isso não tem graça.Acorde!-Ela não respondia.-Lucy!-A abracei e comecei a chorar.-Não faz isso comigo, Lucy.Por favor, acorde!
-Bill, o que houve?-Yoko entrou no quarto.-O que aconteceu?
-Ela morreu, Yoko!-Eu chorava, abraçando Lucy com força.
-Não!-Ela disse, levando a mão a boca.-Eu vou buscar ajuda!

Ela saiu correndo, enquanto eu apertava o corpo inanimado de Lucy.Me lembrei de todas as vezes que ela me olhou com seu olhar inocente ou acusador.Me lembrei de nossas brigas e do fim delas.Me lembrei dos nossos beijos mais sutis e os mais selvagens, da voz dela cantando pra mim, de quando ela me ensinou a dançar...E agora ela estava morta.
-Bill, o que aconteceu?-Tom entrou no quarto, seguido por Juliette.
-Minha filha!-Jason disse, se sentando do outro lado da cama e pegando a mão de Lucy.-Não!
-Ela está...?-Juliette balbuciou, se aproximando devagar, espantada.
-Por quê você fez isso comigo, Lucy?-Eu estava desesperado.Estava acabado, não tinha esperança.
-Lucy!-Ouvi uma voz conhecida, entrando pelo quarto.
-O que você está fazendo aqui?-Eu disse, irritado.-Ela morreu!
-Não.-Dr.Morten disse, com tristeza.Andou até mim e afagou os cabelos de Lucy.
-Está feliz, Morten?No fim das contas nenhum de nós pôde ficar com ela!
-Claro que não estou feliz, Bill.-Seus olhos estavam encharcados.-Eu a amo.-Ele pegou a mão dela.
-Solte ela!-Eu gritei.
-Ela ainda está viva!
-O quê?
-Yoko.Chame a médica dela e alguns enfermeiros também.-Ele gritou.Yoko saiu correndo de novo.
-Lucy está viva?
-Sua pulsação está fraca, mas ela ainda está viva.

Alguns enfermeiros entraram, trazendo uma maca pra perto da cama.Tom me puxou pelo braço.Eu tentei resistir, mas ele me olhou com uma expressão firme, o que me fez afastar.Dr.Morten a pegou no colo, a deitou sobre a maca e a levou pra fora do quarto.Juliette segurou Cecília, que começou a chorar, assustada.Saí do quarto e fui atrás de Lucy.Os enfermeiros entraram em uma sala e fecharam a porta.Me sentei no chão, do lado de fora.Nada daquilo adiantaría, eu não tinha achado ninguém que pudesse doar a médula para Lucy.Era tarde demais...Eu estava sozinho.

Capítulo 41-Salvá-la pra você.


A porta se abriu e um dos enfermeiros me chamou para que eu entrasse.Eu respirei fundo e entrei apreensivo.
-Bill,-Dra.Honey disse.-Eu sinto muito.Conseguimos reanimá-la, mas ela está cada vez mais fraca.Não vamos conseguir salvá-la denovo.
-Deve haver algum jeito.
-Só com um transplante de médula.
-Ela está inconsciente?-Eu disse, olhando para Lucy.Ela estava deitada na cama, cheia de fios ligados a si.
-Está.Vamos levá-la para a UTI.
-É tão grave assim?
-É, Bill.Ela está morrendo aos poucos.
-Não posso deixar isso acontecer!
-Bill, não pode deixá-la sofrer desse jeito.Sinto muito, mas vai ter que desistir.Não há mais tempo.
-Não!Eu não posso deixá-la morrer.
-Bill...
-A mantenha viva por mais algumas horas.
-Não vou matá-la, Bill.Isso é crime.Vou fazer o possível pra que ela continue viva.Só estou te dando um conselho, pra que não...
-Dra.Honey.Eu a amo e enquanto ela estiver respirando eu vou procurar por ajuda.
-Você está certo.

Saí da sala e comecei a parar quem estivesse passando no corredor.Eu pedia pra que me ajudassem e fizessem um exame de sangue.Dizia que minha esposa estava morrendo.Andei por todos os andares, salas e quartos do hospital.Consegui convencer muita gente.Várias pessoas fizeram o exame.Ao receber a notícia de que ninguém era compatível, desisti.Todo o esforço que eu fizesse, todas as pessoas que encontrasse...Tudo sería envão.Eu perdería Lucy, de qualquer maneira.Procurei um dos corredores mais vazios do hospital, me sentei no chão e abracei os joelhos.Por quê estavamos sofrendo tanto?Todas as coisas que estavam acontecendo com Lucy, desde o acidente...Será que alguém estava me testando?Será que alguém duvidava do meu amor por Lucy?
-Bill.-Ouvi uma voz fina dizer.Abri os olhos e levantei a cabeça.
-Oi.-Eu disse, sorrindo.Uma garotinha de uns dez anos estava na minha frente.Tinha os cabelos compridos e lisos, e olhos verdes.- Quem é você?
-Meu nome é Juli.Por quê está chorando?-Ela perguntou se sentando ao meu lado.
-Uma pessoa que eu amo muito, está indo embora.
-Não pode deixar ela ir?
-Mas eu já fiz tudo o que podia.
-Já pediu a ela pra não deixar você?
-Muitas vezes.Ela não quer ir, mas...
-Ah, ela está indo morar no céu!-Ela exclamou.
-É.
-No ano passado, eu quase fui também.
-Por quê?
-Porque estava doente, oras.
-O que você tinha?-Eu sorri.
-Estava gripada.
-Gripada?
-É.Mas era uma gripe muito forte.-Ela arregalou os olhinhos verdes.
-Pneumonia?
-Acho que era esse negócio aí, mesmo.
-Quantos anos você tem?
-Nove.
-Parece ter bem mais.
-Todo mundo diz isso.Tem certeza que não se pode fazer mais nada?
-Acho que tenho.
-O que ela precisa pra continuar viva?
-Uma doação de medúla.
-Tá.E o que é isso?
-Digamos que, o lugar onde o sangue é feito.
-É por isso que minha mãe tirou sangue hoje cedo.
-Sua mãe fez o teste?
-Fez.Ela disse que eu podia fazer também, mas eu não quis.Odeio agulhas.
-Tudo bem.Não acho que você seja compatível.Do jeito que estou sem sorte...
-Mas agora quero fazer.-Ela pôs a mão sobre meu braço.
-Sério?Faria isso por mim?
-Claro.Adoro suas músicas.Minha irmão me levou ao seu show à uns meses atrás.Você precisa ver nosso quarto.Não tem um espaço branco, é todo revestido de posters.
-Então você vai ser minha fã número um?
-Claro!-Ela se levantou e me estendeu a mão.-Vamos depressa, antes que eu desista.
-Você é muito esperta, sabia?
-Eu sei.
-Espero que Cecília seja como você!
-Posso conhecer sua filha depois?
-Claro.

Caminhamos de mãos dadas até a sala de Alexia.Juli se sentou na cadeira e estendeu o braço.
-Juli.Resolveu nos ajudar?-Alexia disse.
-Resolvi.-Ela me olhou com medo, ao ver as agulhas.
-Quer segurar minha mão?-Eu perguntei.
-Se não se importar.

Eu segurei a pequena mão de Juli.Ela respirou fundo, apertou os olhos e não chorou quando Alexia tirou o sangue dela.Depois ela se levantou e saiu da sala, se sentou no banco e abaixou a cabeça.
-Pode chorar, Juli.-Eu disse, me abaixando na frente dela.-Tudo bem.Eu sei que dói.
-Não quero.Você vai pensar que não quis ajudar.
-Claro que não.Você me ajudou muito!-Eu tirei uma das minhas pulseiras e coloquei na mão dela.-Obrigado, Juli.
-Isso é...Pra mim?-Ela disse, pegando a pulseira e levantando sua mão para observá-la.
-Sim.Por ser minha fã número um!
-Espero que eu consiga salvar a Lucy.
-Como sabe o nome dela?
-Sei tudo sobre você, esqueceu?
-Obrigado.-Dei um beijo na testa dela.-Vamos conhecer a Cecília?
-Vamos.

Como Lucy foi para a UTI, Cecília foi levada de volta para o berçário.Deixei Juli com Helena e fui para o terraço.Fiquei pensando em Lucy, enquanto fumava um cigarro.Da última vez que a vi, ela estava inconsciente e á beira da morte.Cheia de fios e um tubo em sua boca.Estava pálida e com olheiras enormes.Por quê estavamos sofrendo tanto?Eramos tão jovens...Devíamos estar saindo pela cidade, brincando com nossa filha, visitando vários lugares...Curtindo a vida, soltos pelo mundo e não aqui, presos num hospital, cheios de preocupação.

-Bill!-Alexia veio correndo.-Juli!Juli é compatível!
-Sério?-Eu sorri.
-É.Leve isso para a Dra.Honey.-Ela me entregou um papel.-Espero que dê tudo certo.
-Também espero.

Corri para a sala da médica.Me sentia feliz.Finalmente tinha encontrado alguém que pudesse salvar Lucy.Entrei na sala da Dra., sem nem bater na porta.
-Você tem que parar de fazer isso, Bill.-Ela disse, atrás do biombo.
-Eu sei.Me desculpe, Dra., mas é que encontrei alguém compatível!
-Mesmo?-Ela veio em minha direção, sorrindo.
-É.Veja!-Eu entreguei o papel a ela.
-Deixe eu dar uma olhada.-Ela se sentou em sua mesa.Leu e releu o papel.
-E então?Quando podemos começar?-Eu disse, me sentando na cadeira.-É que Juli tem seis anos, então vai ficar com medo.Preciso prometer a ela um monte de coisas, pra convencê-la e...
-Bill, Juli não pode doar a medúla para Lucy.-Ela disse, sombria.
-Por quê?-Eu perguntei perplexo.
-Ela é aidética.
-Não.
-Sim.Quase morreu o ano passado com uma simples gripe.Ela foi adotada, depois que a mãe morreu com Aids.
-Mas foi a única que eu encontrei.
-Eu sei, Bill.Mas não podemos fazer isso!
-Então...Não tem chance?
-Infelizmente, não.
-Droga!-Eu disse, fechando os olhos.
-Eu sinto muito, Bill.
-Eu sei.-Eu disse, meio rudmente.-Onde ela está?
-Lucy está na UTI, no corredor à direita.

Me levantei e saí da sala.Não conseguia acreditar na minha falta de sorte.Pelo visto Deus tinha me ignorado completamente, como fiz com ele durante muito tempo.Não adiantava o quanto eu lutasse para mantê-la viva, nada que eu fizesse era o bastante.Fui para a UTI.Pelo vidro, vi Dr.Morten sentado ao lado da cama de Lucy, segurando sua mão.O que ele estava fazendo alí?Eu devia estar lá dentro!Eu era o marido dela!Girei a maçaneta da porta, mas ela não abriu.Ele estava trancado com ela lá dentro?Eu não podia acreditar.Ao ouvir o barulho da porta sendo forçada, ele se virou e me encarou assustado.Se levantou rapidamente e saiu da sala.
-O que você estava fazendo lá dentro?-Eu perguntei rispidamente.-Eu devia estar lá!
-Eu sei, Bill.Me desculpe.
-Desculpar?Que espécie de médico você é?
-Do que está falando?
-Devia estar fazendo tudo pra salvá-la.Devia estar buscando, pesquisando alguma forma...
-Mas, Bill, eu...
-Enquanto você ficou babando nela, eu procurei ajuda o dia inteiro!E não encontrei ninguém que pudesse ajudá-la.
-Eu sinto muito.
-Não sente!Você não a ama como diz, porque se amasse tería feito tudo por ela!
-Eu já fiz o que podia, Bill.
-O que você fez?Ficou olhando ela o dia inteiro?
-Eu não sabia que você era tão ignorante!-Ele respondeu, sério.
-Não me diga como devo agir!Lucy está morrendo!E parece que sou o único que se importa com isso...O único que tem lutado contra isso esse tempo todo!
-Bill, acalme-se.
-Não vou ficar calmo.-Eu disse, chorando de raiva.-Eu estou cansado.Tenho procurado ajuda desde que descobri que ela estava doente.
-Posso falar agora?
-Não!Eu preciso ficar perto dela...Ela vai morrer.
-Não vai.-Ele balançou a cabeça negativamente.
-Não?Você acredita em milagres?Não, já sei...-Eu disse com irônia.-Você fez uma mágica, que poderá salvá-la.
-Eu fiz o teste e sou compatível.Vou doar a medúla pra ela.
-O quê?-Eu sussurrei, escorando na parede.Me sentia envergonhado por ter brigado tanto com ele.
-Mesmo com tantos fios e com a palidez na pele...Ela ainda é tão linda!-Ele disse, olhando pelo vidro, enxugando os olhos por baixo dos óculos.
-Vo-você...É compatível?
-Eu acho que minha única missão na vida, é salvá-la.-Ele suspirou.-Salvá-la pra você.
-Morten...Eu...Desculpe pelas coisas...-Eu balbuciei.
-Esquece.Você está nervoso.Entre lá, fique com ela.Vou falar com a Dra.Honey.
-Eu estou muito envergonhado, mesmo!
-Esquece isso.-Ele virou as costas, deu alguns passos e depois se virou pra mim.-Eu não fiquei aqui o dia todo, Bill.Estava apenas conversando com ela, pedindo pra que ela aguentasse mais um pouco.Eu sei que ela pode nos ouvir.Eu procurei por ajuda o dia inteiro, na cidade inteira!Como você.
-Me desculpe!-Eu disse.Estava muito envergonhado.
-Tudo bem, Bill.Qualquer um perdería a cabeça por ela!Eu já tería enlouquecido, se tivesse no seu lugar.

Caminhei até a capela, me sentei em um dos bancos de madeira e chorei.Me sentia aliviado e fracassado ao mesmo tempo.Procurei tanto por ajuda e no fim das contas, quem a ajudou talvez amasse ela mais do que eu.
-Deus, eu fiz tudo o que podia por ela...-Eu disse, contemplando a imagem.-Mas parece que não adiantou.Mesmo assim, obrigado.

Final



Entrei no quarto de Lucy.Ela estava deitada de costas na cama, com os olhos fechados.Me aproximei e me sentei na cama.Sua pele já estava corada, seus lábios rosados e suas olheras tinham desaparecido.Senti minhas lágrimas quentes descerem pelo meu rosto, morrendo frias nos cantos da minha boca.Agora eram lágrimas de alívio, de agradecimento e de felicidade.Minha Lucy estava viva e salva.
-Oi, Bill.-Ouvi sua voz doce, saindo mais forte que antes.
-Oi, meu amor.Como está se sentindo?
-Dr.Morten salvou minha vida denovo.
-Salvou.-Eu disse, me deitando ao lado dela, rodeando seu corpo com meus braços.
-Esse deve ser o lado bom de ser médico.-Ela beijou minha mão.-Salvar vidas.
-Não, Lucy.Esse é o lado bom de amar você.Salvar a sua vida.
-Do que está falando?
-Ele te ama, tanto quanto eu.
-O quê?
-Fez isso por amor, Lucy.
-Nossa.Eu...Não sei o que dizer.
-Talvez ele fosse mais digno de ficar com você.
-Por quê diz isso?
-Desde que nos encontramos, você só teve problemas...E Morten te salvou de todos eles.
-Mas uma coisa ele nunca vai conseguir, Bill.
-O quê?
-Realizar todos os meus sonhos.
-Com todos esses problemas, eu percebi que sempre fui um fraco, Lucy.Um covarde, mas por você eu luto com todas as armas que eu tiver.Até fiz uma oração na capela do hospital, acredita?-Eu ri.
-Morten pode ter feito a doação, mas você me salvou.Me disseram que você convenceu o hospital inteiro a fazer o teste.
-Eu disse que não ia deixar você morrer!-Me virei para encará-la.Toquei seu rosto e olhei nos seus olhos claros.-Eu não posso viver sem seus olhos, sem seu sorriso...Não posso viver um dia, sem ver você.
-Talvez os eclipses durem para sempre.
-No nosso caso, sim.
-Bill, me leva pra ver o céu?

O céu estava estrelado, em pleno inverno.O vento estava congelante.Lucy dava passos lentos pelo terraço, olhando para a cidade.
-Eu também percebi que posso ser forte, se estiver com você!-Ela disse, sorrindo.
-Talvez esse seja o problema dos casais.-Eu a abracei por trás, olhando para a cidade.-São fracos demais pra lutarem pelo outro e por si mesmos, por isso acabam se separando?
-Lembra que eu te disse que não seríamos como seus pais?
-Lembro.
-Nós podemos vencer qualquer problema, Bill.Nada vai poder nos separar...Nem a morte.-Ela se virou e me olhou.-Você foi capaz de coisas que ninguém faría.Foi capaz de me surpreender, de me salvar tantas vezes, de brigar por mim, de não se conformar com o fim...Até eu tinha aceita que ia morrer.Eu tinha certeza que não tinha jeito de sair dessa, mas você sempre me mostra o contrário, Bill.Eu sinto muito por não amar o Morten, porque ele é um homem bom e merece isso...Mas você é capaz de tudo por mim!Foi o único que fez o possível e o impossível pra me salvar.
-Eu te amo.E vou continuar lutando por você, aconteça o que acontecer.-Eu beijei seus lábios de leve e a abracei.
-Mesmo tão doente e quase morrendo, eu nunca fui tão feliz quanto nesses últimos meses.
-Dizem que não existe felicidade e sim momentos felizes...Eu vou te fazer feliz em todos os momentos.
-Vamos ser uma família feliz, Bill.Agora nada pode nos separar.
-Canta pra mim?-Eu sussurrei no ouvido dela.

''You waited for me
When I was strong
You never called
You waited long
Now I come back
To sleep with you
You love me still
I love you, too

Come with me
To that room by the sea
With the view of the moon of Los Angeles
You're beautiful back then
God, you're beautiful now
Come with me''


Anos depois, Gustav se mudou para San Angelo e se casou com Amanda.Tom e Juliette tiveram um casal de gêmeos, que passam o maior tempo com Jason em San Angelo.Victor se tornou o maior estilista do país.George se mudou para Los Angeles e se casou com Lívia, a mãe adotiva de Juli, e fizeram uma campanha mundial contra a aids.Cecília ganhou o primeiro lugar em corrida de cavalos do Texas com sete anos.Eu e Lucy tivemos mais um filho chamado Joe, que entregou as alianças para Yoko e Morten, de quem somos padrinhos.

Aquela casa, com um lago no jardim, continua sendo nosso refúgio, em algum lugar no km 66.

Fim

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